A MAIS NOVA INVENÇÃO DA IMAGINAÇÃO FÉRTIL DA FARIA LIMA: A "BALADA SÓBRIA".
A Faria Lima não quer que sua gíria-mercadoria “balada” caia em desuso. A pior gíria de toda a História do Brasil vem com mais um apelo. Depois de descontextualizar no tempo e no espaço, inventando “baladas” que nunca existiram nos anos 1980 e não existem no exterior, agora vem a tal da “balada sóbria”, supostamente mencionada por uma jovem frequentadora da vida noturna, não se sabe com que estímulo de algum repórter do UOL, portal da Folha de São Paulo, que divulgou uma matéria.
Para os desavisados de plantão, a gíria “balada” é uma versão brega das raves britânicas. O termo é bem mais limitado no tempo, no espaço e no estilo. Expressão da juventude da Faria Lima, de ricos empresários - não muito diferentes de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e sua “galera” - , a gíria “balada” marcou a década de 1990 tocando o pop dançante qualquer nota da Jovem Pan (que empurrou para o Brasil porcarias vindas de obscuras gravadoras da Itália e Bélgica).
O termo “balada” se refere a um eufemismo. Era um rodízio do consumo de drogas alucinógenas, sobretudo o ecstasy, que era moda na Grã-Bretanha e foi introduzido no Brasil. Essas drogas, pelo formato de comprimidos, eram chamadas de “balas” para evitar suspeitas. Daí o termo “balada”, o "rodízio de bala".
A gíria “balada” foi “popularizada” no fim dos anos 1990 pela associação entre a Rede Globo e a Jovem Pan, que lançava a série de DJs de dance music “Na Balada”. Luciano Huck, apresentador e empresário,um dos líderes da Faria Lima, fazia o programa Torpedo da Pan e estava trocando o programa H, da Band, pelo Caldeirão do Huck, da Rede Globo.
Dentro da perspectiva da “novilíngua” de 1984 de George Orwell e do “vocabulário de poder” estudado pelo jornalista britânico Robert Fisk, a palavra “balada” foi transformada em produto pela logística publicitária de Tutinha, dono da Jovem Pan, e Luciano Huck. “Balada” foi a primeira gíria com departamento comercial e de marketing na história do nosso país e contou até com “tribunal da Internet’ (processo de ofensas e agressões coletivas contra indivíduos nas redes sociais) em sua defesa.
A gíria “balada” virou uma mercadoria a serviço do lucro de casas noturnas e grandes indústrias de cerveja. Como produto, “balada” vendia um “ideal de vida”, tal como um automóvel, por exemplo. O objetivo era promover um “modelo de vida” em que o prazer era submetido à vida noturna, a obsessão pela curtição dentro de boates, bares e restaurantes caros.
No “vocabulário de poder”, a gíria “balada” veio claramente para exercer a função da “novilíngua” do livro de Orwell, pu seja, a de ser uma palavra que, acumulando significados, empobrece uma língua, precarizando a linguagem de uma sociedade. Conforme a gramática, menos significantes com vários significados elimina a diversidade linguística e enfraquece a cultura. “Balada”, nesse sentido, passou a ser não só uma festa noturna, mas um jantar entre amigos, uma apresentação de um DJ ou até, pasmem, se divertir à noite de qualquer forma.
Até a vida amorosa se inseriu tanto neste contexto que os bares e boates exerceram tanto monopólio na busca por vida amorosa, com direito a “matérias leves” em telejornais da TV, que hoje temos o preço caro dos feminicídios, envolvendo casais em grande parte formados pela afinidade postiça do “amor de noitada”.
A gíria “balada” - que excluía as verdadeiras baladas, que são as músicas lentas, e condenava ao desuso a antiga dança romântica de casais abraçados - tinha até merchandising em novelas e telejornais. A Faria Lima ordenava a inclusão da gira em pautas jornalísticas e em diálogos de novelas. Nos telejornais, era comum haver matérias que diziam “como usar a roupa ideal pra balada” ou notícias como “confusão durante uma balada na cidade tal”.
Como toda mercadoria, essa gíria entorpecente tinha que se diversificar para atrair mais públicos, com perfis mais diferenciados. Tirar a “balada” do contexto do tempo (anos 1990), do espaço (áreas nobres de São Paulo), de público (jovens ricos) e estilo (casual chique e som de pop dançante de DJ) foi proposital, visando ampliar e consolidar os lucros do empresários envolvidos.
A ideia é fazer a gíria “balada” atingir um alcance nacional e chegar até ao interior do Piauí ou do Amapá. Uma rede de escolas chegou a criar um ciclo de festas infantis chamado “baladinha”. Evangélicos e até headbangers e punks caíram na tentação de falar a gíria. Na imprensa, eram mencionadas “baladas” que ocorreram nos anos 1980 e que ocorrem fora do Brasil. O “vocabulário de poder” estava no maior agito.
E aí chegamos ao absurdo de uma tal de “balada sóbria”, sem álcool nem drogas. Isso é um grande contrassenso. A gíria “balada” sempre se movimentou pelo consumo de cerveja e a expressão nasceu deum consumo de drogas, mas o desespero da gíria-mercadoria em evitar cair em desuso e botar os empresários da “noite” no prejuízo, agora se faz com este apelo, com uma moça falando em “balada sóbria” estimulada talvez por algum repórter que mencionou a indigesta palavrinha.
A Faria Lima não tem limites em perpetuar a gíria “balada”. Inventam qualquer coisa para perpetuar o jargão inventado pelas elites empresariais do Itaim Bibi. Daqui a pouco a mídia venal vai anunciar a descoberta de “baladas” em Marte.

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