Um erro que Lula cometeu no seu programa de governo é propor a reformulação da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Que sentido tem colocar essas propostas para um projeto feito para o eleitorado brasileiro? Nenhum, diga-se de passagem.
Que soberania é essa que é feita mais para turista chinês ver? Observa-se que Lula prioriza agendas internacionais, fora os temas nacionais que refletem na sua consagração pessoal. E aí sentimos apreensivos em ver Lula querer enfatizar mais uma vez a política externa em vez dos assuntos ligados à vida cotidiana do povo brasileiro.
Os lulistas têm como equívoco internalizar assuntos externos. A causa da Palestina é quase um assunto comunitário, de bairro, como se o projeto de uma nação do Oriente Médio fosse algo de interesse direto dos moradores da Zona Leste de São Paulo, por exemplo.
Do mesmo modo, o tarifaço de Donald Trump é entendido erroneamente como um assunto da economia interna do Brasil e todos os assuntos envolvendo importação e exportação seriam diretamente relacionados a assuntos econômicos internos. Assuntos internos e externos podem se relacionar e exercer influência mútua, atingir o orçamento dos brasileiros etc, mas isso não quer dizer que o tarifaço é um assunto de economia doméstica do nosso país.
Os lulistas sentem a obsessão de colocar as cabeças para fora. Diferem dos bolsonaristas no que tange à questão da Pátria, mas em que pese o “nacionalismo saudável” dos lulistas, eles parecem mais focados no âmbito internacional do que no nacional.
O nunca oficialmente reconhecido apoio burguês a Lula já sinaliza esse desejo ansioso do lulismo dominar o mundo. O protagonismo mundial é mais prioritário do que a melhoria das condições de vida da população necessitada, que para os seguidores de Lula, é só um “detalhe”.
Viver de salário precário de R$ 1.621 - que poderá ser de R$ 1.717 ou R$ 1.741 - , encarar a carestia de preços de serviços, produtos e contas a pagar, só para usar por ironia um comentário de Miriam Leitão, são só uma “sensação”, diante dos relatórios que, de forma mágica, anunciaram as “fantásticas realizações” do governo Lula que as classes populares não sentiram.
Lula anunciou a descoberta de reservas de petróleo no Rio Amazonas, há poucos dias. Isso acende mais um item favorito da agenda do presidente, a Margem Equatorial, que se soma ao tarifaço, às terras raras e aos minerais críticos entre as palavras-chave do repertório de propostas de Lula. E ainda há outros assuntos, como a indústria nuclear e a segurança militar, assuntos válidos, mas que não podem fazer as causas trabalhistas serem jogadas em segundo plano, presentes na retórica de Lula mas condenados à subvalorização na prática.
O petista pensa demais na política externa. Ainda a prioriza, mas Lula deixou de tratar de forma menos abstrata. O presidente chegou até a propor um plano de paz entre Rússia e Ucrânia, recebendo gozações de ambos os presidentes desses países. Mas hoje Lula parece pragmático na sua política externa, daí as palavras-chave da economia como as que envolvem os metais estratégicos para as indústrias de tecnologia.
Pensar nisso é essencial e válido, mas o problema é ver Lula dando ênfase a tudo isso e desprezar causas trabalhistas, recorrendo ao relatorismo para inventar que está tudo bem. Ver que o governo Lula terminou o terceiro mandato com vários desastres, como falência de empresas, aumento de população de rua, rombo trilionário e cortes de verbas para a Educação e Saúde públicas é coisa de assustar.
O terceiro mandato foi uma amostra do quarto mandato. Lula parecia brincar de ser presidente, se divertindo, viajando e falando bobagens. Iludido com o próprio carisma, ele descumpriu os deveres que, de certo modo, ele cumpriu nos mandatos anteriores.
Lula, portanto, prefere fazer coisas que o façam se consagrar. Coisas que “apareçam” para o mundo. Por isso, o presidente se esqueceu da política interna e o Brasil acabou mergulhando numa crise. Lula parece fazer campanha para ser o presidente do Sul Global do que do Brasil. O problema é se os brasileiros vão votar num programa de governo cujas pautas principais são de âmbito estrangeiro. A fome é só um “detalhe” e os preços caros são só uma “sensação”.

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