A recente notícia de que o Brasil teria alcançado índices altos de desenvolvimento humano fez até a mídia venal, interessada pelo protagonismo mundial do nosso país, ficar em festa. Mas a suposta conquista brasileira, anunciada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), requer questionamentos bastante cautelosos. O famoso ditado "bom demais para ser verdade" serve de conselho para os apressadinhos que querem ver a realidade como a sucursal da fantasia.
Antes de irmos adiante, vamos aos dados. O Brasil teria alcançado o índice 0,805 do Índice de Desenvolvimento Humano, supostamente passando a integrar o grupo de países com desenvolvimento humano considerado “muito alto”.
O “porém” é que os dados apresentam também um progresso considerado desigual. Estados como Distrito Federal, São Paulo e Santa Catarina apresentaram maiores índices, enquanto Maranhão, Alagoas e Acre apresentam menores índices. Mulheres e negros teriam alcançado índices menores, se comparados com de homens e brancos.
Vários problemas se encontram nesse levantamento “histórico”, o que fez a suposta façanha ter uma comemoração bastante curta.
Para começo de conversa, temos o aspecto tendencioso, pois os dados do suposto “IDH histórico”, segundo o Governo Federal, teriam sido favorecidos pelas normas do Bolsa Família relacionadas à permanência das crianças na escola. Segundo dados oficiais, o programa teria tirado cinco milhões de brasileiros da situação de pobreza extrema.
Há poucos dias, o apresentador e empresário Luciano Huck, durante um encontro da classe empresarial promovido pela Esfera Brasil - comandado pelo dono da 89 FM, João Camargo, e que contou, entre os presentes, até com o ex-namorido e agressor da modelo Luíza Brunet, o gaúcho Lírio Parisotto - em Guarujá, fez um comentário contra o Bolsa Família, acusando o projeto, que reconhecemos como paliativo, de causar “dependência entre os pobres”.
O mais irônico disso é que, tempos atrás, o governo Lula constatou que varios pobres estariam usando recursos do Bolsa Família para fazer apostas esportivas na Internet, as chamadas “bets”. Huck é garoto-propaganda dessas páginas de apostas.
Junta-se esse contexto com o da reeleição de Lula, uma obsessão que o presidente manifesta a níveis doentios, tanto que o terceiro mandato de Lula serviu mais como um trampolim para o quarto, na visão do petista. Nesse contexto, Lula tenta provar que o Bolsa Família é uma “fórmula milagrosa” ou um programa de “rentismo popular” que impulsionou o Brasil para supostos níveis de desenvolvimento humano considerados inéditos.
Uma questão também vem à tona. Por que o maior crescimento se deu entre Estados mais prósperos e tipos humanos mais privilegiados? E Santa Catarina é um Estado bolsonarista, enquanto há redutos de Lula em posições inferiores no ranquim. Em que falhou o Bolsa Família na conquista de “índices históricos”? E a emancipação dos negros, porque não atingiu a plenitude, ficando abaixo da de brancos?
A Educação também falhou, pois culturalmente nosso país anda defasado. Se a Faria Lima, através de seus braços midiáticos, é capaz de manipular corações e mentes das pessoas comuns, não há como ver um progresso educacional, o que faz o Brasil estar longe da hipotética conquista divulgada pelas Nações Unidas.
Outro problema é que esses dados não são muito precisos, pois vemos que as cidades a que se atribuem IDH elevado são muito problemáticas. Como, por exemplo, uma Niterói tomada pelas milícias nas favelas e uma Florianópolis como reduto bolsonarista, que é um corrente ideológica marcada pela burrice e pela estupidez reacionária.
Sobre a suposta elevação do Brasil ao IDH “muito alto”, o factoide não se deve à ONU, mas ao relatorismo do governo Lula que enviou os supostos dados. Isso mais parece um daqueles sensacionalismos estatísticos feitos para impressionar as multidões. Só que a “histórica” notícia teve poucas horas de repercussão e, feito fogo de palha, o assunto chegou à noite de anteontem como coisa sem importância.
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