
O sonho bolsonarista parecia não ter limites.
Desde os tempos da redemocratização, não se cogitava que um candidato com perfil de extrema-direita fosse, mesmo de maneira artificial, ficar a poucos passos do Palácio do Planalto.
Claro que teve muito apelo de mídia, muito assédio moral nas redes sociais, muito dinheiro pago para os institutos de pesquisa sempre mostrarem o "mito" em alta cotação.
Pensou-se até que o atentado contra Jair Bolsonaro iria fazê-lo ser tratado como um "Nobel da Paz" e "já ir" colocando o "mito" em primeiro lugar no primeiro turno.
Num Brasil onde um fato como uma advogada negra ser algemada só porque queria prosseguir com um trabalho jurídico.
Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Valéria dos Santos, durante os últimos minutos de uma audiência, pediu à juíza que tivesse acesso à contestação judicial.
A juíza negou o requerimento, e Valéria se recusou a sair do Juizado Especial da cidade. A juíza leiga mandou prender Valéria e os policiais então algemaram a advogada, que ainda foi jogada no chão.
Foi um ato de vergonhosa e revoltante humilhação. Valéria apenas cumpriu seu trabalho de advogada e queria ver a contestação do processo jurídico.
A advogada negra foi vítima de um abuso de poder, em ocorrência desumana ocorrida no último dia 10 de setembro.
Valéria queria prosseguir com a audiência, cumprindo seu direito legal de ver a contestação do processo, exercendo corretamente seu trabalho. Mas a juíza quis dar a audiência como encerrada, mandou Valéria se retirar da sala e, contrariada, ainda prendeu a advogada negra.
A Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio de Janeiro, achou o episódio "bizarro" e manifestou repúdio à decisão da juíza
A Justiça que prevalece no Brasil é um meio em que as elites jurídicas minimizam comentários ofensivos como os de Jair Bolsonaro, que teve o caminho livre pelo Tribunal Superior Eleitoral.
O sonho bolsonarista que seduziu até o chamado "pobre de direita", virou um pesadelo gradual depois do atentado.
Com Jair Bolsonaro sofrendo uma segunda e delicada cirurgia, na virada de ontem para hoje, o seu vice na chapa, general Antônio Hamilton Mourão, passou a querer ter mais destaque que o titular.
É uma tentativa torta de consertar a inversão de posições: um general vice de um capitão.
Mas esse conserto ocorre da mesma forma torta que foi formada a posição invertida de hierarquia militar.
O general Mourão quer estar no lugar do "mito" nos debates e entrevistas com presidenciáveis. Pediu consulta ao TSE para ver se sua proposta é atendida.
Isso é bem mais surreal do que quando Lula era candidato oficial, mesmo preso, e Fernando Haddad seu suplente. E hoje a chapa do PT e PC do B (que tem Manuela d'Ávila como vice de Haddad) se revela uma grande esperança para nossas eleições.
Mas, enquanto isso, o bolsonarismo se transforma em pesadelo nas mãos do general Mourão, que veio com mais uma "pérola" de chumbo.
Ele declarou que a Constituição Federal não precisa ser eleita por parlamentares eleitos pelo povo, mas por um "conselho de notáveis" nomeado pelo presidente.
Segundo Mourão, a Constituição deveria ter "somente princípios e valores", o que indica um conteúdo meramente moralista.
Essa posição do general, que seria aplicada na hipótese de Jair Bolsonaro presidir o Brasil, é uma amostra do fim de um sonho montado pela mídia para vender o "mito" para o grande público.
A "onda Bolsonaro" ganhou até a adesão de Zezé di Camargo, que a intelectualidade "bacana", num passado recente, queria vender como o "suprassumo do esquerdismo cultural".
Tem gente que acredita que, com Jair Bolsonaro eleito, vai toda a juventude que o apoiou viver de fazer selfies e publicar postagens no Instagram.
Mas Jair Bolsonaro não é Papai Noel e, além disso, o vice Mourão pretende ser, nas ocasiões em que for presidente em exercício, pegar pesado no poder.
O governo Bolsonaro sinalizou que vai manter o legado do impopular Michel Temer e vai estabelecer retrocessos sociais e políticos ainda maiores.
Espera-se que, com episódios desse tipo, e não indo adiante o jabaculê de Paulo Guedes e o risco de fraudes nas urnas eleitorais (que poderão computar os votos nulos e brancos para o número 17 presidencial), o eleitor possa realmente cair na real.
Espera-se que o eleitorado não vote com raiva e por impulso. Pode botar tudo a perder, por causa da catarse momentânea.
Comentários
Postar um comentário