O aparente protagonismo do Brasil nos últimos anos não representa a ascensão do povo brasileiro. Não é um processo libertário e nem a emancipação dos povos excluídos. Esse fenômeno diz mais a uma ascensão de uma elite, que até é flexível e numerosa, mas mesmo assim uma classe dirigente e sua comitiva de adeptos.
Desde 2022 uma classe privilegiada no Brasil tem a expectativa de ver o nosso país promovido a “país desenvolvido”. Embora haja narrativas exageradas, que falam de “missões nobres” de fazer o povo brasileiro “liderar o mundo para ensinar suas qualidades de alegria e de solidariedade”, tudo isso não passa de desculpas para uma elite viajar pelo mundo sendo tratada como igual por europeus e estadunidenses. É apenas uma conversa mole para a burguesia bronzeada brasileira receber tratamento VIP no exterior.
O que vemos é a tomada do poder dos netos da geração que derrubou João Goulart em 1964. Em 60 anos, a burguesia construiu um modelo de país que, pronto nos últimos anos, agora as elites vendem como se fosse “democracia”. Neste caso, a “democracia” de 1964 não é diferente da “democracia” de 2022, havendo somente uma mudança tanto em contexto quanto em estratégia.
Com os setores sociais que ameaçavam o poder burguês entre 1964 e 1968 domesticados ou desacreditados, como o proletariado, o campesinato e os movimentos estudantis, e o pensamento crítico dos intelectuais autênticos rebaixado a um chilique existencialista, à burguesia só precisou expurgar a ala ortodoxa que se apoiou no bolsonarismo e jogar sobre ela todo o custo de suas maldades para bancar a boazinha e parecer “invisível” como classe social.
Se os vovós se ocuparam com os rosários do ultraconservador católico Padre Peyton e com os artigos do IPES-IBAD, os netos buscam transformar o Brasil num parque de diversões, com direito à estranha perpetuação de gírias como “balada” e os dialetos em portinglês como body, dog e bike.
O nosso empresariado está investindo horrores em consolidar um projeto de país que seus avós sonharam em 1964 e seus pais esboçaram em 1974. Agora, a elite do bom atraso vive um período de realização plena, que as faz dispensar até dos reacionários úteis de 2016-2018, como Sérgio Moro e Jair Bolsonaro, "anéis" retirados na última hora para preservar os dedos da burguesia.
Agora a burguesia se esconde sob os paletós azuis do presidente Lula, tudo para manter seu poder de classe dirigente. A burguesia "moderna" de hoje se diz "mais democrática" e "socialmente responsável", posa de pretensos humanismo e intelectualismo, quer moldar o senso comum e ainda cria um vocabulário coloquial que a juventude contemporânea é obrigada a falar a vida toda.
Nos últimos 50 anos o Brasil virou um brinquedo nas mãos da Faria Lima. A própria Faria Lima precisa criar seus álibis para fugir das acusações de estar manipulando o país e investindo na deterioração da cultura e da sociedade. Por isso os burgueses de hoje precisam repaginar o visual, o discurso e suas estratégias, com alguns se atrevendo até a se proclamar "de esquerda".
A burguesia ilustrada é um produto desses "novos tempos". Uma burguesia invisível a olho nu, pois ela, por mimetismo, se fantasia de "gente simples". É um meio para evitar desconfianças e também para dar a falsa impressão de que, agora, "é o povo que comanda a festa neste país".
Metida a "culta" e "intelectual" a ponto de, hoje, manipular o cenário de palestras e debates, pois hoje quase não há espaço para os debates como havia nos tempos da Nova República há 40 anos, a burguesia ilustrada no entanto é ignorante a ponto de achar que autoatendimento em posto de gasolina é sinal de pobreza, quando, nos EUA, onde não há frentista, celebridades ricas fazem o mesmo processo.
Hoje a burguesia se encontra no auge, e é essa classe a beneficiada por um período de suposta prosperidade, uma sensação que pede muita cautela. Afinal, temos uma elite aparentemente numerosa, pois apenas a "rodinha" se abriu, mas isso não quer dizer que é o povo brasileiro que, no seu todo, se emancipou.
As narrativas na mídia empresarial e até em alguns veículos de segundo escalão tentam apresentar mil maravilhas, mas tudo isso é uma ilusão ou uma miragem. O Brasil não vive um grande momento, exceto para uma parcela de privilegiados que são os verdadeiros protagonistas dessa época atual.
É a "gente bonita" que não se importa em ver o Brasil virando clone dos EUA, com evento de futebol americano pela NFL e tudo. E mesmo que isso seja uma demonstração de puro viralatismo, essa elite bronzeada não gosta de que chame isso por este nome, assim como ela não se considera burguesia. Afinal, o Brasil é um parque de diversões em clima de folia permanente, e agora a burguesia vestiu para valer a fantasia de "gente simples", para lacrar nas ruas e, principalmente, nas redes sociais.
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