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A REVISTA VEJA VIROU O NOVO "REFÚGIO" DE UM OBSCURANTISTA RELIGIOSO?

 

A mídia venal tornou-se protetora de um obscurantista religioso surgido como um pretenso, pitoresco e bisonho paranormal e que depois a ditadura militar, sob o patrocínio da Faria Lima em parceria com os coronéis latifundiários do Triângulo Mineiro, o promoveu como um suposto símbolo de "amor e dedicação ao próximo".

Os barões da mídia investiram numa narrativa dócil, criando no charlatão religioso um personagem "agradável", um "filantropo de novela", enganando muitas e muitas pessoas, ludibriando os mais diversos segmentos sociais, inclusive aqueles que são relacionados a causas reprovadas por esse ídolo religioso, o tal "médium da peruca" que transformou a Doutrina Espírita em um chiqueiro. E haja Síndrome de Estocolmo para que LGBTQIA+, roqueiros, ateus e esquerdistas deem consideração a um sujeito que reprova esses segmentos sociais!

Pois a blindagem a esse obscurantista religioso, de ideias medievais e um dos "vendilhões da esperança" mais famosos de todo o Brasil, é um fenômeno preocupante. Para quem não sabe, "vendilhão da esperança" é aquele religioso que defende que os oprimidos aceitem suas desgraças sob a desculpa de que estarão encurtando o caminho para as "bênçãos infinitas de Deus".

A blindagem envolveu, há cerca de 50 anos, a ditadura militar, os empresários paulistas, a mídia hegemônica e os grandes proprietários de terras, estes aos quais o "médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba serviu como inspetor sanitário, tornando-se com isso aliado do coronelismo e seu ultraconservadorismo político e sociocultural.

Para quem está desinformado, o referido "médium espírita" formou, com Edir Macedo e Romildo Ribeiro Soares (R. R. Soares), estes dois neopentecostais, a Tríplice Aliança para combater a Teologia da Libertação, movimento católico que atuou como uma forte oposição ao poder ditatorial então vigente no Brasil dos anos 1970.

A blindagem midiática começou com a Rede Globo, emissora que mais apoiou a ditadura militar e por esta foi favorecida. A Globo produziu um documentário para o Globo Repórter nos moldes do que Malcolm Muggeridge, jornalista britânico e católico conservador que colaborou com a CIA, fez para glorificar a megera Madre Teresa de Calcutá, depois denunciada por maus tratos contra pessoas pobres e doentes.

A única diferença em relação à medieval freira albanesa-indiana é que o "médium" usava como principal apelo as "cartas mediúnicas", fraudes que serviam de "cortina de fumaça" para forçar o povo brasileiro a se conformar e até apoiar mortes violentas de pessoas inocentes, principalmente aquelas ocorridas nos porões da repressão militar.Não se deve subestimar os prêmios que o "médium" recebeu, em 1972, da Escola Superior de Guerra, pois isso diz muito quanto à colaboração que o religioso teve com o regime, coisa de fazer o coronel Brilhante Ustra ficar de queixo caído.

Durante anos o "médium" tornou-se um protegido das Organizações Globo, embora a blindagem tivesse sido depois compartilhada pela Band e SBT. Antes da Globo, a blindagem foi feita pela TV Tupi, dos Diários Associados, cuja dramaturga Ivani Ribeiro adaptou um livro do "médium" para criar o enredo original da novela A Viagem. 

A Tupi blindava o obscurantista religioso, apesar da revista O Cruzeiro ter tentado desmascarar o "médium" no caso Otília Diogo (do qual desconfiamos que o "médium" foi o mandante e mentor da farsa ilusionista da "Irmã Josefa", entre 1963 e 1965). O obscurantista também foi reportado pela dupla David Nasser (texto) e Jean Manzon (fotos) sob o título de "Detetive do Além", em 1944, na época em que o religioso foi desmascarado pela imprensa pelo caso Humberto de Campos, mas depois foi beneficiado pela impunidade.

Depois da Rede Globo, que blindou o religioso durante décadas - apesar do SBT do conservador Sílvio Santos ter promovido o obscurantista como "brasileiro do século" - , a Folha de São Paulo passou a blindar o "médium", depois que o seu dono Otávio Frias Filho faleceu, em 2018, aos 61 anos. 

Diz a lenda que o irmão Luís Frias passou a acolher o "médium" nas matérias de seus veículos (Folha e UOL) na esperança de receber uma "psicografia" atribuída a Otávio, elegendo o irmão como seu herdeiro natural.

O Grupo Abril também blindava o "médium", embora sua cobertura fosse pretensamente mais "isenta" e parcialmente "mais crítica", dando um verniz de "objetividade" nas narrativas, evitando acusações de cobertura chapa-branca. Um volume da revista Superinteressante dedicado ao pregador neo-medieval foi publicado nas bancas.

Ultimamente a Folha de São Paulo estava blindando o "médium" e exaltando a versão da Rede Globo da novela A Viagem (que, infelizmente, anunciou que será adaptada para o cinema), fazendo propaganda quase todo dia no portal UOL. Mas, para a "reabilitação" do "médium" não ficar visada como um recurso dos Frias e dos Marinho, a Editora Abril, hoje de propriedade de um banco de investimentos, decidiu vestir a camisa do dito "lápis de Deus".

A revista Veja, agora mais contida do que nos tempos hidrófobos das décadas de 2000 e 2010, passou a publicar matérias relacionadas a "descobertas" de um grupo de acadêmicos pseudo-cientistas da Universidade Federal de Juiz de Fora, abrigados numa linha de pesquisa relacionada à Faculdade de Medicina da instituição, o NUPES (Núcleo de Pesquisas Sobre Saúde e Espiritualidade). 

As "descobertas", feitas ao arrepio de qualquer embasamento intelectual genuíno, foram publicadas num periódico estrangeiro Explore, cujo fator de impacto, na comunidade científica, é muitíssimo baixo. Em outras palavras, o Explore não é um periódico considerado relevante e muito menos serve como referência séria para os círculos intelectuais autênticos.

Recentemente, esse núcleo "espírita" da UFJF publicou um "estudo" baseado em supostos contatos mediúnicos do obscurantista de Uberaba feitos em 1957, ainda no antigo reduto dele, Pedro Leopoldo. Supostos acertos foram atribuídos ao trabalho, apesar de haver também uma "margem de erros", dentro de um processo confuso de "garantir a objetividade".

A desculpa é que os "acertos" das ditas "mensagens mediúnicas" foram atribuídos a detalhes que, aparentemente, seriam "inacessíveis" em fontes oficiais, alegando "ineditismo" das "mensagens espirituais". 

No entanto, sabemos todavia que certos detalhes podem ser inacessíveis em certas fontes, escritas ou orais, mas outras fontes podem conter esses mesmos dados. A lógica pode deduzir, por exemplo, que dados considerados "desconhecidos" por parentes e amigos próximos possam ser de absoluto conhecimento de algum colega de trabalho mais distante do indivíduo falecido.

Em outra matéria, Veja também apontou "erros" dos trabalhos da UFJF, garantindo assim a "isenção"  tanto da cobertura jornalística quanto do trabalho acadêmico, mas dentro daquela narrativa vergonhosa de que, em relação ao "médium", não se pode definir suas obras como "verdadeiras" ou "falsas", um discurso pseudocientífico que tenta blindar o religioso através da neutralidade irresponsável.

Chegamos a sermos "convidados" a "ter o direito" de achar se as alegadas personalidades mortas "podem ou não" ser responsáveis pelas supostas psicografias. Isso é deplorável e vexaminoso, pois os mortos deixam de ser responsáveis por suas identidades, enquanto "médiuns" usam os nomes deles para fazer propaganda religiosa através dessas tendenciosas mensagens, de conteúdo farsante bastante evidente.

Dessa forma, vemos o quanto o Espiritismo brasileiro tem uma blindagem de fazer inveja aos neopentecostais. Em dado momento da História do Brasil, "espíritas" e neopentecostais estavam juntos, no meio da década de 1970, para combater a Teologia da Libertação católica, num dos últimos esforços para salvar a ditadura militar da crise política.

Se, depois disso, os chamados "kardecistas" e seitas como Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Internacional da Graça de Deus passaram a seguir caminhos aparentemente divergentes, eles continuam unidos em causas retrógradas como a condenação radical ao aborto, a culpabilização da mulher vítima de feminicídio, a permanência dos oprimidos na sua situação de miséria e em pautas como a "Escola Sem Partido" e a "cura gay". A Record está com os neopentecostais, enquanto a concorrência, incluindo a Globo (com o apoio, sobretudo, da Folha e Abril), está com os "espíritas".

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