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"FUNK" FAZ NEGROS E POBRES SEREM REFÉNS DO GÊNERO


A "resistente cena da periferia" descrita em matéria de Augusto Diniz na revista Carta Capital deveria ser entendida não como um ato de persistência e perseverança de uma classe de hipotéticos excluídos sociais, mas, em verdade, como a resistência de uma narrativa chorosa que apela para a gourmetização da pobreza brasileira.

Mais uma vez o "funk" investe na mesma narrativa do "combate ao preconceito", no mesmo papo-cabeça repetitivo, que usa a pobreza e a negritude como "carteiradas", como se ser negro e pobre fossem atribuições exclusivas do gênero. O documentário Funk Favela, de Kenya Zanatta, apela para os mesmos clichês dessa propaganda que repete o mesmo apelo coitadista de duas décadas.

Sempre alternando entre o triunfalismo e o vitimismo, o "funk" nunca foi uma cultura de verdade, tendo seu discurso "socializante", com pretensões para o falso esquerdismo, sido montado por DJs e empresários que queriam fazer do gênero mais do que um modismo de temporada.

O "funk", que sempre foi comercial e sem compromissos artístico-culturais mesmo através da problemática vertente dos "proibidões", teve que forjar e investir, com a repetitividade discursiva do marketing, um discurso de "movimento social", uma narrativa de suposto engajamento de um imaginário povo pobre que não é o pobre da vida real. A "vida real" do "funk" é tão "real" quanto os reality shows que, em parte, servem de veículos para divulgação deste estilo da música brega-popularesca.

É um discurso coitadista, feito para tocar as emoções da classe média abastada, que nunca gostou de pobre mas gosta da pobreza domesticada da qual o "funk" é sua expressão mais caraterística. São usadas desculpas para que esse ritmo marcado pela mais profunda e aberrante precarização musical - o que faz do "funk", só para ser mais direto, seja um tipo de música MUITO RUIM em todos os aspectos - atinja mercados que não somente arrancam muito dinheiro dos jovens humildes como quer arrancar dinheiro também da juventude de classe média abastada.

Na prática, o "funk" não passa de um grande estelionato cultural.

Sim, porque esse discurso coitadista-triunfalista do "funk", que impõe o gênero como "única estética possível" para os jovens das favelas, faz com que o jovem brasileiro, seja negro ou pobre, se torne refém do gênero. Principalmente quando usa a negritude como "escudo" para tentar abafar críticas, o que se torna um apelo preocupante, pelo nível de persistência que acaba prejudicando e não beneficiando a cultura negra brasileira.

Não bastassem as narrativas surreais e tendenciosas que tentam comparar o "funk" a eventos tão diversos como o Modernismo, a Revolta de Canudos e até o mundo fashion da Pop-Art dos EUA (vide, por exemplo, Andy Wahrol), o "funk" torna o jovem negro e pobre um prisioneiro e um escravo da simbologia do gênero.

O jovem negro e pobre acaba sendo prisioneiro de sua própria simbologia da pobreza. Ele é forçado a aderir à mística do "orgulho de ser pobre", dentro da nova lógica burguesa, infelizmente adotada pelas esquerdas médias, de ressignificar a pobreza como "etnia" e as favelas como "aldeias". É o mito da "pobreza linda" que acaba criando a utopia do "pobre que deixa de ser pobre sem deixar de ser pobre", apenas tendo dinheiro no bolso, mas sem a esperada dignidade social.

Com um discurso ao mesmo tempo demagógico e chantagista, além de autoritário, o "funk" tenta penetrar nos espaços sociais de classe média sem no entanto abrir mão da simbologia da pobreza, da espetacularização da miséria e seus valores retrógrados associados, como a ignorância, a grosseria e até mesmo o machismo, mascarado, por parte das mulheres, pelo falso feminismo hipersexualizado.

O discurso chantagista que faz com que os ideólogos do "funk" aleguem que "o estilo é ruim porque a sociedade é que faz ele ficar assim" cria um círculo vicioso que em nada ajuda na evolução do gênero, até porque o "funk", como este blogue revela com exclusividade, é marcado pelo profundo rigor estético e sonoro, nivelado por baixo.

O "funk" só "evolui" se for pela vontade dos DJs e do mercado. Só que essa "evolução" não significou nem significa jamais uma melhoria artística e cultural, mas apenas mudanças na forma de execução, em que uma batida padrão é trocada por outra e artifícios são incluídos. O trap, franquia do "funk ostentação" paulista que assimilou o subproduto do gangsta rap estadunidense, já está inserindo sons de cavaquinho ao lado da batida que lembra o som de latas de conservas vendidas em supermercados.

O referido documentário Funk Favela é mais uma tentativa de fazer a narrativa coitadista do "funk" parecer "científica", dentro de um lobby denunciado no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... e sua versão condensada, Essa Elite Sem Preconceitos (Mas Muito Preconceituosa)..., permitindo que o discurso propagandista tenha um verniz de objetividade e de transparência.

Só que isso não esconde a hipocrisia própria da narrativa funqueira, uma vez que tudo isso não disfarça os propósitos exclusivamente comerciais do gênero nem a intenção de fazer os pobres e negros se tornarem prisioneiros e reféns de sua própria inferioridade social, escravos da sinuca de bico do discurso funqueiro, forçados a se ascender socialmente através do gênero e, mesmo assim, sem sair da simbologia de pobreza e precarização social em que se encontram atolados.

E isso é muito ruim, mas não é difícil de entender. Na bolha lulista, em que as esquerdas se corromperam ao se renderem aos diversos cantos de sereia da direita moderada e seu culturalismo conservador mais "positivo", oferecido como "brinquedos culturais" para as esquerdas médias montarem seu Brasil de "novela das nove". 

Lembremos que, no caso do "funk", o gênero é um "frankenstein" ("funkenstein"?) montado da colcha de retalhos do culturalismo brega e precarizante do populismo midiático da ditadura militar, do qual Sílvio Santos foi seu maior propagandista. Ou seja, o "funk" nunca é nem será cultura popular, e ainda mais quando os funqueiros mal conseguem esconder que se enriqueceram exorbitantemente através do gênero. E, mesmo com muito dinheiro no bolso e nas contas bancárias, o "funk" continua sendo uma música muito, muito ruim.


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