As demissões de jornalistas experientes, ao lado do falecimento de vários outros, o enxugamento empresarial dos veículos de Comunicação e a substituição dos veteranos por jovens jornalistas sem uma vivência real e com difícil aprendizado sobre a realidade da vida, mostram o quanto o Jornalismo vive seu inferno astral, mesmo num contexto aparentemente "de democracia plena" em que vivemos hoje.
A invasão de comediantes influenciadores digitais, não só no ramo da dramaturgia mas também no ramo do Jornalismo, sobretudo através da porta dos fundos (olhe o trocadilho) do cargo de "analista de redes sociais" (espécie de marketing aplicado nessas mídias), mostra o quanto a missão de informar bem está declinando de maneira catastrófica (sim, é isso mesmo que estou escrevendo).
A supremacia do showrnalismo e a onda do "noticiário água com açúcar", temperada com um sensacionalismo light que aposta em mentiras como definir a cidade DO Salvador, na Bahia, como "cidade-mulher" - e isso quando os fatos mostram que uma Bahia inteira de homens negros, mestiços e pobres, uma "Bahia com H maiúsculo e masculino" migra para a capital em busca de emprego - , mostra o quanto a veracidade da informação se torna cada vez mais rara e menos difundida.
É claro que há também um vício dos redatores com o chamado "jornalismo de press release", que é o trabalho marcado pela zona de conforto de montar textos a partir de matérias previamente enviadas por agências de notícias e por textos de assessorias. Monta-se um novo texto a partir da fonte original e apenas se trocam as palavras e as formas de escrever as frases, sem acrescentar dado novo aos textos das fontes.
Isso faz com que os nossos jornalistas fazerem copidesques e não jornalismo. Por exemplo, houve um incidente envolvendo o cantor italiano Gianni Morandi, um grande ídolo local dos anos 1960 que se tornou sucesso internacional, incluindo o Brasil, e tudo o que se escreveu foi que o cantor teve uma música sua tocada no filme sul-coreano O Parasita.
Esquecemos que Gianni Morandi também foi o cantor de "C'era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones", sucesso de 1966 que, no ano seguinte, ganhou uma versão da Jovem Guarda através de Os Incríveis, que fez uma introdução calcada em "Mr. Tambourine Man", a canção de Bob Dylan na versão dos Byrds.
Até aí nada demais, mas a versão, intitulada, em tradução literal, "Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones", teve também uma regravação, em 1990, pela banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, que até hoje toca nas rádios, incluindo FMs de MPB e as supostas "rádios rock". Não há como não informar desse detalhe relacionado à trajetória de Gianni Morandi.
Acho até que, em parte, a culpa está em jogar jornalismo sobrecarregado em rádio FM, que poderia se ocupar com música e não com jornalismo e esportes. O rádio FM fez uma competição predatória contra as emissoras AM, prometia revolucionar com opinionismo, e o que vimos foi que o rádio FM passou a falar demais para uma sociedade que fala pouco e conversa só entre si, com extrovertidos que esperam que os introvertidos puxem conversa com eles para que se façam novos amigos.
Aí o que parecia ser "liberdade de expressão" e a promessa de que a "opinião de FM" iria esclarecer as mentes dos brasileiros, acabou se tornando o ovo da serpente que gerou as fake news. Sabemos que no ovo de serpente não nasce pinto e o opinionismo só acabou servindo de carteirada para radialistas oportunistas, criando um caminho que foi ensaiado pelo episódio do mensalão e depois resultou no golpismo político-jurídico de 2016.
Isso é batata. O opinionismo de FM buscou combater ou cooptar as forças progressistas para evitar suas atuações autônomas. Virou uma espécie de IPES-IBAD das ondas do rádio, muitas vezes com algum viés populista ou pseudo-esquerdista, com o locutor às vezes virando dublê de prefeito.
Em Salvador, havia a ilusão de que o opinionismo de FM iria tapar os buracos das ruas para o "cidadão" poder ir e vir de carro para uma jornada de trabalho. O "AeMão de FM", com seus "radiojornalistas" sem nível superior, mas afeitos a "opinar" com o impulso de quem sente uma coceira no corpo, já tentou combater a gestão progressista da prefeita soteropolitana Lídice da Matta.
Hoje, o filhote da ditadura Mário Kertèsz quer ser o "dono das esquerdas" na Bahia e até oferece sua Rádio Metrópole para ser "palanque" do presidente Lula. Mas os movimentos sociais não se deixam levar por esse embuste radiofônico.
Eu, pessoalmente, preferia que o rádio FM tocasse só música e passasse algum boletim noticioso. Havia mais liberdade para os ouvintes buscassem informação e muito se demonizou da falta de informação nas FMs, mas no entanto poderíamos buscar informações por conta própria e pensar a realidade conforme nossa visão de mundo. A falta de informações nos animava a pensar de forma independente e com maior chance de ficarmos fiéis aos fatos, porque não havia filtros midiáticos entre nós e os fatos reais.
Em vez disso, achávamos que a "opinião pronta" do rádio FM, servida cinicamente sob o pretexto de que ouvintes "não tinham opinião própria", corrompeu muitas mentes no Brasil e criou até a figura chata do "isentão", um pseudointelectual fabricado por audiências constantes do "noticiário de FM" e cuja visão de mundo atrofiada é marcada de muito pedantismo e muito juízo de valor.
Esquecemos que o "noticiário de FM" foi apenas o "cavalo de Troia" da mídia empresarial, em que a notícia já era tratada como "mercadoria" e a opinião seguiu o mesmo embalo, e nós, jornalistas, fomos também tentados, por motivos corporativistas, por esse mercado da visibilidade que o rádio FM acabou se tornando para nossa classe. E os ouvintes, coitados, deixaram de pensar por si mesmos porque jornalistas supostamente "esclarecidos" passaram a pensar por eles.
E eu falo disso quando o Jornalismo se tornou o "quarto poder" no Brasil. Era a glamourização da atividade jornalística, que só produziu vaidades pessoais que, com o tempo, geraram um darwinismo jornalístico tal que, nos últimos anos, isso acabou atingindo gente que tinha competência, honestidade, responsabilidade e talento que, aos poucos, era demitida sob a desculpa dos veículos de imprensa "combaterem os altos salários", uma falácia que no passado foi usada contra os servidores públicos.
Por trás do bonapartismo dos jornalistas opinadores de vinte anos atrás, houve um cenário tóxico de vaidades pessoais e uma luta pela ascensão social da qual não faziam parte os jornalistas que eram realmente competentes. Até jornalistas competentes se ascendiam nesse alpinismo profissional, mas eram poucos. Mas havia quem usava a opinião como trampolim pessoal para bancar o "dono da opinião pública" e, neste darwinismo profissional, foram eles que sobreviveram.
E aí quem era realmente bom acabava morrendo, mesmo pelas coincidências do destino, ou saindo de cena. E aí o que vemos é a contratação de jornalistas cuja visão de mundo não vai além dos filtros das redes sociais, aquela abordagem distorcida da realidade. E isso na melhor das hipóteses, mesmo quando se luta para dizer para esses redatores que não se deve botar a gíria "balada" no noticiário sério, porque é uma gíria cafona, ligada a jovens riquinhos e ao consumo de drogas e uma expressão que deveria estar fora de moda há mais de vinte anos.
Na pior das hipóteses, o que se vê são influenciadores digitais e comediantes, estes motivados pela crise do humorismo pelo patrulhamento do "politicamente correto", invadindo funções de jornalistas. O "efeito CQC" transformou o Pânico da Jovem Pan num dublê de programa jornalístico e fez muitos comediantes, mesmo de grupos que não necessariamente parodiavam os noticiários, inventarem "carreiras jornalísticas" em entrevistas de emprego só para roubar o trabalho de quem realmente precisa trabalhar no ramo da Comunicação.
E aí lembramos de piadas clichês como o comediante dublê de repórter que pergunta "Você já viu um pirarucu?" ou "Quando você transa, seu marido fica de quatro ou de cinco?" ou coisas como o humorista de estandape narrar "Eu quase levei surra de uma velhinha porque eu perguntei para ela onde fica a Rua Rodolfo Dantas, no Rio de Janeiro" (note o cacófato acidental do homenageado da rua do Leme, por sinal um jornalista).
Enquanto isso, a verdadeira informação acaba cedendo lugar a narrativas que, inserindo meias-verdades e até mentiras, prevalecem pela argumentação organizada e pela capacidade de ser compartilhada por um público maior. Com isso, o Brasil se torna cada vez mais refém de fantasias agradáveis, enquanto a realidade perde a vez e a voz. E a sociedade brasileira se diz "democrática" e "pacifista", mas briga com o senso crítico e os fatos. A situação está catastrófica no nosso país.
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