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COMO UMA RELIGIÃO DEMONSTROU QUE A OPINIÃO PÚBLICA É MANIPULADA NAS REDES SOCIAIS


Nos últimos 20 anos, aparentemente a Internet tornou-se um ambiente pleno de expressão da sociedade. Surgiu a utopia de que as pessoas mudariam o mundo sem sair de casa e até a intelectualidade “bacana”, que defende a idiotização da cultura popular através da bregalização, pegou carona na suposta revolução social que se imaginava haver nas redes sociais.

Daí que acreditávamos que a opinião pública se manifesta na sua pureza e transparência, e o senso comum seguiria uma direção edificante e justa. Mas no andar da carruagem digital, vimos que não é bem assim que acontece e que o pensamento crítico esbarrava em limites austeros, como se ainda estivéssemos no período do AI-5, ao menos nos últimos anos desse maligno ato institucional.

E esses limites se tornam muito claros no âmbito da religião, pois no Brasil vivemos o conflito entre o fundamentalismo neopentecostal e aqueles que julgam que somente essa corrente representa o mal na fé religiosa. E o mal se limitou apenas a pastores de colarinho branco que exigem dos fiéis a doação até de automóveis e geladeiras para obter a salvação celestial.

Tudo bem. Mas quando se olha para opções consideradas viáveis, a decepção é imensa. Ela cai no obscurantismo religioso enrustido do Espiritismo brasileiro, que na verdade é uma máscara que o Catolicismo medieval, expulso da própria Igreja Católica,passou a usar desde o século 19 e com mais intensidade desde 1932.

O que assusta é que esse Catolicismo medieval redivivo autodenominado “kardecismo” - mas que comete traições grosseiras e inescrupulosas contra as lições originais de Kardec - serve de refúgio para pessoas que se dizem “inteligentes” mas guardam em si resíduos de ingenuidade e mistificação bastante preocupantes.

Volta e meia, alguma pessoa admirável comete a besteira de cultuar o “médium da peruca” - um charlatão nos mesmos moldes de João de Deus que a ditadura militar transformou em falso espírito de luz - , numa gafe constrangedora. É atriz sensual, músico de MPB ou Rock Brasil, algum jornalista e, pasmem, até ateu que se comporta como um cordeiro louvando um coiote.

E aí agente vê o quanto de pontos obscuros são evitados de serem discutidos de maneira ampla na Internet, restringindo o debate sempre a uma pequena bolha de esclarecidos autênticos. A produção de “psicografias” fake (psicografakes), que usam nomes dos mortos para fazer propaganda religiosa, tido isso é aceito sem críticas, com pessoas até adotando a desculpa trouxa de “ter direito de acreditar ou não que um morto mandou mensagem do além).

Em outras palavras, um falecido não tem mais valor, enquanto os ditos “médiuns” é que se tornam impunemente “donos” dos mortos. Ou seja, coisas piores do que um bolsonarista publicar fake news são feitas e muita gente que se diz democrática e progressista adere como um patinho recém-nascido que ao ver uma pedra acha que é sua mãe.

Sim, são coisas comparáveis a usar a Inteligência Artificial para, de forma abusiva, “ressuscitar” atores mortos sem autorização. E no caso das “psicografias” os mortos são usados para fazer propaganda religiosa e aparecem caricatos, com nomes como Noel Rosa e Raul Seixas reduzidos a idiotas e Olavo Bilac e Castro Alves terem “perdido” seus talentos nos bolsos de seus paletós quando morreram.

E as pessoas dormem tranquilas com isso, achando que isso é sabedoria, intelectualidade e ciência. Quanta tolice. E o “médium da peruca” de Uberaba recebendo milhares de passagens de pano pelas fraudes que cometeu e pelas mentiras de que abriu mão de dinheiro “para a caridade”. Ele era protegido de poderosos ”coronéis “ de gado zebu do Triângulo Mineiro. E o pessoal usando as frases medievais dele para “alegrar o dia” o que é vergonhoso, considerando que o “médium” pedia para todo mundo sofrer calado em troca de terrenos celestiais.

Como tem gente pagando para ser otário. Semiólogos capazes de identificar modestos arsenais de bombas semióticas na Polônia e na Coreia do Sul, mas tem dificuldade de desvendar perigosos paióis semióticos de potencial explosivo em Uberaba. O festejado “carteiro de Deus” era um farsante ranzinza e reacionário, mas sua única mágica era transformar jornalistas investigativos em flanelinhas, sempre passando pano nesse obscurantista com ideias dignas do século 12.

E aí vemos o quanto descobrir que os debates nas redes sociais são limitados também são vistos em outro terreno. Como repudiar o “funk” e achar que Guns N'Roses é a melhor coisa do mundo. Ou supervalorizar Michael Jackson e o seriado Chaves. Ou ninguém se achar escravo da mídia e no entanto se subordinar a ela como o mais servil dos vassalos.

Depois a gente percebe o quanto a promessa de “rebelião popular digital” foi um blefe. Usuários não passam de mercadorias que as Big Techs apresentam para seus assinantes. No lugar do controle direto de uma dúzia de oligarquias midiáticas nacionais e regionais, temos o controle de nove famílias mundiais das grandes corporações tecnológicas.

As pessoas no Brasil dormem tranquilas diante desse campo minado de armadilhas perigosas, sem saber dos riscos que estão na frente. Parecem crianças desprevenidas que, diante de um céu grafite anunciando uma grande trovoada, vão se abrigar sob uma árvore. Enquanto isso, os donos das Big Techs se enriquecem às custas da felicidade tóxica que ilude multidões no nosso país. E muitos ainda têm certeza que o Brasil vai para o Primeiro Mundo. Dá para acreditar?

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