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A DIVERSÃO TÓXICA DO PRÉ-CARNAVAL

SUPERLOTAÇÃO DURANTE EVENTO COM DJ CALVIN HARRIS FEZ MUITA GENTE PASSAR MAL E GERAR TUMULTOS EM SÃO PAULO.

Assim como as happy hours já estão ocorrendo nas vésperas de dias de trabalho, o Carnaval deste ano acontece uma semana antes do feriado propriamente dito, o que mostra a obsessão pelo entretenimento da elite do bom atraso e das pessoas que seguirem seu embalo.

A situação é de muita loucura, vide o último sábado, quando o novo megabloco de Ivete Sangalo, o Quem Pede, Pede - nome baseado numa campanha do 99 Food, que tem ela e o cantor de piseiro João Gomes como garotos-propagandas -  , reunião 1,2 milhão de pessoas no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

O Brasil virou um grande parque de diversões e as pessoas se comportam como feras saindo das jaulas, perseguindo tudo que representar divertimento e busca frenética por emoções baratas. A coisa está doentia, tóxica, apesar de todo o discurso de "felicidade" e "liberdade" que se trabalha. Esse papo de "sociedade do amor" não passou de retórica para o verdadeiro objetivo da coisa, que é a diversão obsessiva, compulsiva e dominada pelos instintos animalescos da rapaziada.

O último fim de semana não é o feriado de Carnaval mas até parece que foi. O chamado "carnaval de rua" explodiu e as pessoas foram para a folia quase que inconscientes, sem saber para que foram se divertir. A música popularesca se destacou neste mercado onde o consumo de cerveja - verdadeira finalidade do tal "combate ao preconceito" da bregalização musical é vender cerveja, defendendo a sua trilha sonora - se torna a atração maior.

O clima de positividade e alegria tóxicas não estão nas dondocas da burguesia ortodoxa que, sentadas num iate com taça de champanhe na mão, mandam um brinde "às boas coisas da vida". Isso é fichinha, diante dos instintos animalescos que empurram milhares de pessoas para a folia tóxica e para a diversão frenética e inconsciente, onde o prazer não é uma sensação consciente de curtir o que gosta, mas uma submissão aos instintos onde os escrúpulos da consciência são os que menos importam.

Uma amostra de como essa histeria cega que não pode ser confundida com a diversão saudável - que a indústria do entretenimento atual não quer saber, pois seus empresários só querem saber de dinheiro - é o que aconteceu ontem durante a apresentação do DJ britânico Calvin Harris, com plateia superlotada na Avenida Paulista, também em São Paulo.

Várias pessoas foram prensadas, algumas passaram mal e houve empurrões e muito sufoco. O tumulto foi subestimado pela grande mídia, que por ser uma mídia empresarial, também está preocupada com os lucros dos eventos musicais e está também amarrada num jogo de interesses que envolve os patrocinadores associados.

A cobertura apenas foi morna, supostamente noticiando "quando se deve noticiar", mas nota-se uma indiferença muito grande. As pessoas poderiam ter morrido, seja por estarem prensadas, seja por algum mal-estar que possa causar um infarto, por exemplo. Mas como isso aparentemente não aconteceu, então a mídia entra num clima do tipo "aconteceu, mas deixa para lá".

Nota-se também o ritmo frenético com que são contratadas atrações musicais estrangeiras para se apresentar no Brasil. Tudo isso num ritmo que nem dá para acompanhar, levando em conta que os fãs de muitas dessas atrações não têm dinheiro para pagar ingressos nem refeições durante essas apresentações.

A sensação de pertencimento social empurra muita gente para gastar ingressos caros para ver seu ídolo gringo, e as pessoas vendem a própria alma, se quiserem, para realizar essa finalidade, e isso de forma sucessiva, pois a sucessão de atrações, semana após outra, impele as pessoas de fazer uma maratona para ver seu ídolo e impressionar seus amigos. Não ver uma apresentação dessas, numa situação dessas, pode representar frustração de cada pessoa por não realizar uma façanha.

E isso ocorre dentro de um estado de espírito em que as pessoas são empurradas a fazer para agradar os outros, para lacrar na Internet. Precisam ir ao Carnaval, ao Lollapalooza, ao The Town, ao "show da Ivete", ao Reveillon da Paulista, à apresentação do João Gomes, ao Rock In Rio, a tudo que for entretenimento, diversão, torrando o seu precário dinheiro para um roteiro frenético de busca de emoções baratas.

Pouco importa se é aquela maravilhosa banda de britpop ou se é o ídolo do trap ou do piseiro da hora, a obsessão pelo entretenimento, pela diversão, pela necessidade de estar dentro de uma multidão, pelo desejo insano e voraz de pertencimento a um ambiente social, faz as pessoas se perderem nesses instintos selvagens de se divertir a qualquer preço.

E isso faz com que haja happy hours nas vésperas de dias de trabalho e, agora, Carnaval antes da folia propriamente dita. Nosso país está doentio, ao ser reduzido a um parque de diversões. E isso é ruim, pois no Brasil, costuma-se ser bom em fazer festa, mas ruim de enfrentar ressaca. E o tumulto do evento com Calvin Harris é apenas uma amostra do que pode vir por aí.

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