As empresas estão construindo suas graves crises e não percebem. Vivendo o imediatismo do prestígio, da visibilidade e da busca pelo lucro fácil e rápido, as empresas cometem um erro gravíssimo ao rejeitar currículos e a contratar gente com mais visibilidade do que talento, criando riscos de decadência a médio prazo.
O escândalo do Banco Master não nasce da noite para o dia. Durante anos, o banco controlado pelo hoje presidiário Daniel Vorcaro viveu uma rotina harmoniosa de lucros abusivos, dentro de um clima de paz profissional que parecia eterno, até denúncias virem à tona gerando incidentes como os que vimos nos noticiários.
O mercado de trabalho não consegue perceber que talento vem da alma e não de uma aparência atraente. Não vem de influenciadores capazes de gesticular e falar coloquialmente, mas isso é insuficiente para assumir tarefas técnicas como as de Analista de Redes Sociais, função que, desgastada, mudou seu nome para Analista de Marketing Digital.
Não receber currículos pode soar, aos olhos dos moralistas do emprego, uma mostra de agilidade das empresas, mas na verdade representa um grande desastre, pois muitos candidatos de talento podem ser rejeitados com isso. A salvação de uma empresa em crise pode estar em algum dos currículos jogados fora.
A alternativa da “conversinha com o gerente” é louvada pelos moralistas do emprego como um meio “eficiente” de arrumar trabalho, dentro da expectativa do “quem indica”. Mas dificilmente isso dá certo e se perguntar a um funcionário onde está o gerente, o empregado se recusará a informar, quase sempre por não saber, mas às vezes porque não quer dar mole a quem poderá lhe tirar do emprego.
Imagine um sujeito desempregado recorrer a um funcionário de um supermercado para perguntar se pode falar com um gerente. O funcionário, por boa ou má-fé, pode dizer que o gerente não está disponível e, evidentemente, o desempregado à procura de trabalho não poderá dar detalhes sobre o que conversaria com o gerente, porque aí é um concorrente que tirará o espaço do funcionário em questão.
A situação está muito difícil e complicada e o mercado de trabalho demonstra um forte preconceito social nas contratações de trabalho. Mesmo com as brechas da cultura woke, como aceitar negros, travestis, índios e gente criada nas favelas, os preconceitos sociais continuam fortes e os antigos estereótipos do "candidato inseguro" continuam pesando na hora de rejeitar alguém numa entrevista de emprego.
Mesmo num contexto politicamente correto e esteticamente mais flexível, ainda se contrata visando a aparência, o prestígio e a visibilidade. As conveniências sociais - o tal "quem indica" - também continuam fortes e apenas o contexto social muda para, no entanto, renovar as velhas regras de contratação de emprego.
Só que isso é preocupante porque sabemos que as conveniências sociais podem fazer uma empresa contratar gente "de status" e ter um desempenho regular que não ameace os lucros. Mas, a longo prazo, essas empresas irão se estagnar e até entrar em crises, e aí, quando houver uma situação de dificuldade, faltará aquele sujeito que parecia "desengonçado" na entrevista de emprego, mas que era a pessoa exata para salvar a empresa.
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