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A POLÊMICA DO AZUL-ROSA E O SUPÉRFLUO NAS "CAUSAS IDENTITÁRIAS"


Na semana passada, uma polêmica foi supervalorizada nas redes sociais, por conta de uma declaração da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

A ministra do governo Jair Bolsonaro, como é de praxe no ultraconservadorismo da equipe, disse que meninos deveriam vestir azul e meninas, cor de rosa.

A distinção de caráter sexista causou repercussão negativa nas redes sociais, com reflexo até na mídia hegemônica.

O caso estourou no WhatsApp, no Twitter, no Facebook e outros espaços, pondo em destaque o nome da ministra. "Damares", por exemplo, foi uma das palavras que estiveram nos trend topics do Twitter.

Mas o episódio, se causou uma série de lacrações e manifestos, causou também um sério problema.

Não haveria como "guevarizá-lo", porque houve a adesão da mídia hegemônica e alguns astros do conservadorismo cultural e midiático.

Luciano Huck e Angélica, Renata Lo Prete e Jorge Pontual (o jornalista, não o ator), e até um Márcio Garcia que manifestou apoio e abraçou Jair Bolsonaro.

Estes, de uma forma ou de outra, criticaram a declaração de Damares Alves.

O episódio acabou causando preocupação no círculo esquerdista, porque também se lembrou de outro problema, mais grave ainda.

É o uso das "causas identitárias" como cortina de fumaça para problemas reais cotidianos.

Essa lição foi tardiamente reconhecida, mas já era um problema antigo desde que a intelectualidade "bacana" intensificou seu proselitismo, em 2005.

2005 é um "marco" do início da retomada conservadora do Brasil, em etapas graduais.

As FMs eram invadidas por um "sem-número" de rádios noticiosas, radicalizando a AeMização que era uma forma de barões da mídia manipularem a opinião pública num meio marcado por emissoras musicais.

A grande imprensa começava a buscar protagonismo também na TV e Internet, no seu paulatino proselitismo neocon que teria efeitos mais claros uma década depois.

E veio a intelectualidade "bacana", de jornalistas, acadêmicos e cineastas que atuaram ou eram cortejados pela mídia venal. A reboque, tinha até funqueiros atuando em nome dos interesses do baronato midiático, de maneira bem enrustida.

Estes faziam o trabalho free lancer para a mídia venal, sem necessariamente ter o vínculo profissional formal.

Pelo contrário, vários deles foram para a trincheira adversária, chegando a colaborar para a mídia de esquerda, com bajulações a Lula, Dilma Rousseff e o que mais houver de progressista. Até Jessé Souza entrou na lista dos bajulados, com o passar do tempo.

Daí que eles empurraram o conservadorismo do brega-popularesco, tendo o "funk" e a dupla Zezé di Camargo & Luciano como carros-chefes assim como Waldick Soriano, que chegou a ter ocultado seu passado reacionário, reembalado como um falso progressista.

A desculpa era sempre a associação aparente com as classes populares. Mas plateia lotada não faz ídolo algum soar progressista.

Valorizavam a tal "cultura transbrasileira" mais pela plateia do que pelo palco. A provocatividade era supervalorizada, a níveis panfletários, levando o ato de causar polêmica como um fim em si mesmo.

E isso ficou muito chato.

Se supervalorizou a presença de negros, índios, da comunidade LGBTT, como se isso fosse garantir o caráter revolucionário de quem está no palco.

Havia ainda outros problemas: transformar o "mau gosto" numa pretensa causa libertária e criar uma visão apologista da pobreza, que acaba defendendo a pobreza em si e não o povo pobre.

E isso acrescido de uma abordagem economicista de emancipação social, com os intelectuais "mais legais do Brasil" (que prometiam transformar o jabaculê de hoje no folclore de amanhã) definindo a emancipação social dos pobres pelo paternalismo da classe média e pelo suporte financeiro.

A partir daí, veio a visão de que o pobre se "emanciparia" com mais dinheiro, mas manteria toda a simbologia cultural da pobreza e da inferioridade social, apenas premiada pela aceitação da classe média (o tal "combate ao preconceito").

Esse "combate ao preconceito" que era mais preconceituoso ainda evocava a "pobreza linda".

Tudo era "lindo": prostituição, pirataria, mercado informal, venda de produtos contrabandeados, pedofilia (que certos "intelectuais de esquerda" pró-brega definiam como "iniciação sexual das adolescentes das periferias) e até o analfabetismo.

Até a objetificação sexual da mulher, quando envolvendo ídolos "populares demais", era tratado como um pretenso empoderamento feminista.

Mendigos embriagados rebolando e balbuciando eram vistos como "conhecedores intuitivos da cultura pop contemporânea". Pessoas banguelas aparecendo em programas de auditório eram vistos como a "vanguarda provocativa" da "rebelião do povo pobre".

Tudo isso vendido como "combate ao preconceito" por intelectuais porraloucas que eram aplaudidos até quando tossiam.

Vieram os maledicentes do "bom gosto" que só eles consumiram. E de que adianta bajular Lula, Dilma e até Jessé Souza se esculhambavam Chico Buarque, o "coronel da Fazenda Modelo"?

Que seu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, conforme Jessé afirmou, simboliza o pensamento conservador da comunidade acadêmica, isso é verdade. Mas o filho não necessariamente compartilha ou deve pagar pelos pecados do pai.

Com o tempo, boa parte do "popular demais", da "provocativa cultura transbrasileira", se bolsonarizou, fazendo as esquerdas médias caírem da cama.

E as "causas identitárias" que serviam de pano de fundo desse processo festivo tiveram que ser revistas.

Afinal, também existem negros, índios, LGBTT e pautas como a liberação do uso recreativo de maconha em ambientes como o Instituto Millenium, do qual é membro o "superministro" de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes.

A maioria esmagadora dos sociopatas que viraram bolsomínions ouve "funk", "sertanejo", "pagode romântico", "pagodão baiano" e coisa e tal.

Por isso, toda a questão da supervalorização e deturpação das "causas identitárias" resultou no cenário político em que vivemos.

Essa falácia do "combate ao preconceito" pela bregalização, que já tratava o povo pobre de forma preconceituosa, nunca me convenceu. Mas eu não tinha visibilidade para ser uma voz que contrapusesse à dos intelectuais "bacanas" e seu discurso festivo.

Essa intelligentzia porralouca, que se achava que iria transformar o Brasil numa democracia progressista, acabou causando o contrário.

Afinal, a mesma mídia que promoveu a bregalização do país apoiou com gosto a campanha de Jair Bolsonaro.

E aí, temos o resultado.

O problema não está nas "causas identitárias", bastante necessitadas de espaços sociais de expressão e liberdade. O problema foi a forma supérflua e espetacularizada com que foram trabalhadas.

Além disso, elas foram supervalorizadas em detrimento de causas como melhoria de qualidade de vida e aperfeiçoamento dos direitos dos trabalhadores.

A intelectualidade "bacana" fez sua parte. Mais preocupada com o "funk" (no fundo um subproduto da mídia venal), permitiu que ignorássemos os problemas trabalhistas e, quando eles deveriam ser mais apoiados, eles se tornaram mais vulneráveis.

Os funqueiros, que nunca apoiaram as esquerdas de verdade e só as usurparam visando uma boquinha na Lei Rouanet, continuam ricos e livres e soltos.

Enquanto isso, os trabalhadores têm seus direitos ameaçados. A qualidade de vida tende a cair ainda mais, não bastassem os estragos do governo Michel Temer.

E é isso que está acontecendo depois de superestimar e espetacularizar as "causas identitárias", desvirtuando as boas reivindicações dos grupos sociais para uma palhaçada que só fez as classes conservadoras rirem e se divertirem.

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