Diferente do que ocorreu em 2022, Lula decidiu lançar um programa de governo para seu sonhado quarto mandato. Mas o que poderia ser uma boa notícia acabou se tornando mais um item para a coleção interminável de erros do petista, por não medir as prioridades certas.
A ênfase no programa de Lula é a soberania e o tom revela um projeto de governo ambicioso demais. Lula parece prometer tudo de tudo, e isso não é bom, já que a experiência dos mandatos anteriores mostra que boa parte das promessas sempre são deixadas para trás no caminho, só sendo realizadas aquelas que, de forma tendenciosa, cabem na agenda temática do lulismo.
Denominado "O Brasil Pronto para Mais", o documento tem 84 páginas e 13 capítulos e suas promessas são inúmeras. O programa da chapa de Lula e seu reafirmado vice Geraldo Alckmin assegura que irá cumprir cinco pilares econômicos: crescimento e emprego, combate às desigualdades, controle da inflação, neoindustrialização e reinserção internacional do Brasil.
Entre os destaques do programa de governo, Lula promete combater o feminicídio, as desigualdades sociais, a escala 6x1 no trabalho e fortalecer a defesa nacional e a segurança pública, tanto no combate às facções, através do bloqueio financeiro, quanto na prevenção de possíveis invasões estrangeiras. A criação do Ministério da Segurança Pública está prevista no programa de Lula.
Lula, que anunciou um patrimônio de R$ 4,7 milhões, parece ter sido movido pela ansiedade, quando coloca, entre suas metas de governo, a reformulação de instituições internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), além de fortalecer o Mercosul na política mundial e a formação do Sul Global, bloco de países emergentes e pobres liderados pelos BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul).
O programa de governo soa bastante atraente e fantástico, mas uma coisa é a teoria linda e fascinante. Outra coisa é a prática, que nenhuma retórica consegue substituir pelo exército de argumentações. Será mesmo que ele vai ser cumprido na sua íntegra? Lula mais uma vez vai enfatizar a política internacional, sua prioridade máxima será a formação do Sul Global e o fortalecimento institucional do Mercosul e dos BRICS.
E aí Lula reduzirá, como no terceiro mandato, as políticas de emprego apenas a relatorismos que anunciam crescimentos fictícios, na verdade um aumento e uma estabilização do trabalho precário. Não haverá o controle adequado de preços e a política salarial, com valores precários, fará as classes populares terem que se sacrificar para manter as finanças em dia.
Será que Lula vai continuar limitando a sua promessa de "redução de desigualdades" a meros auxílios financeiros e liberação de créditos? Será que o presidente aspirante à reeleição vai prometer, em vão, que irá negociar com empresários, produtores e distribuidores para dar um freio na alta dos alimentos? E a tão prometida isenção do Imposto de Renda para itens alimentícios, que fim levou?
Haverá também o freio para a alta dos preços de produtos e serviços, incluindo o mercado literário, que é extremamente caro e de baixa qualidade, priorizando obras que não se comprometem à valorização do verdadeiro Saber, e que incluem o desperdício de papel em livros para colorir, num país cuja parte da imprensa escrita passou a ser publicada só na Internet? Sabe-se que, com um tipo de papel mais barato que os livros para colorir, o Jornal do Brasil deixou de ter versão impressa.
Há também a confusão, entre os seguidores de Lula, sobre o que é externo e interno. Tratam o assunto da causa da Palestina como se esse projeto de nação do Oriente Médio fosse um assunto comunitário da cidade de São Paulo. E temos também o caso do tarifaço, que muitos lulistas, de maneira ignorante, imaginam que é um assunto de economia doméstica do Brasil, quando se trata de um assunto de economia externa, que mesmo afetando nosso país não pode ser confundido com economia interna, apesar das eventuais relações entre ambos.
O fabuloso programa de governo da campanha Brasil Pronto para Mais pode maravilhar a muita gente. Mas este é o problema: Lula quer fazer do Brasil um paraíso e querer promover esse paraíso na Terra. Desconfio de projetos fantásticos demais, que prometem tudo de tudo, pois a realidade mostra que nem todas as promessas serão realizadas.
Tudo soa mais um apelo para Lula vencer as eleições e reforçar o clima de "já ganhou" do petista. Daí que é a burguesia ilustrada que está mais maravilhada com Lula e ficará encantada com esse programa de governo que, em tese, pretende colocar o Brasil como país desenvolvido até 2030. O povo pobre é que fica desconfiado, pois o que as classes populares querem não são promessas mirabolantes, mas garantia de qualidade de vida e de contas pagas em dia.
Não é hora de pensar nisso, mas Lula quer ver a política externa acima da política interna, que ele alega que "já está bem" e promete apenas tomar medidas que ele acredita ser de estabilização e consolidação. Vendo o que promete o programa de governo Brasil Pronto para Mais, isso mais parece um programa de governo feito para turista inglês ver. Inglês, não. Quer dizer, para turista chinês ver.

Comentários
Postar um comentário