
Não bastasse termos uma “rádio rock” controlada pelo mais poderoso empresário da Faria Lima, um banco de investimentos foi promover um evento com o Rock Brasil dos anos 1980. Nada menos rock’n'roll, diga-se de passagem, mas até o negacionista factual está feliz com essa verdadeira domesticação da cultura rock de nosso país.
Não precisamos exigir que os roqueiros sejam transgressores o tempo todo, mas é preciso manter um mínimo de princípios. Num contexto em que, lá fora, membros dos Beatles e dos Rolling Stones lançam novos trabalhos, a cultura rock merece um mínimo de respeito, mais até do que dinheiro para viabilizar carreiras.
Aqui a cultura rock ficou refém da Faria Lima. A gente escreve isso com a paciência de explicar e descrever problemas e o pessoal das redes sociais não gosta. É sempre aquele papo de “viabilidade econômica”, de “sustentar carreiras”, de “trazer bandas estrangeiras para tocar no Brasil “. Por isso tem tanto roqueiro de butique pagando pau para a Faria Lima.
De que adianta, por exemplo, haver shows de bandas estrangeiras de rock uma atrás da outra? Os ingressos são caros e seus fãs não têm condições financeiras para fazer uma maratona de rock nas plateias. Eu não vou ver um Rush mesmo, porque o ingresso vale uma fortuna e quem vai mesmo, não porque gosta da banda, mas pela troca de um bom cachê, são os bacaninhas da alta sociedade.
O verdadeiro fã de rock mal consegue comprar um disco de seu artista favorito. Nos últimos anos, ele se serve da coleção de MP3, das audições do YouTube, do streaming auditivo do Spotify. Como é que ele vai poder gastar ingressos caros para ver seu cantor ou banda favorito se isso vai lhe levar a uma quase falência?
E aí se vê a Faria Lima e sua rádio oficial, a 89 FM, tratar a cultura rock como se fosse a Disney World? E o negacionista factual e o paga-pau de jaqueta de couro, fora os bolsonínions ocultos entre ouvintes da 89 e da Rádio Cidade, se irritam com as críticas e pedem boicote a quem falar mal da emissora do Grupo Camargo de Comunicação.
Só que isso, além de estar em choque com a natureza insubmissa do rock, também não ajuda na renovação da cena. E, para piorar, as consultorias que se lançam para orientar novos talentos acabam por impor fórmulas de sucesso, que não necessariamente são benéficas para a renovação artística. O roqueiro acaba ficando meio fabricado, mesmo com as boas intenções de especialistas.
E aí vemos o quanto a Faria Lima está castrando a cultura rock, eliminando toda sua alma, reduzindo o gênero a um mero fundo musical de lanches em food trucks.
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