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APAGÃO E MUITOS APAGÕES DE UM BRASIL AINDA NÃO RECONSTRUÍDO

ESTAÇÃO OSCAR FREIRE, UM DOS PONTOS DA LINHA 4 - AMARELA DO METRÔ DE SÃO PAULO, QUE FICOU PARCIALMENTE PARALISADA DEVIDO AO APAGÃO.

Ontem um apagão atingiu várias cidades brasileiras. Goiânia, Salvador, Aracaju, Recife, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, cidades do interior, enfim, vários municípios de 25 Estados brasileiros e do Distrito Federal sofreram efeitos de um apagão que, tudo indica, pode ter sido uma sabotagem da Eletrobras, recentemente privatizada, para desestabilizar o Brasil.

29 milhões de brasileiros foram afetados. Serviços de metrô em Salvador e São Paulo foram prejudicados. Em Salvador, passageiros tiveram que andar por um viaduto onde normalmente passa metrôs, diante da paralisação do serviço. Já na capital paulista, a linha 4, amarela, que liga a Estação da Luz à Vila Sônia, passando por Consolação e Pinheiros, ficou paralisada em boa parte do seu percurso.

Casas ficaram sem energia elétrica e o trânsito ficou caótico com os semáforos desligados. A manhã foi tensa para milhares de brasileiros. E o incidente foi tão grave que um executivo que presidiu a Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior, pediu demissão. O apagão é um reflexo de uma possível sabotagem e, também, da baixa preocupação da empresa em investir em energia para o interesse dos brasileiros.

A privatização da Eletrobras é herança de uma fase em que os brasileiros seguiram os apelos de um pragmatismo carioca, voltado à defesa neurótica de retrocessos diversos, sob pena de fazer linchamento digital nas redes sociais contra quem discordar do que é "estabelecido".

O pragmatismo carioca influiu na eleição de Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha como deputados federais, o que foi crucial para o golpe de 2016. Hoje o legado desse período começa a ser desconstruído, sobretudo pela expectativa das esquerdas em ver Bolsonaro condenado e preso.

No entanto, a situação do Brasil ainda está confusa e cheia de contradições e impasses. Ninguém entendeu quando escrevi o texto sobre as névoas no caminho do nosso país, pois muitos esperavam um texto que narrasse um país de contos de fadas apenas com algumas tensões (cortesia dos bolsonaristas), enquanto os velhos entulhos culturais do "milagre brasileiro", como a bregalização cultural, a precarização da música popular, o obscurantismo religioso e o fanatismo pelo futebol, são tratados como se fossem relíquias nostálgicas.

Não são. Há muitos apagões socioculturais de 50 anos atrás, e devemos lembrar que muito dessas "boas coisas da vida" criou condições para a ascensão de Jair Bolsonaro. Ninguém percebe o quanto o mercado do entretimento, do esporte, da religião (sim, ela tem "mercado" e mesmo a religião "espírita", mais blindada do que joias transportadas em carros-fortes, também funciona como "empresa" a faturar em torno da desgraça alheia) também manipulam o povo tanto quanto os bolsonaristas, e contribuem para o cenário caótico em que vivemos.

E é por isso que esse culturalismo da ditadura militar, com fenômenos supostamente "acima de ideologias e correntes", contribuiu para o golpe de 2016, os retrocessos tramados por Michel Temer, a ascensão de Jair Bolsonaro e seu programa de desordem política. Não tem como ter saudade dos entulhos socioculturais de 50 anos atrás. Foi graças a eles que temos super-ricos como Jorge Paulo Lemann, que e enriqueceu às custas da cerveja dos brasileiros e a Eletrobras, privatizada, fez essa sabotagem contra a rotina batalhadora dos já sofridos cidadãos.

O Brasil ainda não foi reconstruído. Infelizmente, põe-se a festa antes dos trabalhos começarem, e é por isso que um país bagunçado é terreno fértil para aproveitadores que, herdando os resíduos do bolsonarismo, ainda querem perturbar a vida no país.

Nosso país está muito longe de se tornar país desenvolvido, mas ao menos se faça necessário um mínimo de tranquilidade social para, ao menos, os brasileiros tiverem uma vida mais razoável, sem abusos de toda espécie.
 

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