O debate presidencial de anteontem na Band deixou a máscara cair para Lula, que deixou de ser o político sério que muitos de nós ainda acreditam que ele seja. O debate foi marcado por troca de acusações entre o petista e o rival da extrema-direita, Flávio Bolsonaro.
De Flávio, espera-se que ele faça o show de acusações e bravatas, pois é de praxe entre os bolsonaristas a acusação de corrupção contra o PT e, em especial, contra Lula. Mas analisar isso é chover no molhado, diante de tanta obviedade.
Já Lula supera, no sentido negativo do termo. Ele renegava os debates quando esses eventos incluíram candidatos da Terceira Via, e Lula tentava teorizar seus boicotes. Dizia que o formato de debate estava caduco e que o petista não aceitava debater com candidatos que, ao seu ver, “não tinham grande representatividade no Congresso Nacional”. Em outras palavras, Lula se recusa a debater com “nanicos”, que poderiam vencer o petista no confronto de ideias.
Só que, em um debate com vários candidatos, há a oportunidade de discutir ideias e projetos. As ideias ganham mais destaque do que o personalismo da cada candidato. É muito diferente do show de ataques do debate ao modo estadunidense, com dois candidatos trocando acusações.
Na sociedade do espetáculo, a disputa presidencial é marcada pelo entretenimento da polarização,pouco importando se os candidatos estão afinados com o interesse público, voltado às ações de resolução de problemas e de bem estar social.
A maior decepção, portanto, envolve Lula, que pelo jeito deixou de gostar de debates sérios. O debate do tipo show, como se observa nos midiáticos eventos envolvendo candidatos dos partidos Democrata e Republicano nos EUA, é que é mais caduco, por se movimentar pelo vazio das trocas de acusações e das pautas que substituíram as propostas pelos escândalos.
Lula parece, desde 2022, levar a vida como uma brincadeira. Praia privativa com a Janja, viagens ao exterior para se ostentar ao mundo, posar de orador histórico falando obviedades, simulando ações no mandato presidencial. E ver Lula preferindo o debate presidencial baseado no confronto ofensivo e não nas ideias é frustrante.
Avaliações de especialistas entrevistados pela BBC Brasil mostram que o formato do debate foi inadequado por não mostrar propostas para o eleitorado. Disse o diretor de Análise Política do AtlasIntel, Yuri Sanches:
“O eleitor independente, que às vezes é antibolsonarista e antipetista, sai com uma impressão realmente muito negativa. Foi um debate em que não houve nenhum tipo de propostas sendo discutidas, nenhum tipo de racionalidade”.
O cientista político Lucas Aragão, da Arko Advice, fez comentário similar:
“Foi um modelo muito ruim, que favoreceu o ataque, favoreceu a ironia, e não as propostas. Acho muito difícil que o eleitor, pelo menos nesse primeiro bloco, tenha tomado algum tipo de decisão ou se sentido representado. Acho que o modelo não favoreceu a ninguém”.
Em que pese os defeitos de Flávio Bolsonaro, os especialistas observaram que o extremo-direitista foi ágil na fala e seguro nas perguntas e respostas, enquanto Lula parecia “sem repertório” e perdido. “O Flávio traz o Lula para os assuntos e o Lula não consegue levar o Flávio para os assuntos dele”, comentou Aragão. Devemos nos lembrar que a família Bolsonaro é conhecida por ser boa estrategista.
A tese tem a discordância de outro entrevistado, o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, que disse que Lula “se portou melhor no debate”, embora admita que o petista “não produziu um fato novo” para estimular a “virada” nos votos. Para Cortez, Flávio teve postura “debochada e cínica”, mas a seu favor pesa o desejo de mudança de seu eleitorado.
No conjunto da obra, Lula teve uma atuação fraca, dentro de um formato que permite o espetáculo polarizado, como nos EUA. E o presidente decepcionou na medida em que preferiu participar num debate destes do que enfrentar uma diversidade de candidatos. Com toda certeza, isso não é ser competitivo.

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