O portal Brasil 247, fã-clube informal de Lula, tem uma técnica para romantizar a imagem do petista sem que essa manobra fosse notada. A técnica consiste em criar um aparato de objetividade textual, usando a narrativa jornalística e a relativa frieza institucional para dar a impressão de fidelidade absoluta aos fatos.
É de admitir que isso faz com que boa parte dos textos do portal Brasil 247 sejam bem feitos e, às vezes, até elegantes, e isso se deve à contratação de gente que teve uma trajetória autêntica de jornalismo profissional. O problema é que o legado jornalístico foi deixado em segundo plano para dar lugar à tietagem, à mistificação de um líder político que é o Lula.
Pessoas mudam e, infelizmente, várias mudam para pior. Em Hollywood, por exemplo, astros mirins podem mudar de repente,pelas tentações do hedonismo juvenil, e sucumbir a tragédias prematuras. Me vêm à mente casos como River Phoenix, Dana Plato, Jonathan Brandis e, mais recentemente, Hayden Panettiere, que pelo sobrenome eu e meu irmão, em nossas conversas, chamávamos carinhosamente de “pãozinha”.
Na política, antigos líderes de origem popular podem contaminar suas carreiras e mudar de lado, sendo amigos das elites. Existe um termo, “pelego”, que corresponde ao líder dos excluídos que estabelece alianças com as elites dirigentes, prejudicando em parte as conquistas sociais, que se tornam menores do que se desejava.
É duro ver que, hoje, quando o “vocabulário de poder”, fenômeno estudado pelo jornalista britânico Robert Fisk, se torna um filtro para o trânsito de palavras e ideias que destoam das narrativas oficiais, o termo “pelego” tenha caído em um semi-desuso.
Por incrível que pareça, muitas mudanças de conduta não são notadas pelos aliados mais apaixonados, como é o caso de Lula, que goza de uma romantização de sua imagem que segue inabalável, em que pese a violenta pressão dos antipetistas.
Mas até os amigos mais próximos de Lula alertam de que é necessário que o povo faça passeatas para pedir as prometidas conquistas sociais do governo Lula, pois se ninguém se mobilizar, ele não move um de seis nove dedos sequer.
Lula é como um boneco de corda, tem que pressionar para ele mover. O petista só se move pelas circunstâncias, quase deixou para lá, por exemplo, o fim da escala 6x1 no trabalho, adotada em última hora como um dos ganchos para a reeleição.
A pouca preocupação com as causas trabalhistas enquanto prioriza projetos paliativos mostra o caráter pelego de Lula, que adota medidas sociais dentro dos limites autorizados pelo empresariado. E aqui lembremos de um momento em que Lula, aceitando um acordo salarial brando, causou indignação das classes trabalhadoras, citado no artigo “Lula arranca para o tetra na Vila Euclides”, de Aquiles Lins, do Brasil 247:
O presidente dedicou parte significativa do discurso às greves dos metalúrgicos do ABC de 1979 e 1980. Lula recordou particularmente uma assembleia de 1979, quando considerou satisfatória uma proposta apresentada pelos empresários, mas encontrou resistência entre trabalhadores mobilizados havia 15 dias.
Temendo perder uma votação direta sobre o acordo, Lula contou que pediu um voto de confiança para que a categoria voltasse ao trabalho enquanto ele continuaria negociando.
“Os trabalhadores, por unanimidade, aprovaram a minha proposta de voltar a trabalhar e eu continuar negociando. Mas todos os trabalhadores saíram daqui putos da vida comigo, achando que eu tinha traído eles”, relatou’.
Lula é romantizado pelos seus adeptos como se fosse o “grande líder revolucionário” que “irá comandar o mundo”. A divinização de Lula faz com que se abafem defeitos como o peleguismo, através de argumentos que tentam convencer o povo a aceitar salários precários e subemprego.
O presidente em busca de reeleição fez muito pouco pelos brasileiros e só a burguesia ilustrada se empolga com ele. A chance para fazer mais foi no terceiro mandato. Se o terceiro mandato foi medíocre, com uma “reconstrução” com mais festa do que trabalho, dá para perceber que Lula não está pronto para mais.

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