Uma crença religiosa medieval, que de forma sutil penetra há décadas na religiosidade brasileira, começa a crescer de forma a contaminar até outras crenças que em princípio não professavam essa corrente que foi o suprassumo do obscurantismo religioso da Idade das Trevas.
A doutrina, a Teologia do Sofrimento, se baseia na ideia de que é suportando as desgraças sem fim ou só se livrando delas com muita dificuldade é que o indivíduo conquistaria as chamadas “bençãos eternas”. Ultraconservadora, a Teologia do Sofrimento, que poderia ser apelidada de “Evangelho Segundo Pôncio Pilatos”, também demonstra ideias que vão contra a justiça social que supostamente defende em seu discurso docemente traiçoeiro.
A Teologia do Sofrimento defende a tese de que a vítima é culpada por sua desgraça. Cabe ao oprimido aguentar as desgraças que se acumulam em sua vida, sem manifestar queixa alguma. Se possível, é proibido gemer de dor. Há também a tese, bastante perversa, de que o indivíduo é inimigo de si mesmo e cabe a ele reprimir suas vontades, desejos ou até necessidades para obter as “graças infinitas”.
Em contrapartida, a Teologia do Sofrimento permite os abusos dos opressores, pelos quais se suplica a misericórdia tóxica, que é o tipo de “perdão” que dá sinal verde às atrocidades humanas - como o feminicídio e a pistolagem no campo - , pois o opressor é visto como um “inocente”, sendo apenas um “instrumento de Deus” para as provações alheias.
Essa misericórdia tóxica, que perdoa o algoz e condena a vítima, permite neologismos como “ganhão” e “riquezicórdia”, na medida em que “perdão “ e “misericórdia”, pelos seus prefixos comuns a “perda” e “miséria”, sugeririam ao opressor a renúncia de seus privilégios. Na Teologia do Sofrimento, os opressores mantém seus privilégios e há quem diga, em argumento sem pé nem cabeça, que tais vantagens seriam “provações”.
Mundialmente reciclada a partir de Teresa de Lisieux e popularizada por Madre Teresa de Calcutá, a Teologia do Sofrimento se baseia no livro de Jó no Velho Testamento. Foi introduzida no Brasil a partir de jesuítas católicos e, no período colonial, foi usada até para justificar os suplícios de escravos e indígenas.
Por isso, temos a triste peculiaridade de o Espiritismo brasileiro, em que pese toda a sua fachada vinculada à Doutrina Espírita original, de Allan Kardec, nunca ser mais do que uma forma repaginada do Catolicismo medieval jesuíta do Brasil colônia.
No Espiritismo brasileiro, a Teologia do Sofrimento é muito mais presente do que os postulados espíritas franceses. As ideias vieram sobretudo de um “médium” ultraconservador que atuou em Pedro Leopoldo e Uberaba e cujas iniciais são as consoantes da palavra “caixa”. Suas ideias de sofrer calado “sem queixumes” são de um medievalismo explícito e moldou a moral punitivista que o Espiritismo brasileiro adotou sob o aparato da reencarnação.
A Teologia do Sofrimento engana a sociedade pelo tom dócil e falsamente paternal com que defende suas ideias. O tom suave de suas pregações fez muita gente erroneamente definir essa corrente medieval como “progressista” e várias, com certa ingenuidade, chegaram a compará-la com a Teologia da Libertação, na verdade sua antagonista.
E isso faz com que a Teologia do Sofrimento cresça de tal forma que passa a introduzir seus princípios até em correntes evangélicas ou mesmo de origem oriental, que já falam dos aspectos “positivos” da desgraça humana. Essas crenças religiosas responsabilizam as vítimas pelos infortúnios obtidos e apelam para os oprimidos trabalharem as energias de resignação e conformidade sob a promessa de melhorias de vida futuras.
Isso pode abrir um precedente perigoso para um pouco conhecido fundamentalismo religioso, diferente do manjado reacionarismo nervoso das seitas neopentecostais. O risco é do antigo Império Bizantino, como projeto político e religioso, se restaure no Brasil, fazendo um plano perigoso de liderança mundial que parece positiva e agradável a muitos, mas que irá produzir uma catástrofe humana de dimensões traumatizantes.

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