O portal de rock Whiplash enumerou dez bandas que poderiam representar a renovação do Rock Brasil, hoje em momento de crise a ponto de bandas como Paralamas do Sucesso, Titãs e Barão Vermelho, que durante anos nos brindou com canções novas, fazerem revival de suas carreiras.
Bandas boas de rock brasileiro existem. A cultura rock respira fora do esquemão ou mesmo das redes sociais. Mas o grande público foi entregue à supremacia da música brega-popularesca, que em vez de representar, como sonhava o “filho da Folha” Pedro Alexandre Sanches, a “reforma agrária na MPB”, virou um coronelismo musical dos mais perversos. Se um cantor do Clube da Esquina quiser tocar em Goiás, por exemplo, tem que cantar com o ídolo breganejo de plantão.
No entanto, desde os anos 1990 o radialismo rock, que deveria ser uma bússola para a formação cultural de quem curte e faz rock, decaíram de vez. A programação se reduziu a uma fórmula que, na época, poderia ser conhecida como “Jovem Pan com guitarras”, mas hoje vamos chamar de “Rádio Disney com jaqueta de couro”.
Com isso, a divulgação do rock caiu em qualidade e o espaço se reduziu ao hit-parade. Músicas de trabalho, grandes sucessos e só. Se não tiver clipe na MTV - hoje a referência é o VeVo do YouTube - , não rola. Os locutores da grade diária eram “sobra” do excesso de demanda das rádios pop, e o estilo era um horror. Locutor anunciando Iron Maiden e Soundgarden como se fossem os Backstreet Boys.
O preço saiu caro. Rádios comerciais “de rock” que, apesar de serem badaladas no mercado e na grande mídia, não oferecem sequer o básico da cultura rock - o que faz o gosto do jovem médio se reduzir a mediocridades como System of a Down, Guns N'Roses, Charlie Brown Jr. e Raimundos - , acabaram perdendo a qualidade que hoje são ouvidas somente por adolescentes birrentos e tiozões tipo aqueles que aparecem muito lanchando em food trucks. Roqueiros de verdade não ouvem mais rádio há uns 30 anos.
É claro que muita coisa mudou e hoje as redes sociais suprem o que o rádio deixou de suprir. O YouTube, hoje, derruba muitas “rádios rock” em oferecer conteúdo musical. Mas o maior dano é a função de agregação social que a antiga Fluminense FM fazia nos anos 1980 e que ficou insuperável até hoje.
No lugar tivemos uma piora, pois o que se convencionou em definir como “rádios rock” nos anos 1990 e 2000 gerou produtores e ouvintes que se tornaram violentos e desrespeitosos, além de terrivelmente esquentadinhos. E duas rádios se destacaram pela canastrice eletrônica, a 89 FM, em São Paulo, e a Rádio Cidade, no Rio de Janeiro.
As duas rádios se projetaram, a partir de 1995, pelo formato que então era definido como “Jovem Pan com guitarras”, baseado na então emergente rede Jovem Pan FM (na época era a Jovem Pan 2). A programação era igual entre a JP e as “rádios rock”, tinha programas de humor, esquetes, os hits do momento etc.
Jovem Pan e “rádios rock” tocavam o mesmo feijão com arroz pop: Skank, Cidade Negra, Alanis Morissette, Lenny Kravitz, Des’Ree, Andru McDonald e, sobretudo, Mamonas Assassinas. A diferença estava nas guarnições. A Jovem Pan vinha com Britney Spears, Backstreet Boys, Double You e La Bouche. A 89 e a Cidade vonham com Guns N'Roses, Metallica, Green Day e Pearl Jam.
Até o quadro de locutores não só compartilhava o mesmo estilo, linguagem e mentalidade como eles eram de uma mesma turma. Ou seja, locutores de rádios pop eram da mesma “gangue” das ditas “rádios rock”. Eu vi isso até em Salvador, quando locutores da dita rádio rock” 96 FM eram da mesma turma dos da Piatã FM, que lidav com axé-music.
Em São Paulo, vimos o Zé Luís da 89 FM ter um quadro no Domingo Legal de Celso Portiolli, que veio da Jovem Pan. Os radialistas da Jovem Pan Rio são do mesmo grupo social da Rádio Cidade “roqueira”, o que significa que Marcelo Arar (JP Rio), Rhoodes Dantas e Demmy Morales (Cidade) vieram de uma turma só.
Daí que aquelas rádios especializadas em rock desapareceram. Quando muito, programas esparsos mal conseguem cobrir em duas horas semanais 10% do que a Fluminense FM tocava em 168 horas a cada semana. E a cena do Rock Brasil acabou se reduzindo a bandas "engraçadinhas", a grupos com engajamento confuso como Charlie Brown Jr. e a sub-clones do Skank imitando o Santana dos primórdios.
Na verdade, Jovem Pan e 89/Cidade são farofa do mesmo prato, seguindo a mesma lógica de radialismo pop definida pelos empresários da grande mídia. São apenas embalagens diferentes de um mesmo formato. E o rock é usado apenas como uma fachada imponente de emissoras medíocres das quais só se salvam uns dois ou três programas no fim de noite.
E aí todo o lobby em torno da 89 FM, a líder do processo, fez mais contra a cultura rock do que a seu favor. Propriedade de uma família apoiadora da ditadura militar e ligada originalmente ao malufismo, a 89 FM foi blindada pelos grupos Abril e Folha e seu crescimento se deu pelos apelos de um programa humorístico claramente concorrente do Pânico da Pan. Os donos da 89 também apoiaram Collor e FHC e foram beneficiados por isso.
Enquanto roqueiros na boa-fé endeusavam a 89 e esperavam em vão que a fase “anti-rádio” - um arremedo morno do formato da Fluminense FM, adotado entre 1985 e 1987 - voltasse ao longo dos tempos, algo contrário à essência do rock se deu, a formação de um império empresarial conservador.
Que moral a 89 FM teve para tocar músicas como “Pátria Amada” dos Inocentes, “Proteção” da Plebe Rude e “Que País é Esse?”, da Legião Urbana, ou o repertório de Rage Against the Machine, se a rádio se tornou a semente do poderoso grupo empresarial, o Grupo Camargo de Comunicação, cujo dono João Ernesto Camargo é hoje o mais poderoso chefão da elite da Faria Lima?
Que moral tem para representar a cultura rock uma família empresarial que apoiou a ditadura militar, os governos Collor e FHC, a fortuna abusiva dos super-ricos e a escala 6x1 no trabalho? Nem a máquina de patrocinar concertos de rock ou o jornalismo tipo “revista Capricho querendo parecer Rock Brigade” compensam.
A intervenção da Faria Lima na cultura rock travou sua evolução em todos os sentidos e a fez escrava do hit-parade. Daí a falta de renovação na cultura rock com rádios sem especialização digna para o gênero e cujas rádios são controladas por gente que simboliza o oposto do que é a verdadeira causa do rock.
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