No seu medíocre terceiro mandato, Lula só foi fazer as coisas na última hora, pressionado pela queda de popularidade. Nos dois primeiros anos deste mandato, Lula preferiu viajar pelo mundo e fazer discursos, enquanto a ficção dos relatorismos falava em "recordes históricos", supostas realizações que, de tão fantásticas, fáceis e imediatas demais, parecendo ter surgido da noite para o dia, causavam desconfiança nas classes populares, que não viam essas realizações se concretizarem no seu cotidiano.
Ontem Lula fez um discurso para o Dia do Trabalhador. As comunicações do seu governo se limitam ao âmbito da publicidade, não sensibilizando o povo que está revoltado com dívidas e com alimentos caros, enquanto o salário mínimo só aumenta em índices bastante precários, que não acompanham o crescimento dos preços.
Lula tenta agradar, defendendo o fim da escala 6x1 no trabalho e retomou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas dos brasileiros, permitindo a liberação de até 20% do FGTS para pagamento de dívidas. Mas o presidente não consegue recuperar a popularidade, apesar das supostas pesquisas de opinião sinalizarem neste sentido.
O problema é que Lula peca pelo pragmatismo, usando a palavra "estratégia" como eufemismo para os erros que comete e que, supostamente, trazem algum resultado visto como "positivo" pelos seus seguidores. Como, por exemplo, as viagens ao exterior, que adiaram até o combate à fome e deixaram as promessas de reconstrução do país caírem no ridículo.
A ênfase na política externa acabou fortalecendo a narrativa bolsonarista, a de que o "Luladrão roubou o dinheiro público para viajar pelo mundo com sua Janja". Há até mesmo uma charge nas redes sociais, produzida via Inteligência Artificial, com Lula e Janja embarcando sorridentes num avião enquanto um pobre cidadão, com camiseta do PT, carrega um monte de peso com as palavras relacionadas a impostos e despesas.
Lula tentou agradar a burguesia, as autoridades internacionais, o empresariado e até os setores conservadores do Legislativo. Se esqueceu, todavia, de fortalecer as alianças com o povo. Não adianta Lula, à distância, dizer que pensa nos brasileiros ou tentar agradá-los. O povo pobre sente que não há a necessária dedicação presencial, sobretudo num contexto em que o próprio Lula define como "devastação do Brasil", atribuída ao governo anterior de Jair Bolsonaro.
O presidente brasileiro, aliás, usou a palavra "democracia" para se distanciar de seus princípios e se aproximar de forças divergentes, por puro pragmatismo político. Lula entrou no modo "MDB" e se aproximou de setores neoliberais e, nos EUA, da direita moderada, visando obter vantagens e apoio, além da governabilidade, mas se distanciou das bases populares, hoje decepcionadas com o presidente.
Lula chegou mesmo a entregar para a "livre negociação" entre empresários e trabalhadores as pautas trabalhistas, enquanto o presidente brasileiro, sem a menor necessidade, propunha "planos de paz" para Ucrânia e Rússia e para Israel e o povo palestino. Lula aumentava pouco o salário mínimo, mas também autorizava ao seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cortes de investimentos em Educação pública, revoltando os servidores e professores do setor.
O preço disso tudo são as derrotas que podem sacrificar sua reeleição. A homenagem a Lula por um samba-enredo de escola de samba acabou desgastando o presidente, que não vetou a medida que soava como um crime eleitoral, colocando o petista em vantagem sobre outros virtuais candidatos.
A falta de medidas concretas para a população fez Lula adotar a postura patética de querer divulgar as "magníficas realizações" do seu governo, que o presidente julgava "desconhecidas" do povo pobre. As estratégias de comunicação eram pouco eficazes e inócuas: meras propagandas institucionais que passam batido como comerciais de TV ou de Internet que o povo evitava ver até mesmo por desinteresse.
Além do mais, Lula queria fazer o inadmissível: tentar provar, para o trabalhador que vê sua geladeira ficar fazia de comida, que ele tinha "fartura de comida" dentro deste eletrodoméstico. Ou seja, se a geladeira do pobre está vazia, o governo Lula tentava convencer que essa mesma geladeira estava "cheia de comida" e convinha ao pobre trabalhador acreditar nisso.
A derrota recente de Lula está na rejeição de Jorge Messias, advogado que atuou na Advocacia-Geral da União, para o Supremo Tribunal Federal (STF), após as sabatinas na Câmara dos Deputados e no Senado.
O governo Lula sinalizou que romperá definitivamente com o presidente do Senado, David Alcolumbre (União-AP), que irá articular a votação da PL da Dosimetria, projeto que busca aliviar as penas para os revoltosos de oito de janeiro de 2023, evitando a soma de penas para crimes de golpes de Estado e apenas dando condenações leves aos envolvidos nesta revolta e nas reuniões golpistas de Jair Bolsonaro e vários generais em 2022.
A reprovação dos senadores é considerada a pior derrota para Lula em toda a história do petista, mesmo levando em conta que o aspirante a ministro do órgão era evangélico, tendência religiosa que o presidente buscava atrair para sua reeleição.
Lula não buscou realizações concretas. Ele preferiu sua autoconsagração mundial e a celebração de si mesmo, principalmente nos discursos. Preferiu a festa à reconstrução e, quando decidiu trabalhar mais nas pautas sociais e trabalhistas, foi tarde demais.
Hoje Lula paga pela sua falta de cautela. Impulsivo, Lula não ouve conselhos, não faz autocrítica, e faz conforme suas vontades pessoais. Ele só começa a reconhecer os erros quando eles se tornam drásticos e ameaçadores.
Lula enfrenta uma rejeição mais grave que os institutos de pesquisa alegam e sofre a pressão dos bolsonaristas nas redes sociais. Ele paga o preço caro do pragmatismo, das alianças flexíveis demais, de colocar a festa antes do trabalho de reconstrução e do abandono das classes populares, que não vão passar pano nos erros do petista.
Com isso, as chances de Lula ser reeleito começam a diminuir e Flávio Bolsonaro já começa a se tornar um risco real para o país. É hora da terceira via começar a entrar na disputa, para criar novas alternativas de ação política. A polarização é uma ameaça para o Brasil.
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