"DO YOU WANNA DANCE?" VERSÃO COM RAMONES - Nada a ver com "A meia-luz ao som de Johnny Rivers".
Este ano fazem 50 anos do primeiro disco dos Ramones e vi no Instagram um vídeo de um filme de comédia estudantil, em que a banda novaiorquina, em sua saudosa formação original, interpretava a música “Do You Wanna Dance?”, que no Brasil tem uma trajetória surreal.
Aqui a canção é uma balada - música lenta, gente, não o jargão da Faria Lima para definir festas noturnas - cantada por um crooner juvenil lançado nos anos 1960, Johnny Rivers, marcado por gravar covers. A versão de Johnny Rivers para “Do You Wanna Dance?” Fez sucesso estrondoso no Brasil a ponto de muitos pensarem que foi criação original do cantor.
Mas não é. E nem foi a versão mais destacada lá fora, onde Rivers era mais conhecido por outro cover, “Secret Agent Man”, de 1963. A superestimada versão, na verdade, é composição original do cantor Bobby Freeman, que interpretou a canção em 1958 e tinha como título "Do You Want to Dance?".
No exterior, a música fez mais sucesso na versão dos Beach Boys - que, apesar de sua magnífica importância para a música (que afetou até os Beatles), mal consegue ser conhecida pelo brasileiro médio através do sucesso “Barbara Ann” - , lançada em 1964, e que se tornou a marca maior da música.
Mas aqui no Brasil, pátria do viralatismo enrustido - tão enrustido que só se admite como "culturalismo vira-lata" o "culturalismo sem cultura" do reacionarismo político ou, quando muito, da sociopatia manifesta no ramo do entretenimento - , "Do You Wanna Dance?" só existe na versão "autoral" (?!?!) de Johnny Rivers. Aliás, essa "histórica" versão nem é lembrada lá fora.
E isso vem de uma "cultura pop" ditada por produtores de TV, revistas de fofocas, editores musicais que representam gravações estrangeiras e executivos de rádios e gravadoras. Gente que dita a "boa cultura pop" que o brasileiro médio consome no seu dia a dia, há mais de 50 anos.
Um grande lobby que gourmetiza a música brega do passado e que tentou relançar o comercialíssimo Michael Sullivan como se fosse um artista indie (?!?!?!?!). É esse mercado que também supervaloriza, até as últimas consequências, outro Michael, o mediano Michael Jackson, relembrado pelo filme Michael, em exibição nos cinemas.
Daí que curtir música estrangeira no Brasil é um fenômeno bem brasileiro, da maneira como a música estrangeira é difundida, pelo filtro desse poderoso lobby do showbiz à brasileira que indica qual a canção internacional que os brasileiros devem ouvir. E aí vemos o quanto o provincianismo dessa "indústria cultural" que temos age para manipular corações e mentes das pessoas em nosso país.
Só mesmo um idiota para achar que até os Ramones - aqui conhecido pelos roqueiros médios apenas por "Pet Sematary" - dançaram "à meia-luz ao som de Johnny Rivers". E só mesmo num país culturalmente devastado como o Brasil.
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