O falecimento do cantor, pianista e compositor Benito di Paula, anteontem, nos põe a pensar. De uma geração mais antiga da música popularesca, Benito era considerado “subestimado” por seus admiradores, mas na prática era o contrário. Benito era superestimado até além da conta.
Considero a música de Benito di Paula medíocre. Letras primárias com um som que soa um pastiche do sambalanço. Foi comercialmente bem sucedido por que é esse o propósito. Como toda música popularesca, a música de Benito sempre foi comercial. Daí o aparente esquecimento que muitos reclamavam em relação ao cantor.
Poucos conseguem entender o que é de fato a música brega, raiz de uma longa linhagem de tendências popularescas que se tornou hegemônica no gosto da maioria dos brasileiros. A falsa “diversidade” do “popular demais” é,na verdade, uma tentativa do mercado brasileiro de entretenimento copiar o som da música comercial que faz sucesso nos EUA, mesmo que originário de outros países, como Reino Unido, Itália e Alemanha.
A música brega, que define os primeiros ídolos cafonas dos anos 1960 e 1970 e, em parte, dos anos 1980, e seus derivados da música popularesca - o que permite a junção de tudo isso na categoria “brega-popularesco” - , é a expressão do viralatismo cultural brasileiro, por achar que pode criar uma “cultura própria” imitando o que se faz lá fora.
A música brega mais antiga é considerada “agradável”. Como toda canção comercial, tem que ser bolada para conquistar o público. Quase sempre o intérprete não é arranjador de suas músicas, as gravadoras contam com um músico de plantão para fazer os arranjos e “embelezar” as canções.
Há um lobby entre alguns nomes bregas mais antigos, como Benito di Paula, Odair José, Michael Sullivan e Chitãozinho & Xororó. É um lobby que envolve executivos de TV e da indústria fonográfica, empresários do entretenimento e dos próprios cantores, que faz com que haja um protocolo pelo qual se deve evitar fazer duras críticas a esses nomes.
Embora a mediocridade desses cantores fosse evidente, os jornalistas culturais considerados “isentos” têm que tratá-los como se fossem “grandes gênios da música”, com resenhas que se limitem a análises “técnicas”. Interesses comerciais estão em jogo e, por isso, o tratamento gurmetizado deve ser levado em conta. São músicas geralmente para serem tocadas em restaurantes durante a noite.
Há também a exploração da memória afetiva. Embora a abordagem dos ídolos popularescos neste caso se apoie em um aparato de objetividade, os critérios de avaliação são meramente subjetivos. Muitas vezes, são apenas lembranças da vida pessoal que sustentam o saudosismo tendencioso dessas canções e de seus respectivos ídolos, como o passeio familiar, as frustrações amorosas ou a ida a algum lugar turístico, situações vividas ao som de uma música na ocasião.
Falta profundidade artística a esses nomes. O que há é a capacidade de envolver emocionalmente o público, dentro de um espetáculo de mero entretenimento. Diversão, romantismo e refrãos contagiantes são as fórmulas do brega gurmetizado que só a complacência generalizada classifica como "MPB". Uma "MPB de programas de auditório", diga-se de passagem.
Benito di Paula podia ser apenas um cantor comercial que deixou saudades em muitos fãs se não fosse a pretensão do Brasil em exagerar nos elogios daquilo que gosta. A gurmetização do brega, aliada à mania de divinizar famosos quando eles morrem, fez com que Benito di Paula fosse tratado como algo maior do que ele realmente foi, um cantor mediano de sucessos comerciais que agradaram seus fãs. Só isso.

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