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DOIS BRASIS?

ANDRÉ ESTEVES, PRESIDENTE DO BTG PACTUAL, QUE TERIA INFLUENCIADO OS MINISTROS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL A DEFENDER A INDEPENDÊNCIA DO BANCO CENTRAL.

A classe média, não só a esquerda festiva que acha que Lula ganhou a Presidência da República antes de competir, mas muita gente "isenta" e "despolitizada", acredita em dois Brasis.

Um Brasil que sofre crises intensas, com o abuso dos extremamente ricos e os sofrimentos de quem é realmente pobre, e que a classe média só entende vagamente, sem sentir a realidade de fato.

O outro Brasil é o país da fantasia, onde está tudo bem, as redes sociais mostram sua positividade tóxica e alega-se que culturalmente estamos bem porque existem muitas "ofertas" culturais no shopping center lúdico de "muitas vozes e muitas narrativas".

No primeiro caso, moradores de rua se multiplicam e o medo se torna companheiro de suas realidades desesperadas.

No segundo caso, há uma religiosidade viscosa, gosmenta, que trata um charlatão vigarista e reaça - o tal "médium de peruca", síntese mineira de Aécio Neves (esperteza), Jair Bolsonaro (reacionarismo) e Luciano Huck (filantropia) - como um suposto símbolo de "caridade" e "sabedoria".

Entre esses dois Brasis, vemos Jair Bolsonaro derretendo a poucos dias do Tribunal Superior Eleitoral julgar a chapa dele com o general Antônio Hamilton Mourão, seu vice.

Será que o TSE vai passar pano na dupla e tudo vai ficar na mesma, até Bolsonaro "cair morto" no fim de mandato?

As instituições não estão funcionando bem, como as esquerdas pensam. Os golpistas de 2016 não iriam devolver às esquerdas os espaços que foram delas tirados.

Um episódio mostra o quanto se deve tomar cautela até mesmo com o Supremo Tribunal Federal, que até pouco tempo atrás blindava o golpismo de 2016.

Um áudio com o presidente do banco BTG Pactual, André Esteves, conversando com seus clientes, aponta que ele influenciou os ministros do STF a defender a independência do Banco Central.

A independência do BC é um artifício que permite que a instituição financeira estatal atue não em prol das imposições do Estado, mas em favor dos bancos privados.

André Esteves é o mesmo que, anos atrás, era acusado de articular acordos espúrios com o então diretor da Petrobras, Nestor Cerveró. Esteves chegou a ser preso, mas Teori Zavascki, ministro do STF que morreu de forma estranha num acidente aéreo, soltou-o pouco depois, em 2017.

Em ato falho, o ministro da Economia e também banqueiro Paulo Guedes, ao anunciar o novo secretário do Tesouro Nacional, Esteves Colnago, numa confusão falou o nome de André Esteves, sócio do ministro no BTG Pactual.

O incidente envolve também Roberto Campos Neto, do Banco Central, engajado nos acordos espúrios junto a Guedes e Esteves.

Esses escândalos mostram o quanto o mercado não está aí para a volta das esquerdas.

O Supremo Tribunal Federal não está afinado com as esquerdas e a mídia empresarial também não se rendeu às forças progressistas. Pelo contrário, o antipetismo jornalístico retomou fôlego.

Enquanto o jornal O Estado de São Paulo lançou, ontem, um artigo inflamado chamando Lula de "o diabo" e lhe cobrando autocrítica, Luís Inácio Lula da Silva se perde em mais uma aliança com quem quer impedir o caminho de seu projeto político.

Desta vez o interlocutor é João Campos, prefeito de Recife, Pernambuco, e noivo da neoliberal Tábata Amaral, pupila de Jorge Paulo Lemann, dono da Ambev e ativista empresarial.

Lula quer voar alto demais sem que o Brasil tenha condições propícias para isso, e ele comete o grave erro de pedir apoio justamente com aqueles que se opõem ao seu programa de governo.

E o pior é que Lula não faz autocrítica. Prefere a zona de conforto de, supostamente, aceitar críticas dos outros e fazer vista grossa.

"Pra que eu vou fazer autocrítica se vocês podem me criticar? É mais saudável. Se eu ficar me criticando o que vai sobrar pros outros falarem?", escreveu Lula no Twitter.

Lula me decepcionou porque decidiu viver no Brasil de fantasia, como se o Brasil real, à beira de uma catástrofe distópica, fosse um terreno a alguns quarteirões fora de casa.

São dois Brasis que não se dialogam, naturalmente. Um país real subestimado pela classe média infantilizada, alienada e atrasada, presas nas redes sociais, disparando de vez em quando uma avalanche de páginas religiosas no Instagram e Facebook para fazer proselitismo, lacração e monetização.

Páginas de positividade tóxica, que são dadas a dar conselhos inúteis, do tipo "conforme-se com o sofrimento, porque Deus um dia lhe salvará".

E tudo isso com uma pieguice tão doentia que eu tive que repousar por meia-hora para não ficar doente, porque essa "overdose de fé" nas redes sociais é coisa que pode provocar fé...bre alta. Isso quando a coisa não vai ao ponto de causar forte dor-de-cabeça e até vômito.

Nada está bem e não é misticismo nem contos de fadas que irão resolver o problema.

Não é suficiente impor a vitória de Lula, como se o pensamento desejoso das esquerdas estivesse acima da realidade.

Lula não ganhou a competição, porque ela simplesmente não começou. E pesquisas eleitorais são mera especulação, são apenas palpites. Vai que um terceiro-viável se destaca e Lula perde a "iminente chance" de vencer a campanha presidencial.

O Brasil de fantasia ainda vai empurrar o Brasil real para o precipício.

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