A overdose de shows internacionais com ingressos caríssimos e máquina publicitária predatória da 89 FM A Rádio Rock (feller) mostra a ganância voraz da Faria Lima em investir na cultura rock que, debilitada no Brasil, só serve para ser uma usina de super-ricos que arrancam dinheiro da juventude.
As pessoas não percebem a gravidade do caso porque está envolvida num cenário hipnotizante de pão e circo com guitarras que se vende como um sonho dourado que impulsiona muita gente a comprar ingressos caros para ver eventos e shows que,nos bastidores brasileiros, esconde sistemas de exploração perversa do trabalho precarizado e ofertas ruins de lanches nada saudáveis nesse supermercado de entretenimento oferecido ao som de guitarras.
E cada vez mais os jovens reclamam de não poder ir a shows de rock, com ingressos de valores elevados e preços de alimentos ruins que valem uma fortuna. E isso num mercado geral de shows tão cruel que uma jovem fã de Taylor Swift morreu de desidratação, já que até para comprar água mineral custa caro.
As pessoas passam pano na 89 FM, uma rádio que não tem 1% da competência que teve a Fluminense FM no passado. Em 40 anos de existência, só uma meia-dúzia de programas da 89 realmente prestava e, como expressão de poder midiático, não difere muito de uma Jovem Pan da vida, sobretudo pela semelhança de linguagem e de mentalidade.
O pano de fundo da “libertária” 89 FM, alvo de nostalgia barata que engana muitos incautos, é de arrepiar. Seu dono fundador, José Camargo, foi deputado pela ARENA ligado a Paulo Maluf durante a ditadura militar. Para piorar, um de seus filhos, João Ernesto Camargo, comanda uma think tank chamada Esfera Brasil e preside o Grupo Camargo de Comunicação, uma das mais poderosas corporações de mídia do Brasil.
João Ernesto defende a manutenção das fortunas dos super-ricos e não só defende a escala 6x1 no trabalho como, se preciso, defende também a escala 7x0, como ocorreu com uma locutora de outra rádio do grupo, a Alpha FM, voltada ao público yuppie.
Com um pano de fundo desses, como é que o público de rock, um gênero marcado pela rebeldia e pelo inconformismo, passa pano na 89 FM e a máquina de negócios da qual essa emissora faz parte? Como o pessoal do rock pode fazer vista grossa a uma rádio cuja família apoiou abertamente a ditadura militar?
INVESTIR PARA CALAR
A 89 FM é o principal veículo de uma elite empresarial que investe pesado em vários eventos de rock para calar as vozes roqueiras e, por outro lado, ficar com grande parte dos lucros. Os músicos de rock estrangeiros ficam com a pequena parte do faturamento, pois a maioria da grana vai para a Faria Lima, mesmo.
É constrangedor ver a 89 FM patrocinar tudo que é evento ou show de rock. Não se trata apenas de forçar a associação da rádio a tudo que for rock, mesmo que sejam nomes como Rick Wakeman, ícone do rock progressivo, ritmo considerado indigesto pelo público médio da 89. Trata-se de uma questão contratual, que faz com que o patrocínio represente maior retorno financeiro para os donos da emissora e das elites promotoras de eventos musicais, hoje a maior parcela de super-ricos existente no Brasil.
Na narrativa oficial, os investimentos empresariais pesados no rock são vistos como uma forma de “viabilizar economicamente” o gênero. Pretensos fãs do gênero tentam convencer, nas redes sociais, de que esse processo “permitiria” o sustento de carreiras e a divulgação das bandas de rock, garantindo a movimentação e a popularidade. Tudo muito lindo no discurso, mas é uma grande balela.
O que se vê na realidade é outra coisa. O rock se reduz a uma trilha sonora de eventos da alta sociedade. Sucessivos shows de rock estrangeiro em quantidades frenéticas impede os fãs dos artistas envolvidos em poder assistir aos shows, pois os ingressos são caríssimos. Os verdadeiros fãs de nomes como Foo Fighters e Rush não têm dinheiro para ver essas bandas. Mas quem tem é a burguesia que não curte rock, mas depende do gênero para se promover no colunismo social e nas redes sociais, só para dar uma de moderninha aos olhos da sociedade.
Protestos de fachada contra o reacionário da moda, seja Donald Trump, Daniel Vorcaro e o que vier no momento só servem para dar a impressão de que a rebeldia no rock continua, como se viu no show do Capital Inicial no Rock In Rio deste ano. Mas a “cultura rock” vigente no Brasil tem o objetivo de calar as vozes da verdadeira rebeldia do rock, que só é admitida pelos gestos caricaturais da linguinha de fora e da “mãozinha do capeta” e pelos clichês que em nenhum momento ameacem os interesses da Faria Lima, que hoje constrói fortunas exorbitantes às custas do gênero.
Daí os contrastes entre o que ocorre nos EUA e no Reino Unido, quando o revival dos veteranos do rock os incentiva a retomar a carreira com criatividade genuína e com a popularidade em níveis realmente humanos, e o consumismo voraz e desumano do “cenário roqueiro” no Brasil, onde Xuxa Meneghel é vista como “cantora de protesto” enquanto o hardcore que aqui temos faz piadinhas abraçado ao Tatola da 89 FM, a “rádio rock” da Faria Lima. Triste.

Comentários
Postar um comentário