Pular para o conteúdo principal

O PREÇO COBRADO PELO EMPRESARIADO PARA INVESTIR NA CULTURA ROCK

OS VERDADEIROS FÃS DO FAITH NO MORE NÃO PODEM VER A BANDA AO VIVO POR CAUSA DOS INGRESSOS CARÍSSIMOS, COMO EM TODO SHOW DE ROCK NO BRASIL.
 
Nos anos 1990 e 2000, oportunistas metidos a donos da verdade falavam que a cultura rock deveria receber investimentos empresariais, gerar renda e lucro, para viabilizar suas carreiras e sua produção musical. Muita balela foi defendida, seja pelo radialismo rock, seja pela formação de bandas de rock, que nunca passou de uma logística empresarial que muitos acreditam ser a receita de sucesso.

Já houve bandas que, antes de formar repertório, pensaram em ter um empresário. E sempre surgiram chatos,nos fóruns de Internet, falando que rock tem que gerar renda, viabilizar a economia etc. Parece um circo, não o Circo Voador dos primórdios nem o Rock’n’roll Circus, mas desses circos de hoje em dia, corretos na sua oferta de atrações, mas meramente comerciais.

Existe até consultorias de bandas de rock, lideradas por críticos musicais, que acabam comprometendo a criatividade. Você tem que ter a pegada da banda do momento, fazer um som calculado, com estrofes, refrão e solos de guitarra determinados, como receitas para o sucesso. Apesar de soar bem intencionado, tudo soa técnico e burocrático demais.

Para um país cuja cultura rock está presa no mainstream, com o culto restrito a apenas uma meia centena de bandas clássicas e ainda há a supervalorização de grupos medíocres tipo Guns N'Roses, capaz de fazer uma música melosa tipo “November Rain”, que faz Bryan Adams parecer Ozzy Osbourne, a consultoria de rock soa mais um desserviço do que uma orientação para o “sucesso garantido”.

Em primeiro lugar, a cultura rock que se tem no Brasil é considerada “velha” porque só se ouve as mesmas coisas. Se o Deep Purple e o AC/DC são tratados como one-hit wonders, com “Smoke On the Water” e “Back in Black” respectivamente, e o Queen, mesmo surgido em 1971, é tratado como se fosse o terceiro nome da invasão britânica depois dos Beatles e Rolling Stones, então a situação é de verdadeira catástrofe cultural.

Esse trabalho de consultoria, apesar de prometer “orientar”os futuros músicos de rock, na prática bane a criatividade no rock. 

Essas consultorias mostram que a mentalidade empresarial está corrompendo e minando a cultura rock no Brasil. As consultorias, mesmo que envolvam músicos experientes, eliminam a criatividade e, se tivessem sido aplicadas nos anos 1960 e 1970, 99,99% da história do rock simplesmente deixaria de existir.

Os roqueiros teriam que fazer só o mesmo repertório para eventos de food truck, parquiletes (parklets) ou restaurantes de estilo “americano” como o Madero. Nada que fosse além de “We Will Rock You”, “Hey Jude”, “Smoke On the Water”, “Have You Ever Seen the Rain?”, “Satisfaction”, “Bohemian Rapsody”, “Oh My Love” e “Proud Mary”, creditada pelos incautos como “Uouin’ At the Ribo”. Fora isso, só Mamonas, Raimundos, Outfield, Guns N'Roses e até “Whisky a Go-Go” (Roupa Nova a serviço da máquina de moer a MPB de Michael Sullivan).

O rock parece velho por conta disso: repertório limitado, desprezo criminoso a um sem-número de talentos respeitados lá fora. Kinks, Byrds e Buzzcocks? Bandas seminais desprezadas pelo roqueiro médio, não adiantando falar da importância dessas bandas porque o público brazuca não vai se interessar. Os Buzzcocks tocaram em São Paulo umas cinco vezes e ainda é visto aqui como um zero à esquerda da história do punk rock.

O empresariado não entende de rock. Daí que as “rádios rock”, desde 1989, passaram a ter o mesmo estilo que consagrou a Jovem Pan naquela época. Os caras que, nos anos 1990, fizeram no Rio de Janeiro a Rádio Cidade e a Jovem Pan Rio faziam “academia” fitness juntos e tomavam chope juntos no Baixo Gávea. Zé Luís da 89 FM (pai da cantora pop Manu Gavassi) era repórter do Domingo Legal com Celso Portiolli, o Pastor Abu do Pânico da Jovem Pan. Eu falo que a 89 e a Cidade eram “Jovem Pan com guitarras” e o pessoal acha que estou falando russo.

Com isso, a cultura rock, além de cair na mesmice, passou a movimentar um mercado de shows internacionais que explora trabalho análogo à escravidão, cobra ingressos caríssimos e oferece serviços e refeições ruins, genéricos de batata frita que mais parecem preparados de trigo como muito pouca batata, hambúrgueres com carne transgênica e cachorro-quente cheio de recheios desnecessários que tiram o sabor deste sanduíche.

E aí vemos bancos de investimentos fazendo festivais de rock dos anos 1980, empresas bancando tributos ao Rock Brasil, festinhas de food truck com shows de rock e até concertos de orquestras descontextualizando a cultura musical roqueira. Tudo cobrando caro e arrancando dos bolsos dos fãs de rock para os cofres dos ricos empresários. Não foi para isso que jovens do passado foram fazer rock no Brasil. Renato Russo não fez punk rock para tudo terminar num concerto sinfônico para a burguesia babar ovo cantando “Que País é Esse?” da boca pra fora.

E de que adianta haver uma overdose de shows internacionais no Brasil, grande parte deles de rock, se os verdadeiros fãs não têm dinheiro para comprar os ingressos com preços exorbitantes? Esses shows acabam sendo vistos pela burguesia que não gosta de rock mas se amarra num evento da moda para lacrar nas redes sociais e no antigo e ainda existente colunismo social da alta sociedade.

E o preço caro desse sustento empresarial que faz a cultura rock ser refém da Faria Lima mostrou seu exemplo com o anúncio de shows do Faith No More e do System of a Down no Maracanã, no Rio de Janeiro, em evento patrocinado pelo Banco Itaú. Os preços dos ingressos, variando entre R$ 272,50 e R$ 1.995,50, revoltaram os fãs. E olha que, destes,dois, a banda de Mike Patton é que vale a pena, já que o System of a Down é daquela geração do nu metal que mais parece techno raivoso, daí o termo “thrashno”.

Entre os internautas indignados, um fez uma comparação interessante, dizendo que “ingresso virou eletrodoméstico”. O pessoal não está aguentando sacrificar suas suadas finanças para pagar ingressos tão onerosos.

Do jeito que está atualmente, cultura rock no Brasil virou artigo de luxo e quem pode consumir rock são os riquinhos que nem estão aí para a música, até porque só ouvem os hits de sempre. Só estão envolvidos com rock só para se promoverem como falsos rebeldes. Com esse desserviço cultural, a música brega-popularesca tornou-se o canal de catarse para a juventude brasileira.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

APRESSADO COME CRU

QUERER QUE O BRASIL SEJA DESENVOLVIDO AGORA É COMO OFERECER CARNE DE SEGUNDA CRUA E DIZER QUE É UMA PICANHA BEM PASSADA. O Brasil não tem condições de ser um país desenvolvido. Ainda vivemos sob a hegemonia de uma ordem social que tomou o poder em 1964 e se consolidou durante o “milagre brasileiro”. Querer desenvolver o Brasil seria romper de forma brusca com muitos valores vigentes na sociedade, o que irritaria muita gente. Em uma entrevista recente a dois canais, Não Inviabilize e As Cunhãs, Lula fez promessas de que o Brasil atingiria, nim possível quarto mandato, "alto nível de desenvolvimento: "Isso me leva a pensar o que fazer num quarto mandato. Eu sou candidato a presidente da República porque acho que temos que dar um salto de qualidade no Brasil. Quero levar o Brasil ao padrão dos países altamente desenvolvidos. E começa pela educação. Não há exemplo no mundo de qualquer país que tenha se desenvolvido sem antes investir na educação. Investir muito na engenharia, em ...

“FARMAR A AURA” É HOJE O QUE A GÍRIA “BALADA” FOI NOS ANOS 1990-2000

O jornalismo de escritório, fechado para o mundo e de costas para os fatos, ainda insiste na palavra “balada”, como de vez em quando ocorre no noticiário “sério”, pelo qual não se poderia usar uma gíria, mas ela é usada de forma abusiva, comprometendo a boa escrita jornalística. Comparo isso com a nova moda de “farmar a aura”, um processo de idiotização cultural num contexto em que o que era imbecil ou medíocre há trinta anos hoje é considerado “genial”. Fala-se que o “sertanejo” de hoje só fala de “encher a cara”, mas os canastrões promovidos a “gênios” Chitãozinho & Xororó tiveram um sucesso chamado “Cerveja”. A onda de “farmar a aura”, antes de mais nada, é composta de rituais estranhos de rodas de jovens que se competem abanando as mãos, fazendo gestos inusitados ou qualquer coisa que possa chamar a atenção dos amigos. Algo tolo e inócuo, mas que a geração Z brasileira está adotando junto a um vocabulário inspirado em jogos de Minecraft, em sucessos do trap e em reality shows ...

POR QUE UM FEMINICIDA TENDE A MORRER MAIS CEDO QUE UM HOMEM COMUM?

A tragédia pessoal de um feminicida não ocorre porque supostamente nós desejamos ou não que isso aconteça. Queiram ou não queiram, essa tragédia vem da própria personalidade tóxica do feminicida, que não tinha uma personalidade zen quando cometeu o crime e nem vira um primor de longevidade tempos depois. O próprio feminicida constrói sua morte que de qualquer maneira reduz seu tempo de vida. Antes de cometer o crime, ele desenvolve um sentimento de ódio contra sua vítima, quase sempre uma esposa ou namorada cuja relação terminou ou está para terminar. Esse ódio lhe causa mal estar e isso mina seu organismo e, não obstante, lhe tira o sono, prejudicando seu rendimento físico. Sua consciência, evidentemente, lhe adverte para não cometer o crime, mas a obsessão pelo ato lhe faz o coração bater acelerado, o que se agrava no exato momento do crime, que causa, no seu praticante, um desgaste energético que é apenas pequeno para causar algum problema de saúde, mas abala seu funcionamento de qu...

A SÍNDROME DE ESTOCOLMO QUE ENVOLVE UM OBSCURANTISTA RELIGIOSO

O TRAVESTI, O ROQUEIRO, O ESQUERDISTA E A ATRIZ SENSUAL - Devotos de quem era contrário às causas defendidas por essas pessoas. A obsessão em torno do Espiritismo brasileiro preocupa bastante, e é mais forte do que qualquer processo obsessivo que essa religião, o Catolicismo medieval redivivo, diz querer combater. A figura de um obscurantista da fé retrógrada, um "médium" que usava peruca e que, no momento, têm sua reputação sendo blindada pelos filmes "espíritas", torna-se um preocupante caso de charlatanismo religioso convertido a um processo de fanatismo e subjugação espiritual de muitos brasileiros. A coisa é tão preocupante que até setores sociais considerados avançados, como a comunidade LGBTQIA+, os roqueiros, as pessoas de esquerda e atrizes consideradas sensuais manifestaram profundo apreço e até devoção ao "médium" que foi tudo de ruim e é visto como "tudo de bom", apesar de ter sido reacionário (era radical defensor da ditadura militar...

LULA ESTÁ MANIPULANDO O PROCESSO ELEITORAL?

LULA DÁ INDÍCIOS DE SER POLITICAMENTE ABUSIVO AO BUSCAR VENCER A QUALQUER CUSTO A CORRIDA PRESIDENCIAL. No último fim de semana, o presidente Lula declarou, ao saber da intenção do presidente dos EUA Donald Trump de enviar dois funcionários para fiscalizar e contestar o funcionamento das urnas eletrônicas, que "quem mexer nas eleições brasileiras vai apanhar muito". A justificativa do petista é que as urnas eletrônicas são confiáveis e acusa os funcionários de Trump de quererem prejudicar as eleições brasileiras, prejudicando a soberania e o voto democrático. Tudo bem. A interferência estrangeira é uma ameaça à soberania brasileira e, com toda certeza, atenderá a um interesse externo, divergente do interesse público dos brasileiros. Garantir que o Brasil seja soberano até na realização das eleições é fundamental para a saúde sociopolítica de nosso país. O grande problema, todavia, é que Lula se vende como um "candidato único", que apenas precisa do contraponto bolso...

DÍVIDA PÚBLICA DO GOVERNO LULA ATINGE QUASE R$ 11 TRILHÕES

GASTOS COM VIAGENS ESTÃO ENTRE OS FATORES QUE PROVOCARAM O ROMBO TRILIONÁRIO DO GOVERNO LULA. Uma catástrofe econômica foi causada pelo presidente Lula, um fato que os lulistas impedem que as pessoas tomem conhecimento. A dívida pública de seu terceiro mandato atingiu um valor de R$ 10,8 trilhões, equivalente a 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB). A dívida já é considerada uma das maiores de um governo da História da República, e esse valor se torna mais vergonhoso ao saber que Lula prometeu déficit zero em seu terceiro mandato. A chamada dívida pública é referente ao setor público consolidado e se trata de um conceito fiscal que representa o montante total das obrigações financeiras assumidas por um ente da Federação (União, Estados, Distrito Federal e Municípios).  A dívida subiu dez pontos em relação à de 2022, final do governo Jair Bolsonaro, que foi marcado pelo negacionismo da pandemia da Covid-19 e pela atuação irresponsável do extremo-direitista, que praticamente governou ...

MULTILATERALISMO, SÓ LÁ FORA, AQUI VALE O UNILATERALISMO NAS ELEIÇÕES

SOBERANIA SÓ A DE LULA. A narrativa de Lula, na política externa, aponta para o multilateralismo ou multipolaridade. Para confrontar com o imperialismo dos EUA, hoje marcado pela ação desgastada mas ainda resistente do presidente Donald Trump, Lula propõe o chamado Sul Global, um bloco político de países emergentes que faria contraponto aos países desenvolvidos. O Sul Global não é necessariamente composto por países do Hemisfério Sul, mas por países pobres e outros que estão em processo de desenvolvimento, neste caso o grupo dos BRICS, sigla que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (do original, S de South Africa). O Sul Global seria a junção dos BRICS com o restante excluído do Primeiro Mundo. Neste momento, vemos a candidatura de Flávio Bolsonaro, aposta da extrema-direita, decair em mais um escândalo. Depois do envolvimento com o esquema do Banco Master, de Daniel Vorcaro - o “irmãozão” (sic) do 01 dos filhos de Jair - , que também deu no fiasco do patético filme Dark...

COM ÔNIBUS “PADRONIZADOS”, EDUARDO PAES VIROU PADRINHO DO BOLSONARISMO

NÃO DÁ PARA ESQUECER O QUE FOI FEITO NOS VERÕES PASSADOS. Enganando a população se vendendo como um falso esquerdista, o hoje candidato a governador do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, impôs, com o autoritarismo de um ditador, a pintura padronizada nos ônibus, medida que confunde as pessoas comuns e deixa as empresas de ônibus serem reconhecidas apenas por “especialistas”, sejam busólogos, autoridades e tecnocratas. O “pesadelo sobre rodas” foi retomado em 2025 e criou um “baile de máscaras” que demonstrou a arrogância de Paes, que fala e age como um Luciano Huck da política, com a curiosa observação de que os dois são muito amigos e sentem admiração um pelo outro. A pintura padronizada é apenas a cereja do bolo que inclui uma degradação do trabalho de fazer Michel Temer ficar de queixo caído. Motoristas acumulando função de cobrador e tendo que cumprir horário, sendo obrigado a aumentar a velocidade para compensar trechos congestionados dos trajetos. Redução de frotas de ônibus em circul...

PRECISAMOS FALAR DA PANDEMIA DO EGOÍSMO

Pessoas fazendo barulho durante a madrugada, perturbando a vizinhança. Famílias relativamente pobres que, ao ganharem na loteria, passam a ter a ganância burguesa. Gente que prefere torrar dinheiro com cigarros do que dar um pouco de dinheiro a um faminto para comprar um prato de comida. Indivíduos abastados, com mal disfarçada frieza, dizendo a alguém com dificuldades na vida para “rezar para Deus que tudo muda”. Gente bem de vida que puxa o tapete daquele que precisa de emprego e lhe rouba a vaga. Juntamos isso a espécies como aquele pai de família abastado que, sofrendo da Síndrome do Cumpridor de Deveres - vamos explicar isso numa outra oportunidade - , os “animais consumistas” (cuja única razão de ser é ter dinheiro e bens, visando apenas o status) e outros tipos, vemos o que esse período significa. Trata-se da Pandemia do Egoísmo. Depois da Covid-19, as pessoas consideradas bem de vida surtaram e passaram a sentir uma vontade louca de ter bens, dinheiro e se entregar à diversão d...

MIRIAM LEITÃO REPERCUTE MAL COM IDEIA DA “SENSAÇÃO DE PREÇOS CAROS”

No Bom Dia Brasil da Rede Globo, edição de 11 de agosto de 2026, a jornalista e comentarista de Economia, Miriam Leitão, fez um comentário que causou repercussão negativa nas redes sociais. Ela tentou desmentir a carestia dos preços dos alimentos, sob o pretexto da aparente queda da inflação, alegando que se tratava apenas de uma “sensação do consumidor”. Disse a jornalista: “A sensação que as pessoas têm conversando com as pessoas na rua é que, poxa, que notícia é essa? Que a inflação desacelera, mas eu vou com R$ 100 no supermercado, não consigo comprar quase nada, os preços estão super altos.  (...) Olha, essa é uma coisa importante na economia, é que os números nem sempre coincidem com a sensação. Às vezes, você tem a sensação de preço alto, sensação de carestia, mesmo quando os índices estão mostrando queda. (...) Se você foi ao supermercado recentemente, viu que batata caiu, tomate caiu, café caiu. Mas, em geral, está difícil de fazer todas as compras”. A declaração de Miriam...