A BURGUESIA AGORA DEFENDE A REELEIÇÃO DE LULA PORQUE VÊ QUE O BUMERANGUE DO GOLPE DE 1964 SE VOLTA CONTRA ESSA CLASSE.
O triunfalismo “na marra” de Lula demonstra uma simbologia que não encaixa nas narrativas de seus adeptos, os lulistas, nem nos detratores diretos e radicais, como os bolsonaristas. Afinal, ela escapa de qualquer compreensão simplória e prosaica, que faz unir lulistas e bolsonaristas em torno de uma ideia hoje sem sentido: a de que Lula é um político vinculado ao povo pobre.
Lula se vendeu para as elites. Chamamos a atenção para o peleguismo político do petista, que exagerou na dose de seu instinto conciliador e, entre outras políticas que decepcionaram as classes populares, está nos salários mínimos que não conseguem suprir as necessidades das classes populares.
As narrativas lutam para manter Lula vinculado às classes populares, num país em que se cria desculpa para qualquer inverdade. Muitos montam uma boa estória e brigam contra os fatos com uma agressiva obstinação. A realidade se tornou escrava de vaidades e desejos de qualquer um.
Nosso blogue é um dos poucos que conseguem respeitar os fatos, numa época em que o Brasil vive a era do “jornalismo de escritório”, que é a imprensa ditada pelos conselhos editoriais, que se ascendeu após o passaralho que tirou muitos repórteres experientes que estavam mais comprometidos com os fatos e com a vida humana.
A liberdade de imprensa deu lugar a uma aparente “liberdade” de interpretação dos fatos e isso reflete no tom polarizado das narrativas em torno de Lula. O mito do “Luladrão” é conhecido e faz os lulistas caírem em risadas, de tão caricata é tal narrativa, própria do bolsonarismo.
Já a narrativa lulista, compartilhada por setores da direita moderada, tende a manter o mito de Lula como “líder popular”, se não baseado no antigo líder sindical, considerado “subversivo” para sua narrativa oficial, pelo menos inspirado no “retirante nordestino” e no “filho de Dona Lindu”.
Poderíamos idealizar e ressignificar até as gafes de Lula, além de suas concessões ao neoliberalismo. Poderíamos interpretar essas mudanças não como uma alteração da conduta de Lula, mas como uma mudança desses fenômenos para se adequar à tese do “esquerdismo inabalável” do “maior líder popular” da História contemporânea mundial.
A narrativa descrita no parágrafo acima poderia atrair mais leitores, fazer muita gente dormir tranquila e até criar um pretenso consenso. Mas ignorar que Lula mudou, e para pior, criaria problemas sérios se apelarmos para narrativas agradáveis aos lulistas.
É verídico, portanto, que a burguesia ilustrada, heterodoxa e flexível, é a classe que está apoiando a reeleição de Lula. Descendentes das velhas elites golpistas que lutaram contra João Goulart em 1964, essa elite, ao receber um modelo de país construído por seus pais e avós, não tem mais o que temer, daí podendo até se passar por “esquerdistas”, não porque se identificam com tais causas, mas porque acham cool serem “de esquerda”.
E essa classe, ao ver a mudança dos tempos, certamente não se tornou mais humanista nem altruísta e muito menos democrática. Ela apenas viu que não há mais motivos para terem as mesmas neuroses que seus avós. As forças sociais que representavam sérias ameaças às elites nos tempos de Jango e que resistiram nos primeiros cinco anos da ditadura militar foram domesticadas ou estão enfraquecidas.
Por isso mesmo, diante da debilidade dos segmentos que representavam as esquerdas nos anos 1960, os netos da geração que foi a parte civil de defesa do golpe de 1964 viraram a maior base de apoio de Lula a partir de 2022. O projeto político de Lula suavizou em relação aos projetos de esquerda de outrora e hoje as elites nem se intimidam mais, pois o petista não só não oferece perigo como está disposto a atender aos interesses dessa classe do privilégio.
E aí vemos que, agora, os herdeiros dos golpistas de 1964 não querem um novo golpe, porque o feitiço se voltará contra o feiticeiro. Daí que a burguesia ilustrada, a “classe média de Oslo” conforme definição de Jessé Souza, é a que mais quer a reeleição de Lula, enquanto o povo pobre permanece desconfiado. Quem mandou Lula transformar o terceiro mandato em festa e brincadeira?

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