TURISTA CONTEMPLA A ROCINHA NO MIRANTE "PORTA DO CÉU", LOCALIZADO NA REFERIDA FAVELA.
A burguesia insiste em transformar o Brasil em um paraíso. Para ela, não há música comercial, os sucessos popularescos seriam “o folclore do futuro” que refletem a “vida e as emoções das pessoas pobres”. Overdose de informação virou sinônimo de “liberdade de expressão”, “prestação de serviço" e “defesa da cidadania”. Positividade tóxica virou “espiritualidade sublime”, no caso religioso, ou “alegria verdadeira”, no caso da festividade mercantil da axé-music e derivados.
Até a “sociedade do espetáculo”, tão analisada por intelectuais renomados como Guy Debord e Jean Baudrillard, mal consegue ser atribuída somente a um mofado colunismo social da burguesia ortodoxa, a única que pode ser chamada pelo nome, num país em que futuros grandes intelectuais, do nível de um Umberto Eco, são boicotados pelos cursos de pós-graduação, dominados por acadêmicos que estão mais para juízes de valor do que para pensadores críticos da realidade.
Neste país estranho, tivemos a farsa do “combate ao preconceito”, esse IPES-IBAD com chapéu de frutas na cabeça, que espetaculariza a pobreza sem que se assuma essa manobra. Para todo efeito, nossa burguesia ilustrada, descolada e de chinelos Havaianas, é “boazinha, responsável, progressista e de esquerda”.
Daí a aberração surreal chamada “turismo de comunidade”, um safári humano enrustido que trata as favelas como “paisagens de consumo” para a burguesia politicamente correta. A mídia de esquerda mordeu a isca dessa visão, que mais parece digna de um editor de Ilustrada da Folha de São Paulo ou de um produtor da Rede Globo, e comemorou o “sucesso” da empreitada que ‘atrai turistas do Brasil e do mundo”.
O Diário do Centro do Mundo mostrou uma matéria sobre uma laje que serve de “mirante” para os turistas que visitam a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, considerada a maior do Brasil. Escreve o texto do DCM, inspirado em reportagem do portal UOL, da família Frias:
“O turismo na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, ganhou novos contornos com o sucesso da “Porta do Céu”, uma laje que se tornou um ponto turístico popular entre os visitantes. Beto Soares, guia e empreendedor responsável pela iniciativa, começou a oferecer passeios na laje após gravar um vídeo com turistas de Recife, apresentando seu trabalho. O sucesso foi imediato, e hoje, ele recebe turistas de todo o Brasil e do exterior.
“Nunca passou pela minha cabeça que viraria esse sucesso todo”, disse Beto em entrevista ao UOL, que agora oferece um serviço completo de audiovisual, com fotos, vídeos e até drone para registrar a experiência. O passeio tem um custo que varia de R$ 250 a R$ 800, dependendo do tipo de serviço solicitado pelo turista”.
O projeto chega a ser rentável e é claramente dedicado à contemplação burguesa das favelas, ambientes degradados, com casas mal construídas e sem acessibilidade. Essa iniciativa chega ao ponto de ser descrita sob a perspectiva hipócrita de achar que “como é lindo ser pobre”. Seus defensores tentam dizer que o turismo serve para "combater a imagem preconceituosa do povo das favelas".
Essa é a burguesia ilustrada, neoliberal e “cordialmente” elitista, com as esquerdas beijando a mão e assinando embaixo. Depois nossos esquerdistas vão falar em Carolina Maria de Jesus, em Josué de Castro, em Milton Santos e Paulo Freire. Assim não dá para levar a sério uma classe que se diz amigado pobre mas se deixa levar por esses safáris humanos.
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