A GOURMETIZAÇÃO DO BREGA INTERESSA MAIS À BURGUESIA DO QUE AO POVO.
Ultimamente, a música brega-popularesca tenta se gourmetizar. Depois da chorosa, patética mas bem sucedida campanha do “combate ao preconceito”, espécie de IPES-IBAD com chapéu de frutas na cabeça, ter ampliado reservas de mercado para os ditos “sucessos do povão”, agora a ideia dos empresários do entretenimento é dar uma reputação mais nobre.
O mercado brega-popularesco ficou dominante e fechado. Sufocou a renovação da MPB e do Rock Brasil de tal forma que dois eventos recentes tiveram baixa repercussão.
Um é o triste falecimento do grande guitarrista Luiz Carlini, ícone do rock setentista brasileiro e que tocou na banda Tutti-Frutti que acompanhava Rita Lee. É dele o solo final da música “Ovelha Negra”, que fez grande sucesso. Pouca gente sentiu a perda do renomado músico, apenas o meio roqueiro sentiu e chorou.
Outro evento é o lançamento do novo disco da dupla Antônio Carlos e Jocafi, músicos conhecidos pelo sucesso “Você Avisou”. Ativos e criativos, os dois intérpretes batalham para a MPB autêntica continuar viva e o grande público, mesmo aquele que só consegue ouvir a MPB através de antigas trilhas de novelas, não percebeu nem soube deste novo lançamento.
Em compensação, a música brega-popularesca tenta parasitar o meio emepebista como numa grande relação de negócios. Um tributo ao ícone do baião Dominguinhos e uma apresentação com Geraldo Azevedo contam, respectivamente, com as participações do ídolo do piseiro, João Gomes, e o ídolo do sambrega, Péricles. Dois nomes do comercialismo musical brasileiro investindo no oportunismo de se venderem como “artistas sérios”.
No outro lado, vemos o admirável Paulo Miklos, ex-integrante dos Titãs, lançando um disco de covers. Até aí, nada demais, a não ser pela música que ele incluiu no repertório e, para piorar, tornou-se a faixa-título.
Trata-se da constrangedora canção “Evidências”, o cafoníssimo sucesso de Chitãozinho & Xororó de 1987 que, requentado nos últimos anos, virou sucesso pseudocult, um falso clássico adotado pela juventude woke e pela burguesia ilustrada.
A música “Evidências” é do bolsonarista José Augusto, com letra do emepebista Paulo Sérgio Valle, irmão de Marcos Valle, ícone da Bossa Nova. Não é a melhor criação de Paulo, que pelo jeito aderiu a essa cilada para pagar as contas, sendo co-autor de uma canção tão ruim.
“Evidências” se tornou o hino maior do modismo do “brega vintage”, embora “Um Dia de Domingo”, “Lua de Cristal”, “Ilariê”, “Fogo e Paixão “ e “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar” também sejam hinos destacados. O brega vintage foi um saudosismo calculado pela Rede Globo e pela Faria Lima para reciclar como “preciosidades” sucessos comerciais que caducaram com o tempo.
Na boa-fé, Miklos cai nessa nostalgia ao mesmo tempo piegas e trash e grava “Evidências”. Ele não tem a menor necessidade disso, já tem uma obra consagrada e renomada. Mas é a alma do negócio: se Miklos quiser tocar em Maringá, Goiânia, Cuiabá etc, terá que seguir tais regras. Se ele não gravar “Evidências” nem para ser músico de rua em Ji-Paraná lhe será permitido.
Este é mais um capítulo das relações de negócios do brega-popularesco com MPB e Rock Brasil, a fazer os ídolos popularescos atingirem públicos mais sofisticados na situação socioeconômica. Só que isso derruba a tese de que a música brega-popularesca é o “popular com P maiúsculo”, uma mentira que não faz sentido algum.
A bregalização musical sempre esteve ligada aos donos de poder e MPB e Rock Brasil têm que se subordinar a esse esquema para sobreviver. E quem manda as regras é o viralatismo cultural da bregalização que se impõe sobre o patrimônio cultural autêntico. Tentar vincular o popularesco ao patrimônio cultural não o faz enriquecer até porque a única riqueza que a música popularesca tem não é artística nem cultural, mas financeira.
Comentários
Postar um comentário