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QUANDO A RELIGIÃO É TRAIÇOEIRA E POUCOS PERCEBEM


Vi uma mensagem interessante no perfil bendita_muzi no Threads:

“Nem todo mundo que grita é o verdadeiro problema.

Aprendi a observar além das aparências… porque muitas vezes o perigo mora justamente em quem se esconde atrás da calma, do sorriso e do discurso perfeito.

Tem contradições que poucos percebem… e outras que muitos percebem, mas fingem não ver. Pois o mundo é feito de ‘conveniências’".

Isso me lembra como, oficialmente, se vê o mal das religiões. Nas seitas neopentecostais, pastores e “bispos” de colarinho pedindo aos fiéis para doarem o que não têm para obter a salvação. Sim, isso é nocivo, é retrógrado, é ameaçador, mas nem é tão traiçoeiro assim porque é grosseiro de tão escancarado.

O pior mentiroso e o pior enganador não é aquele que diz, com sorriso cínico: “Cuidado que eu minto!”. As pessoas julgam os neopentecostais como “traiçoeiros” porque querem parecer espertas e, por isso, chamam de “enganadores” aqueles que não enganam sequer uma mosca. Armadilha revelada é desculpa para a falsa esperteza dos preguiçosos e ignorantes.

Enquanto isso, pessoas que se dizem “bastante esclarecidas” vão felizes da vida ver novelas e filmes “espíritas”, iludidas com as promessas vãs de obter “lições de vida” e, pasmem, até “melhorar o intelecto”. Quanta ingenuidade, a níveis de tolice típica dos trouxas!

Eu segui a religião “espírita” entre 1984 e 2012 e essa religião só me prejudicou. Em vez de resolver um problema, a religião me jogava mil e cada vez piores. O Espiritismo brasileiro é a religião que personifica esse dado traiçoeiro: a calma, o sorriso, o discurso perfeito, a mão no ombro com ar falsamente protetor e fraternal.

Dizer isso irrita o negacionista factual, esse “Monark do bem” que zela pelo mundo das aparências. Ele acha que as pessoas que acusam o Espiritismo brasileiro de religião azarenta estão de frescura e elas é que são responsáveis pelos infortúnios da vida. Aquele papo de dizer que a vítima é a culpada.

Muita gente se esquece, mas neopentecostais e “espíritas” estiveram unidos num contexto histórico pouco conhecido. Foi há mais de 50 anos, quando a ditadura militar, preocupada com o crescimento da Teologia da Libertação católica como uma força de oposição ao poder ditatorial, teve que recorrer ao aparato da “diversidade religiosa” para enfraquecer os católicos que denunciavam a repressão, a censura e a violência dos militares e de quem apoiava o regime, dos latifundiários aos esquadrões da morte, estes verdadeiras máquinas de exterminar pobres.

Daí que surgiram a Igreja Universal e a Igreja Internacional da Graça de Deus, enquanto a Assembleia de Deus e a Federação Espírita Brasileira eram fortalecidas, formando uma frente para combater a Teologia da Libertação. Somente os neopentecostais começam a ser denunciados, mas a participação dos chamados “kardecistas” (nome usado apesar das traições vexaminosas aos postulados de Allan Kardec) foi intensamente decisiva.

A onda das “cartinhas mediúnicas” e da tendenciosa distribuição de mantimentos - nos moldes dos crimes eleitorais das zonas rurais - foram durante anos promovidas como “verdadeira caridade” para promover um charlatão religioso cujas iniciais são as consoantes da palavra “caixa”. 

Espécie de “João de Deus que deu certo”, o “médium” de Pedro Leopoldo e Uberaba foi uma das personalidades mais reacionárias do Brasil, um “Jair Bolsonaro do Cristianismo” que tentou ir além ao tentar obter apoio de roqueiros, ateus, esquerdistas e até da comunidade LGBTQIA+, apesar do religioso ter sido homofóbico (via o homossexualismo como uma doença mental causada pela reencarnação).

Contra o “médium”, pesam coisas horripilantes que o fariam ser desmascarado até pelo desenho animado do Scooby-Doo. A falsidade ideológica pelo uso de nomes da literatura em obras ditas “psicográficas”, o que quase o colocou na cadeia pelo caso Humberto de Campos, foi um deles. 

O “médium” também é suspeito de consentir com a morte suspeita de um sobrinho, Amauri Pena, e de ter planejado e coordenado os trabalhos de fraudes de materialização executados pela ilusionista chamada Otília Diogo, que foi desmascarada sozinha, enquanto seu mentor se passou por “vítima”. Ideologicamente, o “médium”, no Pinga Fogo da TV Tupi, manifestou uma defesa da ditadura tão radical que faria o coronel Brilhante Ustra ficar de queixo caído.

Mas o lado enganador deve ser levado em conta. Manipulador, o “médium da peruca” chegou a dominar o viúvo de uma professora de Belo Horizonte, falecida prematuramente, chamada Irma de Castro Rocha. Apelidada de Meimei pelo marido, Arnaldo Rocha, Irma, ao morrer de grave enfermidade aos 24 anos, gerou comoção no esposo, e o “médium” aproveitou isso para assediar o jovem viúvo enquanto se passava pela falecida esposa para escrever livros “mediúnicos” voltados ao público infantil e falsamente educativos.

Mas o pior foi, quando saiu impune no caso Humberto de Campos, quando o filho do mesmo nome do notável e hoje subestimado escritor maranhense foi atraído para um evento “espírita em 1957, em Uberaba. 

Com recursos de dominação próprios de “bombardeio de amor” (alerta de “bomba semiótica”), quando se assedia alguém usando truques de falsa afetividade, explorando as fraquezas emocionais da vítima, o “médium” dominou o antes cético Humberto de Campos Filho, então ligado à TV (há na Internet uma foto dele ao lado de Hebe Camargo), que do antigo tom sério passou a uma chorosa e patética submissão ao farsante da fé “raciocinada”.

Muitos acharam esse embuste um exemplo de fraternidade, misericórdia e reconhecimento humano. Mas não foi. Foi um embuste, e o filho homônimo de Humberto caiu numa emboscada da mistificação, deixando que um charlatão usasse o nome de seu pai de maneira leviana e irresponsável.

Mesmo as esquerdas, que prometiam uma visão jornalística mais crítica da realidade, nunca investigaram os aspectos preocupantemente sombrios contra o tal “médium”, tão traiçoeiro quanto seu pupilo e discípulo João de Deus, hoje condenado. 

É porque teve sorte do “médium da peruca” ter um lobby poderosíssimo, virando um ídolo religioso nos tempos em que havia a censura do AI-5. Esse lobby envolve poderosos latifundiários do Triângulo Mineiro, para os quais o "médium" atuou como inspetor sanitário de gado bovino, inclusive da espécie zebu, a mais cara, e também envolve os barões da grande mídia e até o empresariado da Faria Lima.

Dessa maneira, foi imposta pela ditadura uma narrativa unilateral e fantasiosa do pretenso filantropo que, no entanto, pregava para que os oprimidos sofressem as piores desgraças calados, sob a desculpa de obter as “graças infinitas” na chamada “vida futura”. Tais visões remetem à corrente medieval Teologia do Sofrimento, mas até as esquerdas engoliram a retórica suave do “médium”, perigosamente confundida com a Teologia da Libertação que o Espiritismo brasileiro ajudou a combater.

No caso da religião, sem dúvida alguma os gritos dos “bispos” e pastores neopentecostais são um problema e tanto. Mas a pior armadilha está no aspecto de calma, de sorrisos abertos e de discursos suaves dos “médiuns” e palestrantes “espíritas”, que chegaram a enganar, iludir e manipular muita gente que se dizia cética e dotada de consciência crítica da realidade.

Neste sentido, se conseguiu evitar que os lobos dominassem os rebanhos, mas se permitiu que as raposas invadissem os galinheiros. E ainda se acredita que serão as raposas que irão reconstruir os galinheiros que elas mesmas destruíram.

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