As passagens de pano, nos anos 1990 e 2000, da crítica musical em relação às ditas "rádios rock", foi uma tendência que fez muito jornalista competente rasgar seda em emissoras de rádio que não eram tão boas assim.
Vide as carícias feitas com flanelas perfumadas de muita gente boa sobre a canastrice radiofônica da Rádio Cidade, uma rádio cuja experiência roqueira foi das mais vergonhosas, superando em erros e defeitos a fase decadente da Fluminense FM. A Cidade foi poupada porque tinha uma grande estrutura empresarial por trás, era blindada pelos chefões da indústria do entretenimento (tipo Roberto Medina, por exemplo).
Só que a Rádio Cidade nunca foi mais do que uma rádio "só de sucessos", que nem tinha fôlego para cobrir sequer o minimamente básico do cenário roqueiro em geral. Muito pelo contrário. Se a Fluminense FM, nos anos 1980, tinha coragem para tocar Teardrop Explodes e Monochrome Set na programação normal, nos anos 1990 a Cidade tinha medo até de tocar Beck Hansen, que era o queridinho - embora muito bom - dos programas cult da MTV.
Para piorar, a Rádio Cidade despejou mais lágrimas quando os Mamonas Assassinas morreram, em março de 1996, e reagiram com indiferença quando Renato Russo faleceu sete meses depois. Até a Jovem Pan, que havia arrendado a Fluminense FM, divulgou mais a morte do legionário. Só depois a Cidade foi capitalizar com a figura do saudoso roqueiro, por puro oportunismo.
Daí é de dar pena ver o veterano Maurício Valladares, que em 1984 quase partiu para cima, fisicamente falando, do hoje falecido Alex Mariano, porque este só queria tocar rock clássico e impedia o colega de tocar sons ecléticos no Rock Alive, passar pano no Demmy Morales, um locutor escancaradamente pop da turma de locutores sarados que se dividiu, em 1995, entre a Jovem Pan Rio e a Rádio Cidade (Rhoodes Dantas, Orelhinha, Paulo Becker, Marcelo Arar etc).
Ironia do destino foi quando o Ronca Ronca, que era o programa em que Mau Val tocava sons ecléticos quando passou por rádios como as extintas FMs Panorama e Imprensa, quando passou um tempo nas ondas da Rádio Cidade, o programa virou um mero clone menos criativo do Novas Tendências, o que castrou a liberdade cultural de Valladares.
Na boa, os críticos musicais em geral só ouviam as ditas "rádios rock", como a Rádio Cidade e a 89 FM, no fim de noite, algo entre 21 horas e uma da madrugada. É nessa faixa horária que as "rádios rock" tentavam parecer, digamos, "verídicas", diferente da programação nutella do período diurno, que era um horror.
Parecia matinê. Locutores com aquelas vozes afetadas de radialistas pop, com vozes, linguagens e modos de dicção rigorosamente iguais aos dos locutores de FMs de dance music e música popularesca. O mesmo perfil, o mesmo comportamento, o que mostra o quanto as ditas "rádios rock" recrutaram do excedente que não foi aproveitado pelas rádios pop, depois do boom de rádios do gênero nos anos 1980.
Era um desafio à paciência de qualquer um ver locutores anunciando AC/DC e Ramones como se fossem New Kids On the Block. Pouco importa se o locutor engraçadinho contratado por uma "rádio rock" evitasse contar piadas e ficasse preso no texto, porque eram evidentes o modo "poperó" de dicção, da voz e, principalmente, da total falta de conhecimento de causa do locutor, que até pronunciava bem, mas mencionava nomes do rock como quem emitisse sons sem ter ideia do que estava falando.
E por que a crítica musical se silenciava em relação a esses problemas?
Eles estavam em outra. Eles estavam preocupados com os programas específicos de fim de noite, que "aquele amigo" da imprensa musical ou aquele "músico de rock tarimbado" apresentavam. Programas específicos, que na verdade eram ilhas de inteligência roqueira no mar de indigência que era despejado no horário diurno. Nem pareciam se dialogar, pois os programas noturnos ficavam na sua, como feudos.
Enquanto na programação diária havia locutores pop mais preocupados em sortear automóveis e viagens para Cancún com esquetes estúpidas, nos programas específicos noturnos e, em parte, no horário da madrugada - quando geralmente um locutor mais moderado falava pouco e só anunciava as músicas - , a postura era um pouco mais sóbria (bem mais no caso dos programas específicos de músico e de jornalista), além do repertório sair levemente do óbvio dos "sucessos do rock".
Paciência. Jornalistas musicais passam o dia criando pautas e trabalhando reportagens, nesse horário eles não podiam ouvir as "rádios rock" que, na ocasião, pareciam mais preocupadas em conquistar os fãs da Xuxa e do Menudo do que o público de rock, mesmo o mais adolescente.
O que mais me revoltava é que eu comecei a conhecer a Fluminense FM em 1982 e 1983, quando eu tinha 11 e 12 anos de idade, e nunca precisei de um Emílio Surita da vida para compreender o rock. Depois, mais crescido, não podia sintonizar uma "rádio rock" no período diurno porque o locutor fazia o tipo "poperó", falando de Black Sabbath como se fossem os Backstreet Boys.
Daí que, se reclamasse disso para um jornalista musical, ele ficava entediado, porque ele não conseguia perceber isso. Ele só sintonizava a dita "rádio rock" quando deitava no seu quarto, às 22 horas, após tomar banho, cumprimentar companheiro (a) e filhos e ter feito o seu jantar. Aí ele corria para ouvir, no rádio, o programa que seu amigo músico ou jornalista apresentava.
Só que eram apenas umas poucas horas por dia que não justificavam o rótulo pretensioso de "rádio rock", muitas vezes com uma vinheta em que a palavra "rock" parece ter saída de um arroto. Daí que o papo de "rádios 24 horas de puro rock'n'roll", a partir dos anos 1990, tornou-se uma mera conversa para boi dormir, mas também para irritar muito roqueiro de verdade, principalmente os potenciais radialistas de rock condenados a gerar renda trabalhando em oficinas de aparelhos eletrônicos, que tocavam mais rock do que as mais badaladas "rádios rock" no ar em nosso país.
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