DESFILE DO BLOCO TARADO NI VOCÊ, NO CENTRO DE SÃO PAULO.
O Brasil virou um país estranho, culturalmente deteriorado e marcado por uma bregalização quase total e um complexo de superioridade de uma elite de privilegiados que domina as narrativas nas redes sociais, a burguesia ilustrada, classe que se acha "mais povo que o povo".
Transformado em um grande parque de diversões, o Brasil no entanto tenta vender como "cultura de protesto" eventos que são somente puro entretenimento, daí os risíveis fenômenos do brega-vintage - cujo exemplo maior foi a canção "Evidências" na voz de Chitãozinho & Xororó - e, agora, do das canções infantilizadas como "Lua de Cristal", "Superfantástico" e "Ilariê".
Em seguida, vemos o fato da axé-music querer se vender como a "Woodstock brasileira", e as narrativas de transformar o Carnaval de Salvador num fenômeno de engajamento sociopolítico e cultural são bem arrumadinhas. Sim, porque no Brasil tem desculpa para qualquer coisa.
Carnaval é puro entretenimento, onde os instintos são liberados. Por incrível que pareça, é um feriado religioso, inspirado no Carnevale do Catolicismo medieval, que permitia aos cidadãos "fazerem o que querem", se entregando aos desejos e ao prazer. De alguma forma, o Carnaval no Brasil tem seus valores culturais regionais, embora ultimamente seus eventos tenham se tornado mercantilizados.
Por isso não há como não ver um certo grau de hipocrisia a declaração do bloco carnavalesco de rua de São Paulo, o Tarado Ni Você, através de uma crítica manifesta por um dos porta-vozes: "Essa gente acha que é possível domar a cidade, controlar a energia que brota das ruas, privatizar o seu pensamento. Não passarão".
Tudo bem que a queixa foi motivada pela aparente dificuldade do bloco em obter verbas para a realização do desfile, mas devemos considerar que até o Carnaval de rua, hoje, é privatizado, com os patrocínios de grandes indústrias de cervejas e de outros produtos relacionados.
Essa hipocrisia remete ao evento carioca "Eu Amo Baile Funk" que só mostrava o patrocínio estatal, quando na verdade o evento funqueiro tem patrocínio da grande mídia, das multinacionais e, também, da indústria de cerveja, que ultimamente é a que mais investe no apoio aos eventos de entretenimento de ponta no nosso país.
O Carnaval de hoje reflete o estado de espírito de uma grande histeria coletiva, de uma ânsia de uma elite de abastados não-assumida que quer dominar o mundo. Desde 2023 a elite do bom atraso, já rompida com a "banda podre" do bolsonarismo, sonha em "mandar no mundo", um pretexto para realizar turismo em qualquer parte do planeta, aproveitando sua grande quantidade de dinheiro para se divertir.
O Brasil tornou-se um país voltado mais para pessoas que se divertem na madrugada, gritam e fazem barulho perturbando a vizinhança, do que para a pessoa que trabalha duro e precisa descansar para renovar as forças para a jornada seguinte.
Mesmo o presidente Lula simboliza esse país, e ele mudou a base de apoio para a burguesia ilustrada e para o "pobre de novela", para uma classe cheia de dinheiro e que jura ser "o verdadeiro povo brasileiro", escondendo os dramas dos verdadeiros excluídos dessa festa de suposta inclusão social.
Há muita gente endividada esperando "milagre" para saldar as dívidas, há muita gente sem-teto dormindo em calçadas frias e sujas pelas quais passam até ratos infectados, há favelados que, até para comprar pão, precisam percorrer os caminhos difíceis desses ambientes degradados - o que é um sacrifício para idosos e deficientes físicos - e há camponeses e proletários vivendo problemas trabalhistas sem serem ouvidos no seu justo protesto.
Há também trabalhos precários que são as únicas opções para quem tem talento para outras áreas. Pessoas com formação universitária trabalhando como operadores de telemarketing, entregadores de aplicativos, vendedores ambulantes. Enquanto isso, gente com menos competência trabalha com Jornalismo, Engenharia, Direito, Ciências Sociais e ainda abocanha um cargo no serviço público, como "atletas de concursos", fazendo malabarismos com chutômetros e questões-pegadinhas.
E não vamos nos esquecer que, por trás desse mundo encantado do entretenimento "engajado", também há precarização no trabalho. Já vi casais de vendedores de cerveja na maior dificuldade para transportar seu carrinho de um lugar para outro ou até para entrar num ônibus que vá onde eles moram. Apesar de vender caro bebidas e alimentos, esses vendedores ganham pouco e ainda são explorados e, portanto, são eles os que menos ganham com esta festa.
Ou seja, enquanto muitos imaginam esses eventos como o paraíso do engajamento político, como a "verdadeira manifestação revolucionária", por trás disso há muito trabalho precário, muita exploração, muita gente trabalhando duro por nada.
O Carnaval virou uma "Contracultura de Resultados", feito mais para lacrar na Internet e garantir o bom mocismo da burguesia ilustrada que se acha dona do mundo. Ela já é dona de tudo e tudo se "privatizou", até mesmo o Carnaval de rua. Daí que vivemos um período louco, lembrando os roaring twenties dos EUA de um século atrás, só que de maneira ainda mais megalomaníaca.
O Brasil passou por seis décadas de retrocessos e não tem condições para se tornar país desenvolvido. Muitos desses retrocessos foram assimilados como "normais" e há até sentimentos nostálgicos em relação a vários deles. Ainda mantivemos muitos legados da Era Geisel, estando preservada boa parte de suas diretrizes culturais.
Daí, por exemplo, o "pão e circo" do Carnaval e seu suposto engajamento político, um suposto espaço para o protesto que acaba sendo inócuo, pois é um protesto que não assusta o empresariado. Pelo contrário, a Faria Lima dorme tranquila quando sabe que uma música como "Xi Bom Bombom" é considerada "canção de protesto". Que protesto é esse que acaba favorecendo os lucros e os interesses do empresariado?
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