Pessoas fazendo barulho durante a madrugada, perturbando a vizinhança. Famílias relativamente pobres que, ao ganharem na loteria, passam a ter a ganância burguesa. Gente que prefere torrar dinheiro com cigarros do que dar um pouco de dinheiro a um faminto para comprar um prato de comida. Indivíduos abastados, com mal disfarçada frieza, dizendo a alguém com dificuldades na vida para “rezar para Deus que tudo muda”. Gente bem de vida que puxa o tapete daquele que precisa de emprego e lhe rouba a vaga.
Juntamos isso a espécies como aquele pai de família abastado que, sofrendo da Síndrome do Cumpridor de Deveres - vamos explicar isso numa outra oportunidade - , os “animais consumistas” (cuja única razão de ser é ter dinheiro e bens, visando apenas o status) e outros tipos, vemos o que esse período significa.
Trata-se da Pandemia do Egoísmo. Depois da Covid-19, as pessoas consideradas bem de vida surtaram e passaram a sentir uma vontade louca de ter bens, dinheiro e se entregar à diversão de forma cega, frenética e desesperada, de forma animalesca. A felicidade passou a ser vista como um bem “pessoal e intransferível”.
A burguesia ilustrada e sua “comitiva”, incluindo os “pobres de novela”, simbolizam,nos últimos anos, o apetite desmedido e a gula por uma aparente prosperidade socioeconômica que se torna exagerada.
É muito consumo, busca louca e obsessiva por emoções baratas. Festas de aniversário sem aniversariantes só para justificar o aluguel de salões de festas. Compras de supérfluos em grandes quantidades. Viagens desnecessárias para Bariloche, Cancún e até Paris. Happy hour ocorrendo nas vésperas de dias de trabalho, todo dia da semana.
Os instintos animalescos falam mais alto, e até em situações comuns o “animal consumista”, quando tem sede, não vai a um bebedouro próximo, mas à primeira lanchonete ou bar que encontrar na frente para tomar uma cerveja. Cigarros também são consumidos de maneira impulsiva por essa patota que se desumaniza em nome do “deus dinheiro”.
É verdade que isso se tornou o efeito natural da decadência da Covid-19, mas foi como abrir a jaula para as feras correrem ensandecidas. Mas o sonho da “sociedade do amor”, sem medo e sem amor, se desfaz com essa sanha de comprar, curtir e consumir, mas nada que acrescente de relevante para as pessoas. “Ter” era o mesmo que “ser” e o Brasil de Lula 3.0 era voltado mais para as pessoas que festejavam de madrugada com gritos e barulho do que para o trabalhador que precisa dormir a noite toda para acordar mais disposto para o trabalho.
No Brasil culturalmente devastado, quem estivesse fora dessa “festa do amor” e estava excluído nesse espetáculo da “inclusão social”, estava invisível socialmente. Quem tinha dívidas, que se virasse para pagar. Quem não tinha emprego ou, se tinha, as finanças continuavam apertadas, ninguém ajudava. Ou alguém, na sua cordial hipocrisia, lhe recomendava apenas a “orar para Deus”. E, na vida, é cada um por si, mesmo na sociedade que, hipócrita, pede "mais amor, por favor", pois pedem aos outros o amor que não podem dar.
2023 foi o ano em que a elite do bom atraso experimentava um período de liberdade e de felicidade para si mesma. Com as viagens ao exterior de Lula, o povo pobre se sentiu abandonado e traído, mas era proibido divulgar essa realidade. As redes sociais baniram, na época, o pensamento crítico, e a narrativa que valia era a mentira agradável ou a ilusão que conforta, não a verdade que fere.
Desta forma, tínhamos que acreditar em contos de fadas. Lula, mesmo flertando com a Faria Lima, era sempre o “esquerdista raiz” ou o “democrático pleno”. A burguesia ilustrada “não” existia, pois essa elite se achava mais povo que o povo”. Consumir supérfluos teria que ser visto como “sinônimo” de obter “artigos de primeira necessidade”.
2023 era o ano do AI-SIMco, ninguém poderia contestar a felicidade de uns poucos. O Brasil transformado num parque de diversões, com o empresariado se enriquecendo demais às custas da diversão que sacrifica o orçamento de muitas pessoas e explora o trabalho opressivo de outras mais numerosas.
Um país no qual loterias viram fábricas de gananciosos, corretores trabalham de graça e moradores de rua vivem a miséria extrema na incerteza de um futuro melhor. A falsidade humana impera e até na fé "bispos" e "médiuns" exploram a credulidade alheia oferecendo paraísos fictícios para que os oprimidos sejam induzidos a aceitarem suas vidas degradantes.
Neste parque de diversões chamado Brasil, quem estivesse fora da “festa da inclusão”, que chorasse no seu canto. A Pandemia do Egoísmo prometia “amor e prosperidade” a poucos, e isso demonstra como a substituição do “gabinete do ódio” pela “sociedade do amor” acabou sendo como trocar seis por meia-dúzia.

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