Semanas atrás, uma “médium” de Brasília, Maira Rocha, foi denunciada pela Justiça por ter feito fraudes nas chamadas mensagens psicografadas. Ela teria recorrido às redes sociais para colher informações para produzir mensagens que, além de apresentarem fortes semelhanças com os textos que foram usados como fontes, foram apontados erros de informação.
Numa das mensagens produzidas, um falecido teve a data de nascimento creditada errada, com base numa fonte que havia errado a informação. Em outra mensagem, se supunha a presença espiritual de uma pessoa que continua viva. Uma denunciante usou pseudônimo para divulgar as denúncias, temendo represálias.
Houve outro caso parecido. Foi com um “médium” de Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro, Fernando Bem, que chegou a enganar o ex-casal Nizo Netto, filho de Chico Anysio, e Brita Brazil, atriz e ex-modelo, por conta de mensagens atribuídas ao falecido filho dos dois. O dito paranormal foi denunciado por usar dados cadastrais dos mortos para produzir “psicografias”. Os dados, sabemos, são colhidos através de entrevistas com familiares ou amigos de alguém falecido.
Quem acha que isso só ocorre com “médiuns” de baixo gabarito se engana severamente. Afinal, 99,99% do que ocorre como “mediunidade” é fraude. Isso não é exagero. As mensagens são pastiches do que haviam sido os finados quando eram vivos e sempre apresentam algum problema sério.
Mesmo o famoso “médium” de Uberaba não foi mais do que um farsante que foi pioneiro na literatura fake no Brasil. Dito “lápis de Deus”, ele poderia ser conhecido como “padroeiro das fake news”, tamanhos os “fakes do além-túmulo” que criou e fez o jornalista Leo Gilson Ribeiro dizer jocosamente “O espírito sobe, o talento desce”.
Nomes como Olavo Bilac, Humberto de Campos, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Cornélio Pires e até Bocage ou mesmo Auta de Souza “perderam”seus estilos para “pensar igual” ao “médium”, concordando com as ideias do século XII que o mistificador mineiro defendeu em mais de quatro centenas de livros, que já nasceram mofados no lançamento.
Há dois truques para se produzir uma pretensa psicografia. Um é a leitura quente, com base em fontes escritas ou audiovisuais ou depoimentos, para colher informações explícitas sobre pessoas mortas. Vai desde documentos até material de imprensa. Outro é a leitura fria, que se baseia em sutilezas como dados subliminares observados nos depoimentos de familiares e amigos de um morto, seja pela menção enfática de detalhes ou pelas reações de depoentes quanto a aspectos particulares do falecido.
A partir dessas informações, se produzem mensagens tidas como “psicográficas” ou “mediúnicas”, que seguem um padrão textual determinado e segue também a finalidade de fazer um merchandising religioso, dando a crer que o mundo espiritual limita-se a ser uma gigantesca igreja. Sempre há algum aspecto que entra em choque com o que um morto havia sido em vida. Só o entorpecimento emocional dos ingênuos faz com que essas mensagens fraudulentas sejam aceitas e apoiadas.
Sim, a chamada paranormalidade é apenas uma fraude feita para dominar e explorar as fraquezas emocionais das pessoas. E isso não é caridade, muito pelo extremo contrário. É uma crueldade das mais condenáveis, na qual se aproveita do luto humano para forjar falsas imagens que carregam os nomes dos mortos para promover a idolatria religiosa a certos farsantes.
O mais triste disso tudo é que essa mentira é compartilhada por muitos e se vende, pasmem, como se fossem “lindas mensagens”, “grandes lições de vida” e até “sabedoria”. Vemos a que nível chegou o nosso país com tanta estupidez. E ainda tem gente sonhando em ver o Brasil no Primeiro Mundo.

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