A exigência do diploma de jornalismo voltou a ser debatida a partir de declarações dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino e Alexandre de Moraes. A discussão ocorre 17 anos após outro ministro do STF, Gilmar Mendes, manifestar contrário ao diploma, comparando o trabalho de jornalista ao de um cozinheiro.
A retomada da exigência do diploma jornalístico revolta setores da sociedade, que acham que isso contraria a liberdade de expressão, ou, neste caso específico, a liberdade de imprensa. Eu defendo o diploma por ver, no entanto, houve e há o risco de aventureiros da opinião usarem o status de jornalistas para se promoverem, sem que necessitem passar de cursos que lhes orientem como trabalhar uma notícia ou escrever uma matéria.
Sei que há excelentes jornalistas que não tiveram diploma nesta função, mas estes são exceções à regra, não podem ditar a tendência dominante da imprensa sem diploma. Por outro lado, sei que diplomas não medem sabedoria, mas no caso do curso de Jornalismo existe a possibilidade de aprender normas técnicas de produção de uma notícia, artogo ou reportagem.
Há muitos aventureiros da opinião que usam o rótulo de “jornalistas” para se promoverem e enganar as pessoas. Há o “opinionismo de FM” que, além de servir overdose de informação, impede o ouvinte de parar para pensar sobre um assunto, garantindo ao “comunicador” sem formação jornalística - e que não vê diferença entre programa jornalístico e papo de botequim - a obtenção de poder através da mídia.
Temos também o noticiário policialesco, que é erroneamente confundido com jornalismo investigativo, o que desmoraliza e desqualifica a verdadeira investigação jornalística. Esses programas, em nome do “verdadeiro jornalismo”, cometem um gravíssimo desserviço de banalizar e glamourizar a violência, acostumando mal a população e transformando o crime em um estúpido trampolim social para certas “pessoas de bem”.
Entre tantos oportunistas, o que vemos também foi a onda dos humoristas dublês de “jornalistas”. Diferente de Millôr Fernandes, Ziraldo e Sérgio Porto (este sob o condinome de Stanislaw Ponte Preta), os comediantes e influenciadores digitais que se autoproclamam “jornalistas”, ao verem o naufrágio que atinge seus meios, as comédias de estandape e os canais de influência digital, devido a muitos escândalos, tentam sair de seus barcos furados para ingressar em cargos técnicos de Comunicação, bastando apenas inventar uma imaginária carreira jornalística para dar a impressão de um “currículo sério”.
E nota-se que, de repente, parte do mercado profissional de Comunicação esqueceu a diferença entre contar uma piada e narrar uma notícia. Qualquer comediante que, em matérias de rua, perguntasse coisas do tipo “Quando a senhora transa, seu marido fica de quatro ou de cinco?”, queria ter uma reputação digna de concorrer ao Prêmio Pulitzer.
Hoje, quando o Brasil vê o fenômeno do jornalismo de escritório, ou seja, a imprensa voltada aos interesses centrais de conselhos editoriais, os fatos passaram a exercer papel secundário, enquanto a notícia se transforma em mercadoria. E a flexibilização do diploma de jornalista, nesse contexto, só faz a informação ficar cada vez menos fidedigna, se encaixando nos padrões sonhados pela ditadura nos tempos do AI-5.
Nada foi fechado ainda com a questão do diploma. A volta da exigência do diploma de jornalista ainda vai render muitas discussões. Por enquanto, o jornalismo de escritório segue subjugando os fatos e se encanando em bancar o dublê de nutricionista, psicólogo e historiador. O compromisso em informar e interpretar a realidade não sumiu, mas hoje está submetido aos interesses empresariais pelos quais operam os conselhos editoriais.

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