CENA DO MINIDOCUMENTÁRIO MEXEU COMIGO, SOBRE A CENA DO ARROCHA EM SERGIPE.
Diferente da porralouquice de gente como o professor baiano Milton Moura e seus “pagodes impertinentes” e do “filho da Folha” Pedro Alexandre Sanches brincar de ser “bom esquerdista”, ressurge um movimento de intelectuais e jornalistas que querem fazer renascer o “combate ao preconceito” da bregalização, agora sob o verniz da “objetividade”.
A postura generalizada do “capitalismo musical” do músico baiano Rodrigo Lamore, colunista do Brasil 247, e as leituras do colunista Augusto Diniz da Carta Capital, numa linha parecida com a de Mauro Ferreira no portal G1, refletem essa onda de ‘“imparcialidade” na análise sobre música brasileira.
No caso do Rodrigo Lamore, ele tenta generalizar a condição de “mercadoria” da música, como se não pudesse haver a função social, artística e cultural na atividade musical. Parece papo de ressentido. Se nomes popularescos, só para citar os da axé-music (o ensaísta também é músico baiano), como Ivete Sangalo e Bell Marques, não podem ser considerados “não-comerciais”, então que se chame Legião Urbana de “comercial”.
Essa falácia estimula, nas redes sociais, a visão terraplanista de que o que é comercial é “anti-comercial” e o que realmente é anti-comercial é tido como “comercial”. A desculpa é o envolvimento afetivo do público com o sucesso comercial do momento, cujo ressentimento pelo vazio artístico faz com que se xingue os verdadeiros nomes musicais de “mercenários”, por uma questão de inveja.
A desculpa é essa: o sucesso popularesco falaria “da vida da pessoa” enquanto na música de qualidade batalhas jurídicas dão a falsa noção de “mercenarismo” dos artistas genuínos. Pura hipocrisia chamar João Gilberto, um dos mestres maiores da Bossa Nova, de “magnata”, pois ele morreu pobre. Enquanto isso, ídolos do arrocha se enriquecem comprando carros importados e mansões e eles são os “pobrezinhos”.
Falando em arrocha, Augusto Diniz menciona o minidocumentário Mexeu Comigo, dos cineastas Danilo Rodrigues, J. Hiago Oliveira e Sara Maylyne, lançado em 2024 e dedicado à cena do referido estilo popularesco em Sergipe. Dentro de uma abordagem correta segundo as normas do jornalismo, Diniz erra por classificar o arrocha como “à margem do mainstream”.
Nada disso. Toda a música brega-popularesca é mainstream, o establishment musical no Brasil é popularesco. E isso vai desde nomes “sofisticados” como Ivete Sangalo, Michael Sullivan e Chitãozinho & Xororó a “emergentes” vindos do trap, piseiro e o próprio arrocha, todos seguindo uma perspectiva mainstream. A música brega-popularesca é a música comercial brasileira por excelência.
Tanto o arrocha é mainstream que ele penetrou no mercado paulistano através de parcerias comerciais com o "sertanejo", há cerca de dez anos, e com o piseiro, mais recentemente, sendo tocado em grande parte dos bares da capital paulista.
É claro que, num contexto em que Amado Batista, hoje, é denunciado por exploração de trabalho escravo e, meses atrás, a cantora Cláudia Leitte é acusada de intolerância às religiões afro-brasileiras, não dá mais para pensar na “frente ampla contra o preconceito” da música popularesca. Mesmo as abordagens mais apologéticas precisam ser seletivas e o elenco de ídolos musicais envolvidos é menor do que há mais de 20 anos.
Há uma preocupação em gourmetizar a música brega-popularesca por parte de uma intelectualidade integrada à burguesia. É certo que soa bem intencionado em levantar aspectos de linguagem musical, de enumerar aspectos sociológicos e antropológicos no lazer popularesco, mas é necessário ver a diferença entre a música brasileira de qualidade e o comercialismo brega-popularesco.
A gourmetização da música brega-popularesca reflete uma visão paternalista de uma intelectualidade burguesa que quer parecer “generosa” com o povo pobre. E demonstra, também, que a aparente abordagem “imparcial” não livra os apologistas do brega-popularesco de adotarem uma ótica idealizada em relação aos pobres sendo mais um aparato objetivo para juízos de valor supostamente positivos.
Enquanto isso, a cultura brasileira se mediocriza com nossos intelectuais e jornalistas assinando embaixo. A mídia hegemônica agradece.
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