EDUARDO PAES (D), AO LADO DE LUCIANO HUCK - "Príncipes" da Faria Lima no Rio de Janeiro.
As narrativas que prevalece nas redes sociais são enganosas. A seletividade do pensamento crítico esbarra em certos limites e as abordagens acabam mostrando como “piores” coisas que até são bem ruins e nocivas, mas que estão longe de representar o inferno dantesco a que se atribuem.
Comp jornalista, tenho compromisso de fazer textos que desagradam, mas são realistas. Meu Jornalismo busca se aproximar da fidelidade dos fatos, não sou jornalista para escrever contos de fadas. Por isso não faço jornalismo de escritório, que fala coisas como “a cidade A tem mais mulher porque tem praia e coqueiros ou a cidade B é mais barata porque lá os moradores rezam mais”. Não aprendi Jornalismo para me submeter a taos vexames.
Por isso, quebro narrativas e crendices que parecem universais, mas expressam a visão de uma elite. O “funk” é considerado a “verdadeira cultura popular”? Eu revelo que não, que o “funk” expressa o interesse de empresários do ramo do entretenimento que montaram essa lorota.
A burguesia ilustrada tenta criar vilões de plástico que parecem piores do que são, enquanto gente realmente pior é até endeusada. Muito entulho cultural dos tempos da ditadura militar foi relançado como “relíquias nostálgicas”. Enquanto isso, viralatismo cultural mais parece um eufemismo para reacionarismo político mais escancarado.
Imagina-se que a pior religião é aquela marcada pelo raivismo explícito de pastores e “bispos” que implor para os fiéis doarem até o que não têm para sustentar as igrejas neopentecostais. Mas o Espiritismo brasileiro, além de se basear nos mortos fake, rebaixados a meros propagandistas da fé obscurantista, teve um”médium” ultraconservador que apenas disfarçava suas ideias medievais com palavras dóceis.
A burguesia ilustrada cria vilões caricatos, ao passo que os piores vilões se tornam pretensos heróis por não representar estereótipos de reacionarismo e raiva escancarados. E aí a gente compra gato por lebre, chamando cachorro Rottweiler de “monstro” e chamando coiote de “cãozinho fofinho”.
Na política, as esquerdas em parte se deixam levar pelo lobo em pele de cordeiro que é o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Imaginam que, só pelo aparente apoio ao presidente Lula - condicionado pela boa vontade do petista em investir verbas federais na outrora Cidade Maravilhosa - , o prefeito carioca seria uma "simpática figura da esquerda local".
Grande erro. Eduardo Paes é de direita e um político conservador, não o conservadorismo ortodoxo, mas o conservadorismo funcional. Seu apreço pelas classes populares é ínfimo. Paes mais parece um gerente de parque de diversões do que um governante. Sua prioridades é o turismo, o bem estar social vem em segundo plano, com exceção da burguesia carioca, é claro.
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e virtual presidenciável, pode ter seus defeitos, mas seu nível de consciência social é maior, em termos comparativos, que Eduardo Paes, que praticamente só governa para as elites. Mesmo dentro do prisma da direita moderada, Tarcísio parece mais pé no chão que Paes. O governador paulista parece atuar de forma mais autônoma aos interesses da Faria Lima, se comparado com o prefeito carioca.
As aí as pessoas falam: e a violência policial de Tarcísio? Não, Tarcísio não ordenou a violência policial, mas seu secretário de Segurança Pública. O problema é estadual, mas Paes lava as mãos, como se as tragédias das favelas não fossem com ele. Afinal, ele governa para as elites, o foco do prefeito carioca é o bem estar de quem tem mais grana. Eduardo Paes quer administrar o espetáculo, o turismo. Nem para caricatura de governante do bem-estar social ele serve, pois o povo pobre só recebe do prefeito carioca as medidas de fachada que só servem para gerar notícia e fazer propaganda.
No setor transporte coletivo, Eduardo Paes tem até um apetite comparável ao de um político bolsonarista, e, além de não medir escrúpulos para esconder as empresas de ônibus da população - com a "promessa" mentirosa de que a atual padronização "vai facilitar" a identificação dos ônibus - , também escancarou o processo de "licitação" com transações politiqueiras com a poderosa família Constantino, do grupo Comporte.
Eduardo Paes não é um esquerdista de verdade. É um representante da Faria Lima no Rio de Janeiro e, por sinal, com boas relações e que com o apresentador e empresário Luciano Huck mantém uma admiração recíproca. Huck é um paulista que, por razões profissionais, está radicado no Rio de Janeiro. Ambos acabam defendendo os interesses da Faria Lima no Rio, na ironia do próprio brigadeiro que deu o nome à famosa avenida de São Paulo ter nascido e morrido na ex-Cidade Maravilhosa, apesar da carreira política paulistana.
Enquanto isso, setores como Educação e Saúde públicas ficam sem investimentos necessários, recebendo somente o que os instintos demagógicos de Paes permitirem aplicar. E tudo isso para ações de fachada, pois o povo pobre no Grande Rio é um dos que mais sofrem desde que a fusão dos antigos Estados do Rio de Janeiro e Guanabara foi imposta pela ditadura militar para atender aos interesses de grupos políticos locais interessados.
Infelizmente, o povo no atual Grande Rio é só um detalhe, paparicado pelo discurso dos oportunistas de plantão, mas vivendo sempre sua tragédia diária, refém do crime organizado que controla favelas e áreas próximas e sofrendo os tiroteios constantes que matam inocentes, principalmente crianças.
Enquanto isso, dá para perceber por que Eduardo Paes quer tanto padronizar visualmente os ônibus municipais, pois quer transformar o transporte coletivo numa propaganda política, uma marca para compensar o pouco caso que faz com as verdadeiras necessidades da população. Na prática, Paes nunca passou de um sub-prefeito a serviço das elites da Barra da Tijuca e arredores.
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