O resultado da campanha presidencial deste ano reafirmou a polarização política, numa disputa das mais medíocres e que mostra o quanto os dois lados do eleitorado não merecem ser considerados “povo brasileiro”. Afinal, os defeitos dos dois candidatos, Lula e Flávio Bolsonaro, foram insuficientes para seus seguidores deixarem a idolatria de lado e experimentarem outros candidatos.
A burrice estúpida dessas duas parcelas do eleitorado fez com que apenas causas abstratas fossem levadas em conta, como "combater o fascismo" dos lulistas e "combater o comunismo" dos bolsonaristas. No caso de Lula, o presidente em busca de reeleição, seu governo ruim, com juros altos e rombo trilionário, não impediu que seus seguidores bem de vida ficassem entusiasmados em votar nele.
O que são a elite do atraso e a elite do bom atraso? São duas elites que tomaram as rédeas do Brasil, com seus delírios, devaneios e convicções. Ambos os lados estão bem de vida, sendo de um lado a sociedade cool que votou em Lula e os “cidadãos de bem” que votaram em Flávio.
Não estão essas pessoas entre os endividados crônicos. Não estão entre eles os homens e mulheres que sofrem de sérias limitações financeiras, problemas amorosos e dificuldade de obter empregos de acordo com suas habilidades naturais. Também não estão entre eles as pessoas que tentam restringir a cesta básica, para não ficar com fome diante de alimentos tão caros.
O sistema de valores atual parece reciclar a velha disputa entre os luzias, liberais, e os saquaremas, conservadores. Duas forças que se uniram para derrubar Getúlio Vargas, para impedir a posse de Juscelino Kubitschek e para derrubar João Goulart. E se dividiram entre o MDB e a ARENA.
Os liberais, os “democráticos” do tempo da ditadura militar, e os conservadores, a “linha dura” do regime, começaram a desenhar um país em que o povo da vida real é só um detalhe, um gado a consumir da mídia aos “médiuns” e se deixar conduzir por pastores e ônibus padronizados, ouvindo do brega mais rasteiro ao rock mais pasteurizado.
Embora divergentes em inúmeros princípios, esses dois polos chegaram aos últimos anos concebendo uma dicotomia que alterna entre o esquerdismo domesticado dos lulistas e o direitismo tresloucado dos bolsonaristas. Ambos achando-se, na prática, “donos” do povo, querendo interpretar as vontades populares com pedantismo e, não obstante, falsidade e demagogia.
Enquanto não recuperamos em todo os estragos do pós-1964, com muitos retrocessos tornados “hábitos” e sendo até alvos de nostalgias fabricadas pela mídia, as duas elites disputam os holofotes mundiais de maneira perigosa. Quando o nosso país precisa sair do pedestal e se preocupar internamente para resolver os problemas internos, lulistas e bolsonaristas expõem o Brasil ao mundo de modo arriscado.
Culturalmente devastado, o Brasil fica refém dessas duas forças, dessas elites que impediram sequer de conhecer a Terceira Via. Vieram com a narrativa do “político de estimação” e, agora, botaram Lula e Flávio Bolsonaro para disputar o segundo turno.
Será preciso muita pressão para que o Brasil se reconstrua acima destas forças, sem medo da cara feia de muita gente. A Era Geisel infelizmente ainda representa os “anos dourados” para muita gente que sempre viveu de forma privilegiada embora, em dado momento, finja ser pobre para tentar impressionar os outros.
É tanta falsidade que o verdadeiro Brasil vive à revelia da grande mídia, das redes sociais e dos algoritmos. É fazer a democracia falar sem estes dois filtros. Um Brasil que precisa falar por si, e não por quem pretensamente fala em seu nome.

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