Uma matéria divulgada pelo UOL mostrou uma lanchonete que vende o cachorro-quente tradicional, hoje tão raro que até o enroladinho de salsicha serve como alternativa para o famoso sanduíche, que no Brasil passou a ser recheado com um certo exagero.
Para quem não sabe, o cachorro-quente era conhecido apenas por um pão com salsicha e a pessoa podia colocar ketchup e, às vezes, mostarda ou maionese. Podia ter um molho simples, um caldo feito com tomate, pimentão e cebola.
De repente, o cachorro-quente passou a ter queijo ralado, que lhe tira o sabor original, e, depois, passou a ter purê de batata, batata palha, milho e outros itens. Fala-se até num tal de “completão”, que tem tudo quanto é recheio. Mas hoje até o cachorro-quente considerado “simples” tem recheio desnecessário, com batata palha e queijo ralado.
Aí vem a matéria do UOL. O repórter tem aquela “nova” linguagem que faz o jornalismo padrão da Era Temer definir como “reportagem leve”, com as matérias produzidas em “tom de conversa”, aquele papo furado todo.
O repórter poderia ser tatuado, ter um visual informal, com barbinha e tudo, mas o que chama a atenção, no sentido negativo, são as gírias e a informalidade forçada que dá à matéria um tom explícito de showrnalismo. Gírias como “galera” e “show de bola” são pronunciadas pelo repórter.
Esse jornalismo padrão da Era Temer, o “jornalismo de escritório”, mostra o quanto a informalidade ficou acima da qualidade do texto ou da informação. É o jornalismo paralítico em busca de informações, e dou três exemplos.
Um é uma matéria de cinema do mesmo UOL que citou um “ator” chamado Art Garfunkel, se esquecendo de que ele é o famoso cantor da dupla com Paul Simon, Simon & Garfunkel. Outro é a matéria sobre a 89 FM, a “rádio rock” da Faria Lima, na Rolling Stone Brasil, na qual o repórter não informou a função do entrevistado Júnior Camargo, que descobrimos, em pesquisa na Internet, ser um dos donos da rádio ao lado do presidente da Esfera Brasil, João Ernesto Camargo..
Recentemente, a imprensa que noticiou o falecimento da atriz e cantora Lua Blanco, vítima de câncer no intestino, não quis informar que a jovem era neta do grande músico e compositor Billy Blanco, um dos pioneiros da Bossa Nova e, este sim, um verdadeiro ícone da MPB e fortemente influenciado pelo humor poético de Noel Rosa.
E aí vemos também tantos repórteres e redatores escrevendo como influenciadores digitais ou como blogueiros de Tik Tok. A qualidade do jornalismo no Brasil despencou de maneira vertiginosa, e a missão de informar ficou em segundo plano. Depois de vários jornalistas experientes morrerem ou serem demitidos, veio uma geração de novos com visão de mundo precária e talento de escrita mediano.
Não que fazer reportagem em tom de conversa seja ruim. Mas uma coisa é ver o brilhante José Hamilton Ribeiro conversando e tomando café nas matérias do Globo Rural, outra coisa é um repórter com jeito de influenciador querendo ser um dicionário vivo de gírias.
É esse jornalismo que insiste em empurrar a gíria “balada” para os noticiários “sérios”. O portal G1 veio com matéria sobre um “tiroteio em balada” e quem saiu ferido é o texto jornalístico, com a gíria da Faria Lima persistindo, bem ao modo do “vocabulário do poder” estudado por Robert Fisk.
Isso é o jornalismo de escritório, que no caso da matéria do UOL mostrou que, com a notícia cada vez mais mercantil, as reportagens cada vez mais se apegam na coloquialidade como forma, enquanto o conteúdo social da informação, se existe, perde sua importância. Se achamos o cachorro-quente raiz, só falta achar o jornalismo raiz.

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