ACREDITE SE QUISER, MAS ULTIMAMENTE MUITA GENTE PENSA QUE "LUA DE CRISTAL", SUCESSO DE XUXA MENEGHEL, É UMA "CANÇÃO DE PROTESTO".
O pop comercial de hoje vive seu complexo de superioridade. Seus fãs, dotados de muita arrogância, chegam a fazer ataques contra a música de qualidade. Acham que a chamada “música de sucesso” é superior só porque atrai um grande público jovem e que se sustenta pela forte presença nas redes sociais e nas páginas de celebridades (e subcelebridades).
Embora se baseie estruturalmente no pop dançante dos anos 1980 e 1990, esse pop comercial, nos últimos anos, tenta iludir a opinião pública com um falso engajamento e uma falsa militância que fez até as pessoas, no Brasil, acreditarem que sucessos da axé-music e do pop infantil brasileiros fossem “canções de protesto”. E muita gente boa, de nossa crítica musical, embarca nessa armadilha.
Do Bad Bunny ao BTS, de Xuxa Meneghel ao grupo As Meninas, a atribuição de falso engajamento sociopolítico e músicas culturalmente inofensivas é um recurso do mercado para prolongar o sucesso desses intérpretes, aproveitando a onda do identitarismo cultural da sociedade woke.
A principal desculpa é o uso do prazer e da diversão, usados como fins em si mesmos, como meio de autoafirmação da juventude. O cenário utilizado são os festivais de música que tentam reproduzir a estética de Woodstock e que se transformam em meros parques de diversões cuja música qualquer nota serve de trilha sonora para o cotidiano vazio de jovens apegados no celular e no consumismo subserviente.
São jovens mais obedientes ao “sistema” do que se imagina. O “sistema” já faz concessões, como liberar o espaço de entretenimento para o hedonismo, em parte atendendo à demanda da comunidade LGBTQIA+. Afinal, essas brechas sociais são ótimas para o capitalismo, pois são novas demandas para o consumo.
A obediência desse público woke é demonstrada pela comodidade com que consomem lanches industrializados e aceitam trabalhar em empregos precários. Seu caráter de mobilização é fraco, restrito a pautas de costumes ou a causas da moda decididas “de cima”.
O que esse público não percebe é que mesmo o pop que consome é amestrado e servil aos interesses de homens mais velhos do que essa juventude. O empresariado que monitora, controla e até manipula os “subversivos” nomes do pop atual têm as idades dos pais de seus fãs.
Isso se demonstra pela influência de poderosos empresários no pop juvenil contemporâneo. No K-Pop, a influência empresarial não só se mostra como o público sabe disso, apesar da ilusão de “engajamento” os cantores e grupos envolvidos. Sim, fala-se de ídolos do pop sul-coreano como se fossem funcionários dessas empresas de agenciamento de carreira.
O pop estadunidense é comandado pelo músico, produtor e empresário Max Martin, dinamarquês radicado nos EUA. Ele tem 55 anos e controla o gosto musical de gente com idade para ser os filhos dele. A música jovem de hoje é manipulada por alguém de 50 e tantos anos e isso é assustador. Ídolos que se passam por “subversivos” e “transgressores que, em verdade, não passam de fantoches de um senhor homem de negócios.
No Brasil, a música brega-popularesca e o pop convencional (neste caso leia-se Luísa Sonza e similares) também são fruto de empresas de entretenimento poderosíssimas, controladas por gente adulta que transforma o público jovem em marionetes consumistas, dentro de um faz-de-conta de pretensa liberdade que não passa de uma mera escravidão inconsciente aos instintos impulsivos.
Essas empresas brasileiras chegam a combinar com a mídia venal modismos pretensamente nostálgicos, como o brega vintage e o pretenso saudosismo infantil, pelo qual a geração nascida a partir de 1978, que foi "convidada" a uma adolescência antecipada através do Xou da Xuxa, agora acolhe o pop infantilizado de Xuxa Meneghel, Trem da Alegria, Balão Mágico e afins como se fosse algo supostamente "arrojado" e "cult".
Esse falso engajamento, seja do pop internacional ou do brasileiro. é fruto de uma mentalidade estratégica de homens de negócios de cerca de 40, 50 anos, que, inspirados nos CEOs das big techs, criam uma "atmosfera livre" n seu pop comercial, com direito a aparentes desabafos musicais de seus ídolos juvenis, que, caprichando na excentricidade visual banalizada, se tornam símbolos de falso engajamento, tornando inócuos elementos que antes eram considerados subversão, rebeldia e até cultura alternativa, mas hoje são apenas mainstream.
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