O Brasil que prevalece hoje, no seu viralatismo cultural enrustido, não é o país do povo brasileiro, mas de duas elites em disputa de hegemonia, que hoje se dividem entre Lula e Flávio Bolsonaro, os dois ídolos rivais da polarização política.
O povo brasileiro real, invisível às redes sociais, não se sente representado pela bregalização musical, por “bispos” e “médiuns”, não fala gírias como “balada” nem fala o portinglês de termos como “body” e “bike”. O verdadeiro povo brasileiro está escondido em algum canto desde 1964 e suas vozes são mal interpretadas pelos pretensos representantes na dita “opinião pública”, a “opinião que se publica”.
Desde que ocorreu o golpe de 1964, o povo brasileiro, como os pobres da vida real, os excluídos sociais da antiga classe média (que paga o preço de não compactuar com as classes dominantes), os homens com dificuldade na vida amorosa, as mulheres que não negociam com o machismo, as pessoas que não se submetem à idiotização cultural, caíram no esquecimento e no abandono.
O AI-5 desenhou um modo de ver o Brasil e o antigo IPES-IBAD se dissolveu institucionalmente para penetrar nas veias do brasileiro médio, este que aparece nas redes sociais e na mídia. De “médiuns espíritas” a antropólogos pró-brega, dos ônibus com pintura padronizada ao rock domesticado pela 89 FM (a “rádio rock” da Faria Lima), o legado do IPES-IBAD segue mais forte do que nunca, embora invisível a olho nu. E a Espera Brasil, dos donos da 89, é herdeira institucional do antigo think tank.
Mas os antigos golpistas de 1964 se dividiram entre o apoio a Lula e o apoio à família Bolsonaro. O bolsonarismo é filho da “linha dura”, enquanto os “democráticos” estavam com Ernesto Geisel para desenhar um modelo de sociedade brasileira que persiste até hoje.
A elite do atraso propriamente dita se confinou no bolsonarismo. Mas parte da elite do atraso se repaginou e viu que Lula nunca foi ameaça às classes dominantes,virando a elite do bom atraso, que defende os valores retrógrados de 1974 dos anos de chumbo que poderiam ser mantidos sob pretextos “positivos”. No bonde dos ônibus padronizados, “médiuns” poderiam se passar por outros mortos e a regra da festa era “mais brega e menos Bossa Nova”.
Uma catástrofe sociopolítica e cultural está em andamento, num processo sem precedentes na história da humanidade. Até um simples ato de ir e vir no Brasil fará com o que o baile de máscaras dos ônibus padronizados desafiem as atenções daqueles que já se ocupam demais em trabalhar, estudar e pagar as contas para evitar embarcar no ônibus errado e, no desembarque, ter que pagar por um segundo ônibus ou, em certos casos, esbarrar no cano do fuzil de um miliciano, como nos subúrbios do Rio de Janeiro, onde o “efeito Transwolff / UpBus” pode refletir com a intensidade de um tsunami devastador.
A catástrofe que a vitória de Lula ou de Flávio Bolsonaro poderá causar danos profundos e dolorosos. Sob Flávio, a necropolítica de feminicídios, crimes no campo, esquadrões da morte, extermínios de pobres e negros, eliminação de tribos indígenas, a perseguição contra religiões não-cristãs e a militarização do país podem produzir um cenário traumatizante para os brasileiros.
Mas sob Lula, os danos não terão nível menos traumático. O protagonismo brasileiro no mundo será comparável a entregar a uma criança de três anos o controle de uma usina nuclear. Um país culturalmente precário colocará sua ignorância acima da tentativa do Velho Mundo em se recuperar culturalmente. A vitória de Lula será, portanto, a vitória da burrice sobre a inteligência, sintoma da Síndrome de Dunning-Kruger na geopolítica mundial.
O lulismo também demonstrou complacência com os padrões de trabalho precário da China e o obscurantismo socioreligioso do Irã, o que pode, de maneira perigosa, se impor como pretensos modelos de vida. Já se fala do risco da Europa tornar-se um gigantesco Irã, a partir das ameaças de retrocessos socioculturais da Espanha (que sofreu uma estranha invasão de imigrantes marroquinos) e França, justamente dois países governados por aliados do presidente Lula.
Imagine,sob o comando do Sul Global, as mulheres europeias, sejam italianas, francesas, espanholas etc, serem obrigadas a viver cobertas da cabeça aos pés e serem obrigadas a se casar com homens bem mais velhos e violentos, devotos de um rancoroso fundamentalismo religioso.
Há também o perigosíssimo projeto da “Pátria do Evangelho” com o Brasil promovido a “coração do mundo”. Essa ameaça disfarçada de palavras dóceis e narrativas suaves representará, na verdade, a restauração do antigo Império Bizantino sob o rótulo do Espiritismo brasileiro, que não é mais do que uma versão repaginada do Catolicismo medieval jesuíta do Brasil colônia. Essa supremacia religiosa pode gerar, no futuro, batalhas sangrentas sob o pretexto de zelar pela “fé cristã”, como nas antigas inquisições e cruzadas.
Há também o risco de, sob Flávio Bolsonaro, o Brasil se tornar uma possessão estadunidense, ao modo de Porto Rico, nas mãos de Donald Trump. Se Lula vencer, há também um forte perigo de haver uma revolta maior que a de Oito de Janeiro, que vai puxar um golpe que poderá derrubar o petista de maneira violenta.
Tudo isso pode ocorrer por conta da má-fé da elite do atraso e da boa-fé da elite do bom atraso. Se a Terceira Via ganhasse as eleições ou fornecesse a dobradinha para o segundo turno, tipo Ronaldo Caiado versus Augusto Cury, nosso país perderia a chance de ser a vedete mundial, mas não seríamos também parque de diversões da Terra, numa festa frenética que depois causaria uma violenta ressaca.
Seria bom deixar as paixões políticas de lado, pôr fim à polarização e reconhecer que o Brasil, na sua infância geopolítica, precisa ficar quieto no próprio canto, pois sua ostentação ao mundo, seja à esquerda ou à direita, poderá gerar danos irreversíveis para toda a humanidade.

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