Muita gente acha que o mal depende sempre da cosmética do raivismo. As piores pessoas costumam ser aquelas que explodem em fúria, irritação e paranoia e falam aos berros. Para muitos hoje em dia, é impossível haver alguém traiçoeiro que fale de forma calma, demonstre simpatia e até se dispõe a apertar a mão de outrem e até pagar um cafezinho.
Ninguém entendeu o Amigo da Onça, antigo personagem de cartum que fez muito sucesso entre a década de 1940 e começo da de 1960. Criado pelo desenhista Péricles Maranhão que, apesar do sobrenome, era pernambucano de nascimento, o personagem era um sujeito franzino que usava roupa de gala - o chamado terno smoking - e que, de forma simpática e gentil, metia as outras pessoas em encrencas ou, se elas estavam encrencadas, usava uma desculpa cordial para mantê-las nessa situação.
O nome Amigo da Onça foi criação da equipe da revista O Cruzeiro, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand e Péricles foi encomendado a fazer o personagem, inspirado numa piada que deu origem ao nome. Dizia a piada:
Dois caçadores conversam em seu acampamento:
— O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?
— Ora, dava um tiro nela.
— Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?
— Bom, então eu matava ela com meu facão.
— E se você estivesse sem o facão?
— Apanhava um pedaço de pau.
— E se não tivesse nenhum pedaço de pau?
— Subiria na árvore mais próxima!
— E se não tivesse nenhuma árvore?
— Sairia correndo.
— E se você estivesse paralisado pelo medo?
Então, o outro, já irritado, retruca:
— Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?!
O Amigo da Onça foi desenhado por Péricles entre 1943 e 1961 quando seu autor, recebendo gozações devido ao sucesso do personagem, se matou inalando gás de cozinha no último dia daquele ano, aos 37 anos de idade. Até a década de 1990, o personagem foi desenhado por outros autores, entre eles Carlos Estevão, criador do Doutor Macarra e colega de Péricles em O Cruzeiro.
Mas a pedagogia sociocultural que tínhamos antes de 1964 se perdeu e nosso país, ainda preso ao legado cultural da Era Geisel, deixou de perceber que existem muitos Amigos da Onça. Muitos se sentem ofendidos quando se fala que é possível trair alguém simulando alegria, simpatia e cordialidade. Mas até feminicidas conquistam mulheres com senso de humor, nenhum feminicida assedia sua vítima puxando seu cabelo ou fazendo ameaças.
Daí vermos um ídolo religioso, o “médium da peruca”, um sujeito ultraconservador que enganou um país inteiro e atraiu a adesão de muita gente considerada moderna e avançada mas que se tornou vulnerável a esse obscurantismo da fé que é o Espiritismo brasileiro, versão repaginada do velho Catolicismo medieval jesuíta que vigorou no período colonial.
Muita gente caiu na pegadinha do “médium bondoso”. A comunidade LGBTQIA+ caiu no conto do falso cristo de Pedro Leopoldo e Uberaba que definiu o homossexualismo como “doença mental”. Os roqueiros, mesmo fãs de rock pesado, também caíram, sem saber que o “médium da peruca” achava o rock, mesmo o mais leve, uma “sucursal do umbral”. Os ateus idem, ignorando que o “médium” tratava os ateus como se fossem “analfabetos de Deus”.
Como é que tanta gente considerada moderna pôde cair nessa armadilha de um ídolo religioso cujas ideias medievais apelavam para os oprimidos sofrerem calados em troca de um terreno no céu?
O “médium da peruca”, sabe-se, plagiou muito. Sua obra “Nosso Lar” é plágio de uma obra do reverendo protestante britânico George Vale Owen, A Vida Além do Véu (The Life Beyond the Veil). Há plágios que envolveram até Bocage e Edgar Allan Poe e livros de Biologia dos anos 1920 disponíveis nos anos 1940. Até Cornélio Pires foi, mais tarde, um dos lesados do "mimeógrafo do mal" do suposto "carteiro de Deus".
E não nos esqueçamos de um texto satírico (?!) de Humberto de Campos sobre aposentadorias cujo plágio foi inserido no livro ufanista sobre a “Pátria do Evangelho” (um perigoso projeto de supremacia religiosa e política do Brasil, nos moldes do antigo Império Bizantino).
É tanto plágio que até o Amigo da Onça foi vítima, sendo superado pelo “médium” pela defesa "cordial" da desgraça alheia. No caso do obscurantista de Uberaba, a desgraça alheia era vista como “atalho para Deus” , como se sofrer os piores infortúnios fosse requisito para obter as tais “bençãos eternas”.
Na sua hipocrisia moralista, o "médium da peruca", defensor de uma positividade tóxica, pedia para os oprimidos fingirem que está tudo bem, para "não atrapalhar a felicidade dos prósperos". Chegava ao cinismo de pedir para os desafortunados "olharem os passarinhos" e usava desculpas do tipo "enquanto vocês reclamam da vida, os rios seguem seus cursos e a luz do Sol brilha como sempre brilhou". Em outro momento, o "médium da peruca" comparou a desgraça humana a uma competição escolar.
Poucos admitem que o "médium da peruca" era até mais hidrófobo e ranzinza do que se imagina, vide o caso Jair Presente em 1974. Quem conhece os bastidores do charlatanismo "mediúnico" conhece a farsa das cartas atribuídas ao jovem falecido, cujas mensagens despertaram a desconfiança dos amigos.
A carteirada do "médium" pesou mais do que a natural dúvida daqueles que conviveram com o rapaz, o que mostra o quanto a mídia venal da época queria proteger um religioso em detrimento dos próprios entes queridos.
Ao reagir à desconfiança, o "médium da peruca", visivelmente irritado, chamou a merecida e justa desconfiança de amigos de um falecido de "bobagem da grossa". Uma reação que colocaria o "médium" no mesmo patamar de um Silas Malafaia, não fosse a blindagem e a abordagem que enganou até mesmo as esquerdas e parte da comunidade udigrudi e dos movimentos sociais no Brasil.
O Espiritismo original, diz a tradição, tem como lema prioritário a frase "Fora da caridade não há salvação". Mas o Espiritismo brasileiro deveria usar como máxima a frase anedótica "Pimenta nos olhos dos outros é refresco". E, pensando bem, o Amigo da Onça era mais simpático e divertido do que o "médium da peruca" na hora de pedir para as pessoas ficarem felizes durante a desgraça.
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