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ESQUERDAS MÉDIAS E OS "KUBITSCHEK DE BOTEQUIM"


As esquerdas médias, ou seja, as esquerdas mainstream, se empolgam quando políticos como Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, cortejam o lulismo, achando que se trata de uma adesão espontânea, marcada pelo espírito de generosidade, de inclusão social, de defesa de um projeto de sociedade libertária, solidária e igualitária.

Só que nós, preocupados com a realidade dos fatos, lembremos que, no Rio de Janeiro, não existe feijoada grátis. Eduardo Paes, um político de direita, com uma personalidade bastante parecida com a de Luciano Huck - com o qual, aliás, manifesta não só admiração recíproca, mas uma amizade que, em níveis da chamada "brodagem", daria um bom enredo de bromance - , apenas apoia Lula porque sabe que este é mais generoso em verbas públicas. É só Paes pedir que Lula não mede valores para enviar recursos.

As esquerdas médias não sabem de certas armadilhas. Ou, se sabem, fazem vista grossa. Há, por outro lado, esquerdistas mais lúcidos que expressam desconfiança quando raposas da direita usam "palavras mágicas" que conquistam os esquerdistas mainstream: "paz", "solidariedade", "interatividade", "mobilidade urbana", "sustentabilidade", "liberdade", entre outras.

As esquerdas médias são carentes e, volta e meia, elegem um "direitista de estimação" que acabam, por boa-fé, adotando como se já fizessem parte do ideário de esquerda. Os "brinquedos culturais" são um exemplo, com o culturalismo televisivo da Era Geisel, com seus "médiuns", ídolos cafonas, craques milionários e mulheres-objetos, que transformam o Brasil num "enredo de novela". Eles são acolhidos por pessoas que, em maioria, foram adolescentes ou crianças durante a ditadura, por isso acreditam que esse culturalismo nada tinha a ver com interesses estratégicos entre a mídia venal e os militares.

No quesito de liderança política, as esquerdas médias às vezes cismam com nomes da direita que parecem 'amigáveis" às causas progressistas. Apoiadores da ditadura militar, como José Sarney e o ex-prefeito de Salvador, Mário Kertèsz, hoje um dublê de radiojornalista, viraram "amigos de infância" de Lula. Quando o assunto é governabilidade, então os "direitistas do bem" passam a ser cortejados por setores influentes das esquerdas.

Há 20 anos, o ex-presidente Fernando Collor de Mello, hoje desgastado pelo apoio recente ao bolsonarismo, se passou por um apoiador de Lula, na mesma época em que o cantor breganejo Zezé di Camargo tornou-se apoiador condicional do petista, escondendo o apoio que dava, em contrapartida, ao ruralista Ronaldo Caiado.

Na época, entre 2005 e 2006, Collor virou "amigo" do antigo rival de 1989, o presidente Lula então no seu primeiro mandato, e as redes sociais, na época representadas pelo Orkut e Facebook, registravam manifestações entusiasmadas. Collor chegou a ser comparado a Juscelino Kubitschek, apesar dos dois ex-presidentes serem antônimos em termos de políticas de desenvolvimento econômico e infraestrutural.

Daí o termo "Kubitschek de botequim", que é aquele político que promete desenvolvimentismo, ou que está teoricamente associado a ele, mas que nem de longe segue o exemplo do antigo médico mineiro que investiu na construção de Brasília e que desempenhou uma real reconstrução do país no fim dos anos 1950 e no começo dos anos 1960. 

Os "cubicheques de boteco" só sabem falar, prometem demais, estão associados a um verniz de modernidade e trabalho que se descasca facilmente, pois as classes populares logo percebem que eles nunca fazem realizações concretas e benéficas, mas ações que só servem para enriquecer ou fazer lavagem de dinheiro.

Na época, Fernando Collor se dividiu em "dois". Havia o ex-presidente que havia sido condenado pelo esquema de corrupção de seu tesoureiro Paulo César Farias, e havia o então senador que viveu seus quinze minutos de fama sendo o queridinho das esquerdas médias que nunca iriam apoiá-lo se fosse entre 1989 e 1992. A situação só mudou depois que Collor passou a defender o impeachment de Dilma Rousseff, em 2014, e desde então as esquerdas passaram a repudiá-lo.

Agora é a vez de Eduardo Paes, o "gerente de parque de diversões" que encanta setores das esquerdas pela embalagem que apresenta: uma retórica aparentemente jovial e descontraída, um discurso sonhador que, em tese, deseja o progresso do Estado do Rio de Janeiro e um repertório de promessas mirabolantes narrado com falso detalhismo técnico e com certa informalidade nas palavras.

Só que até mesmo os magnatas das big techs adotam essa mesma linguagem, e Mark Zuckerberg é o que mais personifica esse jeitão de imitador de líderes estudantis que também capricha na combinação de discurso jovial com falso intelectualismo. As big techs se tornaram, ultimamente, um reduto de práticas conservadoras típicas das grandes corporações.

No entanto, Paes tornou-se o "canto de sereia" político para o confuso Estado do Rio de Janeiro, sofrendo a decadência de uma fusão imposta pela ditadura militar que faz com que um município do Rio de Janeiro sobrecarregado e uma Niterói tornada quintal da cidade vizinha façam o abraço de afogados ao sediarem juntos um futuro evento esportivo que só vai enriquecer empresários e políticos, sem trazer benefícios concretos e efetivos para o povo carioca e fluminense.

Como se não bastasse o dedo podre de voto do pessoal do Estado do Rio, sempre a procura de um salvador da pátria que, depois, se revela metido em encrencas, o apoio a Eduardo Paes acaba dividindo as próprias esquerdas, pois há gente que não se ilude com o príncipe carioca da Faria Lima.

O cartunista Carlos Latuff, que pude conhecer pessoalmente, já fez várias charges criticando Eduardo Paes. A que escolhemos aqui como ilustração mostra o desvio de verbas públicas que o prefeito carioca, que seriam destinadas à Educação pública. Paes sinaliza desviar dinheiro para empreiteiras tanto no que se refere a construção de escolas como de residências, e para fazer obras para os Jogos Olímpicos de 2016, chegou a desapropriar moradias e a invadir áreas de proteção ambiental.

Mas as esquerdas médias, compostas por gente de classe média, vão dormir tranquilas por achar que Eduardo Paes vai trazer libertação para a população carente do Grande Rio. Não vai. O que ele vai fazer são medidas meramente paliativas, como um clone estadual de Lula 3.0 ainda mais piorado do que o petista que o político carioca diz apoiar.

Paes até imitou Lula na adoção de nomes engraçados para iniciativas políticas. O bilhete único que se chamava Rio Card passou a adotar o nome ridículo de "Já É". Pastiches de Minha Casa Minha Vida, PAC e outros projetos também estão previstos no governo estadual do príncipe carioca da Faria Lima, que vai botar para quebrar com o "baile de máscaras" dos ônibus padronizados, escondendo empresas e complicando o direito de ir e vir da população.

Foram apoios assim que fizeram as esquerdas se desnortearem e perderem apoio popular. Hoje esquerdismo virou política de luxo para a burguesia ilustrada, e só não chamamos de "esquerda caviar" porque esse termo foi muito surrado pelos também patéticos bolsonaristas. O que se tem certeza é que Eduardo Paes não é um líder popular e, no caso dele ser eleito, ele só será com o apoio das classes dominantes e, quando muito, da alienada comunidade woke que cai no conto do "político jovial".

No mais, as classes populares, no Grande Rio, continuarão sofrendo a mesma tragédia de sempre.

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