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A BURGUESIA ILUSTRADA EM CLIMA DE FESTA


Nunca na História do nosso país uma classe de abastados esteve no seu pleno apogeu. Conquistando o protagonismo pleno, a burguesia ilustrada pela primeira vez pode usufruir de seus privilégios de classe num momento de paz, diferente do que seus antepassados sofreram, quando tiveram que exercer seu poder pela força diante da reação revoltada dos oprimidos.

Hoje a classe dos opressores apenas expurgou os golpistas úteis que, fazendo todo o serviço de retrocessos em 2016, agora foram descartados. As mesmas elites que derrubaram Dilma Rousseff, exaltando Sérgio Moro, acolhendo o pacote de maldades de Michel Temer e "experimentando" Jair Bolsonaro, agora posam de "esquerdistas desde 1500" e querem fugir da reputação de seus ancestrais que exterminaram índios, escravizaram negros e derrubaram presidentes.

Posando de "pobrezinhos" para lacrar nas redes sociais, esses burgueses bronzeados vivem a plenitude do seu empoderamento, crentes que o Brasil se transformará num "país de Primeiro Mundo", não para dar qualidade de vida aos mais necessitados, mas para garantir o ingresso dos "bacanas" nos banquetes dos países prósperos.

É vergonhoso ver pessoas cheias de dinheiro, mostrando bens de luxo, com seus carrões de prestígio, fingindo serem "pobres", nas suas postagens nas redes sociais. Gente que, com muito prazer, agora se abriga sob os paletós azuis do presidente Lula, já que o petista agora se tornou um grande pelego político, uma mascote não-assumida da Faria Lima.

Recentemente a burguesia ilustrada se divertiu com determinados episódios. Um deles foi o caso da inauguração do canal SBT News, quando o presidente Lula foi convidado pelas herdeiras de Sílvio Santos para visitar os estúdios. O cantor breganejo Zezé di Camargo, que outrora apoiou condicionalmente o presidente Lula, cancelou seu especial natalino que realizaria na emissora fundada pelo finado homem-sorriso.

A inauguração contou, além de Lula, com a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja,  o vice-presidente Geraldo Alckmin, os ministros Fernando Haddad e Ricardo Lewandowski, além do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e do cotado para ser ministro do STF, Jorge Messias. O governador de São Paulo e virtual presidenciável Tarcísio de Freitas também esteve na cerimônia.

Muitos apoiaram Zezé di Camargo, hoje apoiador de Jair Bolsonaro, mas até o também bolsonarista Leonardo achou que o parceiro, que havia sido compositor de sucessos da dupla Leandro & Leonardo, foi "longe demais". Disse Leonardo, usando da atitude de ídolos popularescos ficarem bajulando o povo brasileiro:

"Eu vi a postagem dele, vi muita gente falando que ele foi bem demais. Mas eu acho que não era hora dele de falar isso, né? Ele vive do povo, assim como eu. Então a gente tem fãs de todos os partidos, né? E pra mim partidos não importa. Pra mim o que importa é quem é que vai se candidatar, qual que é a proposta do candidato".

Por ironia, Leandro & Leonardo também ficaram famosos por regravar sucessos do finado ídolo brega Lindomar Castilho, conhecido por um feminicídio cometido em 1981 - pelo menos há uma qualidade que une um ídolo cafona ao genial produtor, mas de caráter pouco admirável, Phil Spector, que encerrou sua vida preso por cometer um feminicídio - , e cujo óbito, aos 85 anos de idade, deve ter sido considerado "prematuro" pelo negacionista factual, que acredita que os feminicidas são "super-homens" e os únicos tipos de homens "proibidos de morrer" na espécie humana.

Vamos a outro episódio.

Foi num comercial da marca de chinelos Havaianas, estrelado pela atriz Fernanda Torres - em outra ironia, estrela do seriado Os Normais, cujo tema foi "Doida Demais", sucesso do citado ídolo brega que soava póstumo antes mesmo de seu cantor morrer, e que foi um dos sucessos regravados pela dupla de "Tapas e Beijos" - , no qual a atriz manifestava seu desejo de começar o ano novo não com o pé direito, mas "com os dois pés".

"Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte. Mas, vamos combinar, sorte não depende de você, depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os 2 pés. Os 2 pés na porta, os 2 pés na estrada, os 2 pés na jaca, os 2 pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés", disse a atriz e escritora.

Bolsonaristas se sentiram ofendidos e iniciaram uma campanha para boicotar a marca Havaianas. Em uma loja de Brusque, Santa Catarina, houve uma promoção de liquidação de estoque, com chinelos Havaianas a R$ 1 em protesto contra a campanha. Nas redes sociais, um comercial imitando uma campanha da marca rival Ipanema, da Grendene, falou em "entrar em 2026 com o pé direito e deixar a concorrente lacradora no lixo".

A campanha do boicote não deu certo, causando o efeito contrário ao esperado. A dona da marca Havaianas, a Alpargatas - que tem o banco Itaú como um dos sócios - , , que havia perdido valor de mercado antes do comercial e 3%, recuperou acima do índice perdido e compensou as perdas do dia anterior ao da peça publicitária.

Quanto à marca Grendene, o Supremo Tribunal Federal registra que os irmãos Alexandre e Pedro Grendene Bartelle, fundadores da marca que comercializa os chinelos Ipanema, haviam doado juntos cerca de R$ 1 milhão para a campanha de Jair Bolsonaro em 2018.

PARECER TÉCNICO - Eu sinto muita simpatia pela marca Havaianas e apoio a campanha de Fernanda Torres, mas eu prefiro utilizar os chinelos Ipanema (que meus pés calçam no momento em que digito estas linhas) apenas por um critério técnico: os chinelos da marca da Grendene são mais resistentes do que os da Alpargatas. É só uma questão de funcionalidade, nada mais.

Eu experimentei várias vezes os chinelos Havaianas, e eles se desgastam com mais facilidade, além das tiras se soltarem com o tempo. Já os chinelos Ipanema têm maior durabilidade. Portanto, não se trata de uma questão ideológica aqui e ali e não faço parte desse coro polarizador que não consegue ver a verdade dos fatos.

Na verdade, a burguesia ilustrada mostrou mesmo que é a "burguesia de chinelos", a "burguesia Havaianas", pouco importando a funcionalidade. Para a "boa" sociedade, só presta mesmo a sua inclinação esquerdista, ao mesmo tempo postiça e tendenciosa, com o fim de lacrar nas redes sociais e obter algumas gorjetas estatais do governo Lula. Apesar da pose de "generosa", essa elite bronzeada pouco está se importando com os brasileiros, preferindo que nosso país seja apenas um satélite em orbita no Sistema Lular.

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