O fenômeno Lula tornou-se surreal. Ele se tornou um político pelego, ou seja, que compactua com as classes dominantes e acaba oferecendo pouco para as classes populares. Na campanha para o seu terceiro mandato, Lula se aproximou da burguesia “democrática”, criando uma frente ampla demais para conseguir passar pelo torniquete político das urnas.
A política salarial de Lula é um exemplo desse peleguismo. Salários que anualmente se reajustam só com R$ 90 ou R$ 100 de acréscimo, enquanto o petista deixa aumentar os juros da dívida pública, deixa reajustar os preços dos combustíveis e pouco faz para contar os aumentos dos preços.
Aliás, os alimentos caros viraram pivô de um processo movido pela campanha de Lula contra a campanha de Flávio Bolsonaro, que teria enviado uma série de vídeos com roteiro padronizado, embora narrado por vários influenciadores. O que será que um assunto desses chamou a atenção de Lula, que alerta para a “desinformação”sobre os preços dos alimentos.
Mas, em que pese o lado claramente patético do bolsonarismo, os preços dos alimentos estão caros. A picanha está a cerca de cem reais. O leite integral líquido, que devia ter caído para três ou quatro reais, caminha para seis. A cesta básica não consegue ser comprada com uma nota de cem reais.
Lula tornou-se o ídolo da burguesia. A blindagem fácil do petista por setores influentes da sociedade não é gratuito. Se Lula continuasse a ser o político representante do povo pobre, o “sistema” não estaria lhe favorecendo. Vemos tecnocratas neoliberais dos EUA e Europa apoiando o petista, por exemplo. A Faria Lima também brinca de “cão e gato” com o presidente brasileiro, mas no fundo são aliados.
Afinal, um político que realmente pensa nos pobres no Brasil vai lançar um salário mínimo incapaz de alcançar a disparada dos preços? Um político que pensa nos pobres no Brasil iria adiar o combate à fome para viajar ao exterior, mais prepcupado em reconstruir a Ucrânia e construir o Estado palestino?
Além da narrativa de Lula e seus seguidores persistir na associação com o povo pobre, mesmo com os pobres da vida real seriamente decepcionados com o petista, a burguesia ilustrada se acha “dona” do povo pobre, se atrevendo a interpretar vontades e necessidades que, em verdade, inexistem entre os pobres.
Esse é o grande problema. As elites do privilégio festivo se intrometem no seu juízo de valor a falar em nome dos pobres, sem entender sua verdadeira natureza. E se Lula, apesar de sua origem humilde, insiste em dizer que pobre usa varanda de apartamento para soltar o “pum”, imagine o burguês descolado com seus chinelos Havaianas, dizendo que a favela é “coisa linda de se ver” e que pobreza não é problema, mas “etnia”. Isso prova ser um etnocentrismo muito perverso, por se esconder sob o rótulo de “progressista”.

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