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TRAJETÓRIA DA FLUMINENSE FM VAI VIRAR FILME. E DEPOIS, COMO É QUE FICA?


Foi informada recentemente a notícia de que o livro A Onda Maldita, de Luiz Antônio Mello, sobre a trajetória da Rádio Fluminense FM, de Niterói, vai virar filme, sob direção de Tomás Portella, roteiro de L. G. Bayão e com Mateus Solano e Marjorie Estiano (que, curiosamente, nasceu uma semana após a Flu entrar no ar) encabeçando o elenco. O filme está previsto para ser lançado em 2016.

É maravilhoso ver esse empenho de reviver a Fluminense FM e, comparável à trajetória da rádio de Luiz Antônio Mello - que continua ensinando a verdadeira cultura rock com sua Coluna do LAM - , é a pesquisa de Alessandro Alr que traz a história da emissora para quem não teve a oportunidade de ouvi-la e só conheceu o radialismo rock na forma das "Jovem Pan com guitarras" de hoje.

Existe exposição, existem festas, existe divulgação de arquivos, há toda uma mobilização para relembrar a Fluminense FM. Há também documentários, como o Maldita FM, de Tatá Mattos. Isso é muito legal, é altamente positivo e brilhante, mas devemos prestar atenção para o outro lado.

Afinal, estamos celebrando o radialismo rock do passado, seus tempos áureos, sua memória etc. E o presente, como é que fica? A situação do radialismo rock de hoje está horrível, só para usar um adjetivo mais educado.

A Fluminense FM fez história porque era feita por pessoas que conheciam e curtiam rock. Não era uma questão de mero gosto musical, mas gostar da causa faz a pessoa ser criativa e sacar melhor o que poderá se tornar importante no cenário rock do futuro e mostrar coisas boas que não conseguiram atingir o hit-parade.

RÁDIO CIDADE RECEBIA CHACOTA, MAS DEVOLVIA COM VALENTONISMO (BULLYING)

"Tínhamos uma verdadeira fobia de que uma Rádio Cidade, de repente, despejasse, com seus milhares de quilowatts, rock sobre o Rio. Estaríamos ferrados". escreveu Luiz Antônio Mello em A Onda Maldita, sem saber que fez uma profecia maligna.

A experiência da Rádio Cidade com o rock, foi e é um horror, pelo conjunto da obra. Se salvava alguma coisa, eram alguns programas específicos, como os de José Roberto Mahr, que no entanto não podem refletir como "louros" para a programação geral. O que Mahr faz é uma ilha de inteligência e coerência que não dialoga com o resto do oceano.

O que se vê na programação diária nessas "rádios rock" é uma grande matinê. Dá pena os seguidores da Rádio Cidade (e da paulista 89 FM, de DNA malufista) falarem mal de Restart, Cine e de todo o happy rock coloridinho. Eles veem o argueiro nas olhos dos outros, mas não enxergam a trave que existe nos seus próprios olhos.

Afinal, programas como Hora dos Perdidos, Rock Bola, e, no caso da 89, Do Balacobaco, Pressão Total e Quem Não Faz Toma (como se não bastasse um Tatola falando igualzinho locutor da Transamérica), representam de forma escancarada o mesmo "astral coloridinho" que os ouvintes das duas rádios dizem espinafrar.

E pensar que, nos anos 80, a Rádio Cidade recebia chacotas quando enfiava suas antenas no prestígio da cultura rock. Mas, nos últimos anos, são os fascistoides que ouvem a Cidade, que parecem membros do Fã-Clube do Jair Bolsonaro, que ficam fazendo valentonismo (bullying) nas mídias sociais.

Eles pensam o rock com seus umbigos. Não sabem a diferença entre barulho de guitarra e de furadeira elétrica, mas querem ser os donos da cultura rock no Brasil e no mundo. Acham que futebol é "esporte rock'n'roll"(nem na Inglaterra, onde roqueiros apreciam futebol, é assim) quando, no Brasil, 99,99% dos jogadores e torcedores de futebol nem está aí para o rock. Nem o Neymar.

No fundo, os ouvintes da Rádio Cidade são uns emos enrustidos, uns matutos arrogantes que pensam que existe uma fronteira entre rock antigo e rock novo, sem saber que os músicos das maiores bandas do rock dos anos 90 sempre admiraram os roqueiros do "tempo da vovó".

O que a Rádio Cidade vai fazer se o filme sobre a Fluminense fizer um sucesso? Certamente vai pegar carona, porque a Rádio Cidade, fora aquele breve período áureo de 1977-1981, nunca conseguiu ter projeção duradoura, sua maior frustração foi de nunca ter tido o carisma que a rádio niteroiense conseguiu ao longo dos anos.

Claro que a Cidade está em crise, depois que seu antigo coordenador esnobou os Titãs. A rádio não conseguiu até hoje lançar uma cena roqueira que preste, as novas bandas lançadas vieram de reality shows da Globo. Para evitar comparações com a concorrente Mix FM, os locutores da Cidade agora falam mais mansinhos, mas ainda soam como se Emílio Surita lesse uma nota fúnebre.

A locução poperó continua. O Rock Bola com sua minoria de hooligans que pensam que o som da guitarra só funciona com o chute de uma bola, prossegue endeusando Galvão Bueno e Ricardo Teixeira. E o rock restrito ao hit-parade, embora na Internet se coleta datas de aniversário até de músicos mais complexos de rock. Como se isso fosse alguma coisa.

Como é que vai ficar, se o filme da Maldita fizer sucesso? A Cidade e a 89 cuspirão nos pratos em que comeram? Vão pedir desculpas por terem xingado o rock mais antigo? Vão explicar que só adotaram locução poperó para atingir o topo do Ibope? Vão prometer tocar bandas mais "difíceis" depois de ridicularizá-las nos bastidores?

O problema vai ser esse morde-e-assopra de duas rádios que, embora pretendam representar "para sempre" o segmento rock, sempre agiram contra o segmento, tratando o público de rock de forma caricata, estereotipada e bastante preconceituosa. Será que as duas rádios vão querer pegar carona no estilo da Fluminense FM, depois de tanto desprezá-la e até ridicularizá-la?

É muito maravilhoso relembrar o passado da Maldita e ver as novas gerações conhecendo a sua trajetória. Mas, se o radialismo rock de antes deixa saudades, o de hoje está problemático, O provável vira-casaquismo das rádios comerciais, embora supostamente se aproveitem dos louros da Maldita, soará mais como um oportunismo de emissoras que nunca estavam aí para isso.

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