A elite do bom atraso não tolera críticas. Com sei cão de guarda chamado negacionista factual, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, não quer ser contrariada, pois finalmente atingiu a plenitude e obteve as conquistas sonhadas pelos seus avós golpistas em 1964.
Transformando o Brasil num grande parque de diversões, vivemos uma ilusão de hedonismo sem limites que mal consegue mascarar a carestia de preços e o trabalho precário, que ocorrem sob o aparato desta “felicidade” lúdica.
Mas denunciar o lado sombrio dessa ilusão irrita o negacionista factual, que não gosta muito de fatos que não lhe agradam, embora seu apetite por mentiras não tenha o nível insano dos bolsonaristas. O negacionista factual não é uma pessoa apaixonada por fake news, ainda que seja pouco inclinado a apreciar a verdade dos fatos.
A elite do bom atraso, na terceira geração depois que foi realizado o golpe de 1964, representa o estágio da realização plena. Seus avós derrubaram João Goulart sob o medo de um país comandado pelas classes populares. Seus pais, no período do “milagre brasileiro”, começaram a traçar um modelo de país marcado pela relativa liberdade popular, sob os limites de uma hierarquia que detinha o monopólio do saber e das decisões superiores.
A geração que pediu a queda de Jango era mais raivosa. A geração do milagre brasileiro e da Era Geisel era estratégica e dotada de logística política e social. Já a geração atual procura ser mais publicitária e dissimulada. Os indivíduos de hoje chegam mesmo a se proclamar “de esquerda” e parecer bastante modernos.
Vivendo a expectativa da reeleição de Lula, a elite do bom atraso adotou a postura por ver no petista alguém a atender as vontades da burguesia bronzeada. No momento, Lula voltou a priorizar a política externa, agora cortejando a ONU no episódio do “Conselho de Paz” de Donald Trump. Antes, por conta do Sul Global, Lula havia criticado a ONU e preferido enfatizar um bloco paralelo de nações emergentes, chegando a aumentar o número de participantes do grupo dos BRICS.
A elite do bom atraso vive um momento na qual ela sente um complexo de superioridade, por conta do clima de euforia obsessiva e hedonismo sem limites. Os negacionistas factuais andam lutando contra os fatos e desqualificando o senso crítico, tudo para que se prevaleça um modelo de Brasil desenhado na Era Geisel mas "ressignificado" pelas esquerdas médias.
Vemos que a elite do bom atraso, agora "mais democrática", se acha a "classe mais legal do mundo" e mantém sua supremacia no Brasil. Mas agora seu sonho é exercer a supremacia mundial, desqualificando EUA e Europa como "sociedades obsoletas", apesar do viralatismo que coloca a burguesia ilustrada em sintonia com o comercialismo hit-parade estadunidense, modelo para o pop popularesco dos últimos anos.
Não se trata, conforme alertamos, da ascensão do povo brasileiro na geopolítica planetária, mas apenas a ascensão de uma elite que se considera "superior" em território nacional, mas nunca é levada a sério pelo restante do planeta.
Agora a burguesia ilustrada, que fez sua "revolução à francesa" sob o disfarce de um "socialismo de butique e de botequim" e sob o aparato de uma "Contracultura de resultados", luta para manter o poder reconquistado em 2023, que na verdade é a consagração, a reafirmação mas, de outro modo, a repaginação do poder sonhado pelos vovôs e vovós que marcharam com a família pela "liberdade", com rosários do Padre Peyton e artigos do IPES-IBAD na mão.
"Liberdade" e "democracia" evocados em 1964 não são diferentes das duas palavras em 2022. Elas se referem a uma mesma elite, a carga emotiva é que mudou um pouquinho, pois a burguesia de seis décadas atrás não aguentava um minuto com Jango no poder, e a burguesia de hoje quer reeleição de Lula e já anunciou que vai votar nele quantas vezes puder. São as conveniências que mudam as pessoas, diante de um ex-sindicalista que virou pelego e uma elite preocupada em parecer "tudo de bom".
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