O Brasil tem um terrível cacoete de abraçar causas ambíguas. É o ídolo popularesco que às vezes quer soar MPB e noutras quer ser bem brega. É a dita “rádio rock” que num momento parece Jovem Pan, noutros tenta carregar na pretensão roqueira. É o Espiritismo brasileiro que, em dado instante, soa mais próximo do Catolicismo medieval e, em outro instante, quer parecer “fiel” aos postulados da Doutrina Espírita original, francesa. É o marido infiel que passa algumas noites com a amante e em outras é o zeloso e fiel companheiro da esposa.
Ser “duas caras” é um hábito muito comum e bem típico do Brasil. Não dá para entender por que O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde) não é um dos livros mais lidos no Brasil. E isso apesar da famosa marchinha de Carnaval poder ser interpretada fora da perspectiva woke: “Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão / De dia é Maria / De noite é João”.
É um hábito infelizmente muito característico no Brasil, o de uma pessoa, instituição, entidade ou fenômeno ser uma coisa e depois outra, num contexto em que as pessoas confundem contradição com equilíbrio ou versatilidade. E isso contamina a figura do presidente Lula, que hoje busca a reeleição na recém-iniciada campanha presidencial.
Conciliador, Lula se aproxima do patronato, da direita moderada, do Centrão, dos neoliberais “democráticos”, dos tecnocratas capitalistas. Em 2022, isso foi deixado claro com a “frente ampla” que consagrou sua “democracia de um homem só”. Buscou proximidade até com uma parcela de políticos e personalidades que se empenharam no golpe contra Dilma Rousseff em 2016.
Lula até realizou políticas de fazer um neoliberal convicto ficar de queixo caído. Cortar verbas para Educação e Saúde públicas visando o arcabouço fiscal (o tal “déficit zero”), dar baixos salários sob a desculpa de “não estourar o Orçamento da União nem a Previdência Social). Fez concessões (tipo de privatização feito por contratos temporários mas renováveis) e explora reservas petrolíferas na Amazônia em detrimento da biodiversidade e da sustentabilidade de povos indígenas.
Mas Lula, ao perceber que perdeu popularidade justamente entre as classes mais pobres, resolveu começar sua campanha presidencial deste ano fazendo um comício na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, local onde o petista se ascendeu como líder sindical, nas greves realizadas pelos metalúrgicos em 1979 e 1980.
Mesmo cortejando as classes populares, Lula deixou vazar o peleguismo sindical que prenunciou sua conduta explícita no terceiro mandato, conforme podemos inferir no texto de Aquiles Lins no Brasil 247, intitulado “Lula arranca para o tetra na Vila Euclides: ‘Nós vamos fazer desse país uma grande nação’”:
“O presidente dedicou parte significativa do discurso às greves dos metalúrgicos do ABC de 1979 e 1980. Lula recordou particularmente uma assembleia de 1979, quando considerou satisfatória uma proposta apresentada pelos empresários, mas encontrou resistência entre trabalhadores mobilizados havia 15 dias.
Temendo perder uma votação direta sobre o acordo, Lula contou que pediu um voto de confiança para que a categoria voltasse ao trabalho enquanto ele continuaria negociando.
‘Os trabalhadores, por unanimidade, aprovaram a minha proposta de voltar a trabalhar e eu continuar negociando. Mas todos os trabalhadores saíram daqui putos da vida comigo, achando que eu tinha traído eles’, relatou”.
Isso significa que a ambiguidade causa problemas, apesar de ser um padrão de conduta socialmente aceito e até estimulado. Lula quer parecer corajoso e ousado por fora, mas é medroso e complacente com as classes dominantes na prática. E o tempo que ele desperdiçou com farra no terceiro mandato ele acha que vai compensar no quarto. Só que não.
Afinal, Lula é muito repetitivo nas suas estratégias, nas suas atitudes e decisões. O maior risco é o quarto mandato repetir o terceiro, ainda que Lula tente voltar às origens de líder popular e prometer transformar o Brasil em algo próximo ao paraíso. A tendência é Lula permanecer na zona de conforto do mandato que hoje está na fase final, com sua ênfase nas viagens ao exterior e aos discursos de sempre.

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