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PÉROLAS DO DISCURSO INTELECTUAL "CONTRA O PRECONCEITO"

INTELECTUAIS "BACANAS" ACHAM QUE MENDIGO BÊBADO CANTANDO BOBAGENS É AMOSTRA DE "SABEDORIA POP".

O discurso do "combate ao preconceito" foi uma onda vergonhosa que tomou conta dos chamados formadores de opinião no Brasil. Iniciada pela mídia corporativa, principalmente Rede Globo e Folha de São Paulo, a campanha foi endossada por quem não devia, no caso a mídia esquerdista, que prometia um contraponto às narrativas da grande mídia empresarial, mas acabou repetindo as agendas culturais e as abordagens dos jornalões e das tevezonas.

Embora a campanha pelo "fim do preconceito" contra a bregalização cultural adotasse um tom que era supostamente objetivo e politicamente correto, atribuindo, em tese, a mediocrização cultural à "livre expressão do povo pobre", sabe-se, através deste blogue, que seu objetivo, além de desqualificar as críticas crescentes aos fenômenos popularescos nos anos 2000, era ampliar mercados desse tipo de cultura musical e comportamental, sob o apoio de empresas como fabricantes de cerveja, celulares e automóveis.

O discurso procurava parecer "imparcial" e não tardou de buscar um verniz mais sofisticado de retórica, lembrando muito as técnicas dos antigos "institutos" IPES-IBAD na sua campanha para depreciar "cientificamente" o governo João Goulart. Esse verniz se dava em grandes reportagens, monografias e filmes documentários, visando gourmetizar tendências e ídolos da música popularesca.

A ideia do "combate ao preconceito" era, portanto, evitar que debates culturais como o do antigo Centro de Cultura Popular da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE) voltem à tona, derrubando um poderoso lobby empresarial que sustenta a dita "cultura do povo pobre". Da mesma forma, a campanha visava também combater não o preconceito, mas a volta do engajamento social, cultural e político da MPB nos anos 1960.

Mas a promessa de um discurso "mais objetivo e imparcial" ao abordar fenômenos e ídolos popularescos, por mais que garantisse uma leitura próxima das abordagens etnográficas, lembrando o caso do "funk", cujos ideólogos chegaram a imitar o método da Teoria das Mentalidades (corrente das Ciências Sociais fundada pelo francês Marc Bloch) e Novo Jornalismo (técnica de jornalismo com o modus operandi da narrativa literária, fundada pelo estadunidense Tom Wolfe), verdadeiras barbaridades se viam em vários pontos de vista, preconceitos vindos de gente que se dizia "desprovida de todo preconceito".

Não se trata somente de atitudes como o antropólogo e historiador baiano Milton Moura, que escreveu uma matéria porralouca intitulada "Esses Pagodes Impertinentes..." - o que inspirou, num contraponto irônico, o título de meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... - , que entre algumas incoerências, afirmava que a pressa do pagodão baiano "aumentava a criatividade".

Há muito mais, mostrando o quanto a intelectualidade "bacana", formada pela burguesia ilustrada, se encanou em julgar o que deveria ser o povo pobre e sua cultura, ocultando a realidade dura de que a chamada "cultura popular demais", diferente dos antigos movimentos de cultura popular autêntica, era administrada e controlada por ricas oligarquias empresariais e difundida pela mídia hegemônica de âmbito nacional e regional.

Aqui vemos algumas pérolas dos preconceitos que a intelectualidade "bacana" difundiu a respeito da "cultura popular demais" (brega-popularesco) e que mais depreciava o povo pobre do que o exaltava. E demonstra que tudo o que esse discurso fez, ao invadir a imprensa de esquerda, foi derrubar uma revista (Caros Amigos) e abrir espaço para a réplica reacionária que deu no golpe político de 2016.

Vejamos alguns exemplos:

"A favela é coisa linda de se ver".

"O povo favelado vive feliz nesses ambientes, só a violência da polícia e do crime organizado impede que essa felicidade seja plena".

"Mendigos embriagados dançando e cantando coisas sem sentido são exemplos de que as nossas periferias também possuem sabedoria pop".

"O alcoolismo é o amigo consolador das desilusões amorosas, ao som do cancioneiro brega mais romântico".

"Prostituição é um ato de resistência e empoderamento feminino das comunidades pobres".

"A pobreza não é um problema, é uma identidade, um estado de espírito".

"A simples inclusão de antenas parabólicas, saneamento básico e energia elétrica transformam as favelas em ambientes melhores para se viver". (A tese, bastante discutível, é insuficiente para superar esses ambientes degradados, mal construídos e de acessos difíceis para quem sofre limitações físicas) 

"Meninas menores transando em bailes funk são exemplo de como as garotas pobres exercem aula prática de educação sexual, sem depender de livros teóricos, principalmente estrangeiros, para isso" .

"Vender produtos piratas e contrabandeados é um ato revolucionário e um meio criativo interessante de geração de renda".

"A sexualização do corpo feminino é a manifestação do mais puro feminismo nas periferias, com a independência feminina manifesta sem a figura simbólica de um namorado ou marido" .

"A música sertaneja (breganejo) propõe uma reforma agrária na MPB". (A tese menospreza o fato de que esse tipo de música, assim como seus derivados como a sofrência e o feminejo, são sustentados por grandes fazendeiros)

"A música brega representa a cultura de vanguarda" ( Dado extremamente mentiroso, se considerarmos que o brega se inspira em modismos musicais estrangeiros que se tornaram obsoletos nos países de origem, o que define esse cancioneiro como retaguarda e não o contrário)

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