Uma das culturas que são muito difíceis de serem implantadas no Brasil é a cultura country. Desde quando eu era criança, achava o country muito, digamos, “country”, no sentido estadunidense do termo. Uma coisa bem fechada no estado de espírito do povo dos EUA.
A cultura dos caubóis - termo abrasileirado num país que resiste em traduzir bullying como “valentonismo” - é bem típica dos EUA: é expressão das sociedades rurais de Estados como Texas, Tennessee, Alabama e Geórgia. É algo bem estadunidense, no sentido privativo da nação mais poderosa do mundo.
O estilo do vaqueiro, aquela mentalidade do Velho Oeste, o tipo de fazendeiros nessas regiões, o figurão caipira - que no inglês significa hillbilly, o “Gui da colina” traduzido ao pé da letra - , tudo isso tem a ver com os EUA, com a alma estadunidense, fortemente norte-americana.
Não vejo probabilidade de desenvolver uma brasilidade em torno disso. Quando se introduz o country no Brasil, poucos conseguem ser bem sucedidos, como Raul Seixas e Eduardo Araújo, por exemplo.
A cultura country, quando introduzida no Brasil, é quase sempre no terreno do viralatismo e não da antropofagia. É sempre aquele caubói caricato e estereotipado, sem uma noção de brasilidade, sem um vínculo histórico com as raízes caipiras de nosso país. Parece mais aquele caipira fake, saído de alguma novela da televisão.
Mesmo o agronegócio e a pecuária, setores com grande força no mercado rural brasileiro, não justificam a suposta brasilidade no country. Ser country no Brasil, mesmo em Goiânia, é bem mais difícil do que ser alemão ou italiano no território brasileiro.
Bancar o novaiorquino em São Paulo é mais fácil. O hip hop conseguiu ter uma adaptação brasileira com expressividade e até uma temática social bem própria e caraterística de nosso país, pois os rappers falavam de uma realidade local, falam do cotidiano do Brasil.
E o country? Foca difícil. Talvez poucos consigam. Não é qualquer pessoa que imita caubói de cinema que será um entendedor de cultura country. E, cá para nós, trazer o estado de espírito das elites rurais dos EUA só faz sentido para os latifundiários e os grandes proprietários de agronegócio e da pecuária. Uma coisa é certa: não se faz reforma agrária imitando os caubóis da terra de Titio Samuca.
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