Nota-se que existe uma campanha negacionista que quer proteger todo o processo de sabotagem e deturpação da cultura rock no Brasil, com o claro objetivo de proteger os interesses empresariais que andam faturando alto com o gênero, mesmo estando em baixa popularidade. Aquele velho papo da “viabilidade econômica” que não convence mais.
No momento, há um tributo sinfônico do Rock Brasil, algo que tira do contexto o cenário dos anos 1980 e nada contribui para relembrar as grandes canções de rock das novas gerações, só servindo de trilha sonora para um bando de gente rica descolada beber vinho e jogar conversa fora.
Não, a gente não pode criticar essas coisas. Nós não podemos criticar a máquina de patrocínios da 89 FM, a “rádio rock” da Faria Lima. Nas redes sociais, temos um monte de “donos da verdade” que não entende de 1% sequer da realidade e da História do Rock e se acha proprietário do gênero e xinga a mãe de quem não aceita suas imposições. E manda boicotar textos que contestassem tudo o que eles pensam e fazem.
Faz sentido a 89 FM ser referência para a rebeldia roqueira, tendo como dona uma família que apoiou abertamente a ditadura militar e defende a escala 7x0 no trabalho? Sério? Mas até isso o pessoal faz vista grossa. E questionar tudo isso que se faz com a cultura rock no Brasil incomoda quem está ganhando uma nota preta em cima. Ver a rebeldia roqueira ser refém da Faria Lima me causa profundo horror.
Na recente postagem sobre o que aconteceria se “Getting Better”, dos Beatles, fosse lançada hoje, o pessoal não entendeu. A estupidez brasileira ultrapassa os limites e não sabe que o julgamento de valor dos chamados consultores de rock deseja um formato engessado de rock, em que até os gestos nas apresentações ao vivo tem que ser calculados.
É a arrogância dos negacionistas factuais, que veem o mundo em órbita sobre seus umbigos, que não aceita críticas neste sentido. Essas pessoas não entendem um punhado sequer do que é a cultura rock e querem fazer julgamento de valor. E acham que renovação no cenário do rock no Brasil é igual programa de reality show musical.
Eu cito um clássico dos Beatles, “Getting Better”, que gosto bastante, e simulo um parecer de um consultor musical e o pessoal não quer ler. O pessoal não sabe que as consultorias de rock seguem um padrão de canção, de temas e de acordes etc, e só vai aprovar um padrão de três ou quatro minutos de canções roqueiras assobiáveis com algum vigor técnico de energia sonora só para favorecer o sucesso de público, fazer a plateia pular.
Ousadias só são permitidas dentro dos limites da mentalidade empresarial que sequestrou o rock aqui no nosso país. Se chegou-se ao ponto de calcular gestos e criar padrões de solos de guitarras. E os padrões temáticos não iriam além de letrinhas de amor ou desilusões amorosas, viagens de trem ou moto ou evocações ao rock e aos clichês inofensivos de rebeldia.
Os negacionistas factuais caem em contradição, dizendo que a criação do rock é “livre” e que as tais consultorias apenas “orientam” para o sucesso. Mas defendem fórmulas consagradas e formatos que criam um rock domesticado, comercialmente viável mas artisticamente pouco consistente e tão “transgressor” quanto uma bolinha de algodão carregada pela brisa.
Com esse quadro excessivamente empresarial que assola a cultura rock no Brasil, o rock fica sem graça. Não é o rock que ficou velho, ele se limitou a uma lógica de hit-parade que limita a um punhado de bandas manjadas e canções de sucesso comercial. E isso contribui mais para o enfraquecimento do rock do que seu fortalecimento. Desse modo, quem é beneficiado com isso é a música populareca.

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